Por Padre Antônio Vieira (1655)
Tomado o tempo, e tomado a qualquer força e qualquer preço, segue-se a eleição do confessor. Quem aqui obrou o milagre foi Cristo: Erat Jesus ejiciens daemonium (Lc. 11,14). O confessor está em lugar de Cristo, e quem há de estar em lugar de Deus-homem, é necessário que seja muito homem e que tenha muito de Deus. Non confundaris confiteri peccata, et ne subjicias te omni homni pro peccato:32 Não vos corrais de confessar os vossos pecados, diz o Espírito Santo, mas adverti que na confissão deles não vos sujeiteis a qualquer homem. – Se a saúde do corpo, que alfim é mortal e há de acabar, a não fiais de qualquer médico, a saúde da alma, de que depende a eternidade, por que a haveis de fiar de qualquer confessor? Indouto, claro está que não deve ser; mas não basta só que seja douto, senão douto e timorato. Confessor que saiba guiar a vossa alma e que tema perder a sua. Confessou Judas o seu pecado aos príncipes dos sacerdotes: Peccavi tradens sanguinem justum (Mt. 27,4). E eles, que lhe responderam? Quid ad nos? Tu videris: E a nós que se nos dá disto? Lá te avém. – Vede que sacerdotes, que nem se lhes dava da sua consciência, nem da do penitente que se lhes ia confessar! Haveis de escolher confessor que se lhe dê tanto da vossa consciência como da sua. E basta que seja douto e timorato? Não basta. Há de ser douto e timorato, e de valor. É tal a fraqueza humana, que até no tribunal de Cristo se olha para os grandes como grandes, e se lhes guardam respeitos, quando se lhes não faça lisonja. Andando Filipe II à caça, foi-lhe necessário sangrar-se logo, e chamaram o sangrador de uma aldeia, porque não havia outro. Perguntou-lhe o rei se sabia a quem havia de sangrar. Respondeu: Sim: a um homem. – Estimou o grande rei este homem como merecia, e serviu-se dele dali em diante. Com semelhantes homens se hão de curar no corpo e na alma os grandes homens. Com homens que sangrem a um rei como a um homem.
Posto aos pés deste homem, e nele aos pés de Deus, fale o mudo com tal verdade, com tal inteireza e com tal distinção do que confessou ou não confessou, dos propósitos que teve ou não teve, da satisfação que fez ou deixou de fazer, que de uma vez, e por uma vez acabe de sair o demônio fora. E seja com tão viva detestação de todos os pecados passados, com tão firme resolução da emenda de todos eles e com tão verdadeira e íntima dor de haver ofendido a um Deus infinitamente amável e sobre todas as coisas amado, que não só saia o demônio para sempre, e para nunca mais tornar, mas que já esteja lançado da alma quando falar o mudo: Et cum ejecisset daemonium, locutus est mutus.
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.