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#Sermões#Retórica

Sermão da Quarta-Feira de Cinza

Por Padre Antônio Vieira (1672)

O filósofo (que é gente tão cega pela presunção, como os que até agora vimos pela infidelidade) cuida que tem fortíssimos argumentos contra este mistério, e diz que não pode ser verdadeiro por muitos princípios. Primeiro, porque as naturezas e substâncias das coisas são imutáveis: logo o que era substância de pão, não se pode converter em substância de Cristo. Segundo, porque o todo é maior que a parte, e a parte menor que o todo: logo, se todo Cristo está em toda a hóstia, todo Cristo não pode estar em qualquer parte dela. Terceiro: porque o entendimento deve julgar conforme as espécies dos sentidos, que são as portas de todo o conhecimento humano: os sentidos cheiram, gostam e apalpam pão, logo pão é e não corpo de Cristo o que está naquela hóstia. Com a natureza argumenta o filósofo, e com a mesma natureza o há de convencer a razão, e muito facilmente e sem trabalho, porque com a fé ser sobrenatural, a melhor ou mais fácil mestra da fé é a natureza. Os profetas, que foram os que pregaram e ensinaram os mistérios da fé aos homens, não os mandou Deus ao mundo no tempo da lei da natureza, senão no tempo que se seguiu depois dela, que foi o da Escrita. E por quê? Douta e avisadamente Tertuliano: Praemisit tibi naturam magistrain submissurus et prophetiam, quo facilius crederes prophetiae discipulus naturae: Deu Deus primeiro aos homens por mestra a natureza, havendo-lhes de dar depois a profecia, porque as obras da natureza são rudimentos dos mistérios da graça, e muito mais facilmente aprenderiam os homens o que se lhes ensinasse na escola da fé, tendo sido primeiro discípulos da natureza: Quo facilius crederes prophetiae discipulus naturae. Se queres ser mestre na fé, faze-te discípulo da natureza, porque os exemplos da natureza te desatarão as dificuldades da fé. Ouça pois o filósofo, discípulo da natureza, por mais graduado que seja nela, e verá como lhe desfaz a razão com os princípios de sua mesma escola todos os argumentos que tem contra a fé daquele mistério. À primeira dificuldade responde a razão que não tem a filosofia que se espantar de lhe dizer a fé que a substância do pão se converte na substância do corpo, e a substância do vinho na substância do sangue de Cristo, porque este milagre vemos sensivelmente cada dia na nutrição natural do corpo humano. Na nutrição natural do corpo humano a substância do pão e do vinho não se converte em substância de carne e sangue? Pois, se a natureza é poderosa para converter pão e vinho em carne e sangue em espaço de oito horas, por que não será poderoso Deus a converter pão e vinho em substância de carne e sangue em menos tempo? Para confessar este milagre, não é necessário crer que Deus é mais poderoso que a natureza; basta conceder que é mais apressado. O que a natureza faz devagar, por que o não fará Deus um pouco mais depressa? Os dois milagres célebres que Cristo fez em pão e vinho, foram as bodas de Caná e o do deserto: nas bodas converteu a água em vinho; no deserto, com cinco pães, deu de comer a cinco mil homens26. Um reparo a ambos os casos. Para Cristo dar pão no deserto, não tinha necessidade de se aproveitar dos cinco pães; para Cristo dar vinho nas bodas, não tinha necessidade de que as jarras se enchessem de água. Pois por que não quis dar vinho, senão convertido de água? Por que não quis dar pão, senão multiplicado de pães? A razão foi, diz Santo Agostinho, porque quis que nos exemplos da natureza se facilitasse a fé das suas maravilhas27. Na multiplicação dos pães, fez o que faz a terra; na conversão do vinho, fez o que fazem as vides. Na multiplicação dos pães, fez o que faz a terra, porque a terra, semeiam-lhe pouco pão, e dá muito; na conversão do vinho, fez o que fazem as vides, porque as vides, a água que chove do céu, convertem em vinho. Isto fez Cristo no deserto, isto fez Cristo nas bodas. No deserto, de pouco pão fez muito; nas bodas, de água fez vinho. Mas se Cristo fez o que faz a terra, se Cristo fez o que fazem as vides, em que esteve o milagre? Esteve o milagre em que Cristo fez em um instante o que a terra e as vides fazem em seis meses. Oh! que boa doutrina esta, se fora hoje o seu dia! De maneira que o que distingue as obras de Deus, enquanto autor sobrenatural das obras da natureza, é a pressa ou o vagar com que se fazem. Milagres feitos devagar são obras da natureza: obras da natureza feitas depressa são milagres. Isto é o que passa no nosso mistério. Converter pão e vinho em carne e sangue, assim como o faz Cristo no Sacramento, assim o faz a natureza na nutrição, mas com esta diferença, que a natureza fá-lo em muitas horas, e Cristo em um instante. Pois, filósofo, o que a natureza faz devagar, o autor da natureza e da graça, por que o não fará depressa?



(continua...)

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