Por Eça de Queirós (1925)
Na sua justa cólera, Alípio quis escrever um terceiro artigo em que o caso Abranches fosse revelado na sua realidade abjecta. Mas era tarde: passara um mês, a opinião desinteressarase do incidente, e o Abranches, inamovivelmente instalado na sua sinecura, parecia indiferente às cóleras da opinião ou à crítica dos poderes públicos. A Bandeira, pois, despediu-se dos seus leitores num artigo admirável em que Alípio exclama: «A Bandeira não morre: enrola-se por um momento, em virtude de considerações particulares, mas para se desfraldar ovante, um dia, cedo, e palpitar então bem alto no parapeito da Civilização, a todos os ventos da Liberdade!
Desgostado com as lutas da imprensa por este indigno procedimento do ministério, Alípio recomeçou a aplicar-se ao seu trabalho de advogado, sendo mais assíduo ao escritório do famoso Dr. Vaz Correia, com quem praticava. Vaz Correia, de quem Alípio celebrara muitas vezes na Bandeira os triunfos forenses, tinha por Alípio uma consideração a que se misturava tocantemente uma simpatia paternal. Quem não conheceu de resto aí o Dr. Vaz Correia?
Ele oferecia plenamente o tipo do rábula. Que esta palavra não seja tomada no seu sentido grotesco: o Dr. Vaz Correia era um resplandecente espelho de lealdade. Os seus olhinhos vivos que espreitavam por cima dos óculos, a sua canta redonda e enrugada, as duas repas de cabelo grisalho, espetadas como orelhas de diabo de cada lado da calva, a alta gravata de seda preta às pintas, o colete de xadrezinho, e o hábito de falar com as mãos atrás das costas, tornando saliente a sua barriguinha próspera, são feições dele bem conhecidas em Lisboa.
O que menos se conhecia era a sua grande bondade, que me faria dizer – se eu não odiasse as preciosidades de linguagem – que naquele Pegas havia um S. Cristóvão! E digo S. Cristóvão, porque, entre toda a população santificada do Reino dos Céus, este bom gigante, com a sua bonomia, a sua paciência, o seu ar paterno, me parece um modelo amável de bondade terrestre.
Eu, na realidade, ignoro os actos de bondade do Dr. Vaz Correia. Devia-os ter porém, e grandes: mas a sua história íntima é-me desconhecida. Todavia, a avaliar pelo seu procedimento com Alípio, justifica-se que eu o compare com S. Cristóvão, que, apoiado ao seu pinheiro, ajudava os fracos e os fatigados a passar a torrente traiçoeira.
Uma crise, com efeito, estalara na vida serena de Alípio Abranhos. Sua tia Amália, de cujas mesadas vivia e com cuja fortuna contava, acabava, inesperadamente, de contrair segundas núpcias com um jovem delegado de Amarante. Nem a idade, nem a obesidade (que lhe viera nos últimos anos), nem o respeito dos próprios cabelos grisalhos a retiveram, e, possuída de uma chama tardia mas exigente, trocou a delícia toda moral de apoiar a ilustre carreira do sobrinho, pelos encantos baixamente materiais de um esposo robusto. Foi para o futuro estadista um golpe severo. Sua tia, é certo, não lhe suspendia presentemente a mesada: mas a certeza da sua fortuna dissipava-se,.26 porque, não só uma dama de paixões tão ardentes poderia, apesar da idade, ter descendência, mas decerto, acorrentada à vontade do marido, veria todas as suas posses passarem para os bolsos cio delegado e dos parentes esfomeados que lhe cercavam as propriedades com olhos ávidos e cobiçosos.
Alípio teve dias de amargura: não era daqueles seres orgulhosos que erguem alto a cabeça e crêem que podem apoderar-se da fortuna pelo jogo simples das suas energias naturais. Pelo contrário, o nosso Alípio era destes sábios espíritos que nunca se arriscam na estrada da vida sem irem bem amparados da esquerda e da direita, sem alguém que os alumie adiante, e alguém que por trás os proteja das feras imprevistas.
Este desalento do seu espírito espalhava-se-lhe na expressão; e o Dr. Vaz Correia, sabedor do caso, vendo-o dobrado sobre os autos como «sobre o rio do destino», segundo a expressão bíblica, perguntou-lhe um dia, do fundo da sua poltrona:
– O amigo conhece o Desembargador Amado?
– Não conheço, senhor doutor. Isto é, conheço de reputação, de vista, mas não pessoalmente.
O doutor mergulhou sobre o papel selado, e, durante minutos, a sua longa pena de pato fez prosa sábia. Por fim, recostando-se novamente na poltrona:
– Então o amigo não conhece o Desembargador Amado?
– Não conheço, senhor doutor. Isto é, repito, pelo menos pessoalmente. Pessoa muito estimável, dizem.
O doutor anediou as duas repas grisalhas da calva, e depois de tossicar:
– Pois se o amigo quer, eu levo-o a casa do Desembargador Amado, que são amanhã os anos da filha. Conhece a filha?
– Não conheço, senhor doutor. Isto é, do mesmo modo, não conheço pessoalmente.
– Boa moça!
– Muito galante – disse respeitosamente Alípio.
Este diálogo foi, poderia dizer-se, a origem do casamento do Conde d'Abranhos, de que eu, segundo as notas do próprio Conde e os relatos de testemunhas presenciais, quero dar uma narração detalhada.
O Sr. Desembargador Amado era de uma boa família do Norte e tivera uma carreira singularmente fácil. Dizia-se dele: «aquele deixou-se ir e chegou».
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.