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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

- Isso é que era um grande favor, Titi! Ele chama-se Macieira...

O Macieira vesgo. E para São José saber.

Toda a noite vagueei pela cidade, adormecida na moleza do luar de julho. E por cada rua me acompanharam sempre, flutuantes e transparentes, duas figuras, uma em camisa, outra de capa à espanhola, enroscadas, beijando-se furiosamente, e só desligando os beijos pisados para rirem alto de mim e para me chamarem carola.

Cheguei ao Rossio quando batia uma hora no relógio do Carmo. Ainda fumei um cigarro, indeciso, por debaixo das árvores. Depois voltei os passos para a casa da Adélia, vagaroso, e com medo. Na sua janela vi uma luz enlanguescida e dormente. Agarrei a grossa aldraba da porta, mas hesitei com terror da certeza que vinha buscar, terminante e irreparável... Meu Deus! Talvez a Mariana, por vingança, caluniasse a minha Adélia! Ainda na véspera ela me chamara riquinho, com tanto ardor! Não seria mais sensato e mais proveitoso acreditar nela, tolerar-lhe um fugitivo transporte pelo Senhor Adelino, e continuar a receber egoístamente o meu beijinho na orelha?

Mas então à idéia lacerante de que ela também beijava na orelha o Senhor Adelino, e que o Senhor Adelino também dizia ai! ai! como eu - assaltou-me o desejo ferino de a matar, com desprezo e a murros, ali, nesses degraus onde tantas vezes arrulhara a suavidade dos nossos adeuses. E bati na porta com um punho bestial como se fosse já sobre o seu frágil, ingrato peito.

Senti correr desabridamente o fecho da vidraça. Ela surgiu em camisa, com os seus belos cabelos revoltos:

- Quem é o bruto?

Sou eu, abre.

Reconheceu-me, a luz dentro desapareceu; e foi como se aquela torcida de candeeiro, apagandose, deixasse também a minha alma em escuridão, fria para sempre e vazia. Senti-me regeladamente Só, viúvo, sem ocupação e sem lar. Do meio da rua olhava as janelas negras, e murmurava: "ai, que eu rebento!"

Outra vez a camisa da Adélia alvejou na varanda.

- Não posso abrir, que ceei tarde e estou com sono!

- Abre! - gritei erguendo os braços desesperadamente. - Abre ou nunca mais cá volto!...

- Pois à fava, e recados à tia.

- Fica-te, bêbeda!

Tendo-lhe atirado, com uma pedrada, este urro severo, desci a rua muito teso, muito digno. Mas à esquina alui de dor, para cima de um portal, a soluçar, escoado em pranto, delido.

Pesada foi então ao meu coração a lenta melancolia dos dias de estio... Tendo contado à Titi que andava a escrever dous artigos, piamente destinados ao Almanaque da Imaculada Conceição para 1878, encerrava-me no quarto, toda a manhã, em quanto faiscavam ao sol as pedras da minha varanda. Aí, arrastando as chinelas sobre o soalho regado, remoía, entre suspiros, recordações da Adélia; ou diante do espelho contemplava o lugar macio da orelha em que ela costumava dar-me o beijo... Depois sentia um ruído de vidraça, e o seu pérfido, e seu afrontoso brado "à fava!" Então, perdido, esguedelhado, machucava o travesseiro com os murros que não podia vibrar ao peito magro do Senhor Adelino.

à tardinha, quando refrescava, ia espalhar para a Baixa. Mas cada janela aberta às aragens da tarde, cada cortina de cassa engomada me lembrava a intimidade da alcovinha da Adélia; num simples par de meias, esticado na vitrina de uma loja, eu revia com saudade a perfeição da sua perna; tudo o que era luminoso me sugeria o seu olhar; e até o sorvete de morango, no Martinho, me fazia repassar nos lábios o adocicado e gostoso sabor dos seus beijos.

à noite, depois do chá, refugiava-me no oratório, como numa fortaleza de santidade, embebia os meus olhos no corpo de ouro de Jesus, pregado na sua linda cruz de pau preto. Mas então o brilho fulvo do metal precioso ia, pouco a pouco, embaciando, tomava uma alva cor de carne, quente e tenra; a magreza de Messias triste, mostrando os ossos, arredondava-se em formas divinamente cheias e belas; por entre a coroa de espinhos, desenrolavam-se lascivos anéis de cabelos crespos e negros; no peito, sobre as duas chagas, levantavam-se, rijos, direitos, dous esplêndidos seios de mulher, com um botãozinho de rosa na ponta; e era ela, a minha Adélia, que assim estava no alto da cruz, nua, soberba, risonha, vitoriosa, profanando o altar, com os braços abertos para mim!

(continua...)

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