Por Eça de Queirós (1878)
A cozinheira fez-se vermelha, pôs-se a cantar, foi logo sacudir, estender na varanda um velho tapete esfiado; e os seus olhos não deixavam, defronte, uma casa baixa, pintada de amarelo, com um portal largo - a loja de marceneiro do tio João Galho, onde trabalhava o Pedro, o seu amante. A pobre Joana babava-se por ele. Era um rapazola pálido e afadistado; Joana era minhota, de Avintes, de família de lavrador, e aquela figura delgada de lisboeta anêmico seduzia-a com uma violência abrasada. Como não podia sair à semana, metia-o em casa, pela porta de trás, quando estava só; estendia então na varanda, para dar sinal, o velho tapete desbotado, onde ainda se percebiam os paus de um veado.
Era uma rapariga muito forte, com peitos de ama, o cabelo como azeviche, todo lustroso do óleo de amêndoas doces. Tinha a testa curta de plebéia teimosa. E as sobrancelhas cerradas faziam-lhe parecer o olhar mais negro.
- Ai! - suspirou Juliana. - A Sra. Joana é que a leva!
A rapariga ficou escarlate.
Mas Juliana acudiu logo:
- Olha o mal! Fosse eu! Boa! Faz muito bem!
Juliana lisonjeava sempre a cozinheira; dependia dela; Joana dava-lhe caldinhos às horas de debilidade, ou, quando ela estava mais adoentada, fazia-lhe um bife às escondidas da senhora. Juliana tinha um grande medo de "cair em fraqueza", e a cada momento precisava tomar a "sustância". Decerto, como feia e solteirona detestava aquele "escândalo do carpinteiro"; mas protegia-o, porque ele valia muitos regalos aos seus fracos de gulosa.
- Fosse eu! - repetiu -, dava-lhe o melhor da panela! Se a gente ia a ter escrúpulos por causados amos, boa! Olha quem! Vêem uma pessoa a morrer, e é como se fosse um cão.
E com um risinho amargo:
- Diz que me não demorasse no médico. É como quem diz: "cura-te Ou espicha depressa!"Foi buscar a vassoura a um canto, e com um suspiro agudo:
- Todas o mesmo, uma récua!
Desceu, começou a varrer o corredor. - Toda a noite estivera doente: o quarto no sótão, debaixo das telhas, muito abafado, com um cheiro de tijolo cozido, dava-lhe enjôos, faltas de ar, desde o começo do verão; na véspera até vomitara! E já levantada às seis horas, não descansara, limpando, engomando, despejando, com a pontada no lado e todo o estômago embrulhado! Tinha escancarado a cancela, e com grandes ais, atirava vassouradas furiosas contra as grades do corrimão.
- A senhora D. Luísa está em casa?
Voltou-se. Nos últimos degraus da escada estava um sujeito, que lhe pareceu estrangeirado. Era trigueiro, alto, tinha um bigode pequeno levantado, um ramo na sobrecasaca azul, e o verniz dos seus sapatos resplandecia.
- A senhora vai sair - disse ela olhando-o muito. - Faz favor de dizer quem é?
O indivíduo sorriu.
- Diga-lhe que é um sujeito para um negócio. Um negócio de minas.
Luísa, diante do toucador, já de chapéu, metia numa casa do corpete dois botões de rosa-chá.
- Um negócio! - disse muito surpreendida. - Deve ser algum recado para o Sr. Jorge, decerto! Mande entrar. Que espécie de homem é?
- Um janota!
Luísa desceu o véu branco, calçou devagar as luvas de peau de suède claras, deu duas pancadinhas fofas ao espelho na gravata de renda, e abriu a porta da sala. Mas quase recuou; fez "ah!" toda escarlate. Tinha-o reconhecido logo. Era o primo Basílio.
Houve um shake-hands demorado, um pouco trêmulo. Estavam ambos calados: - ela com todo o sangue no rosto, um sorriso vago; ele fitando-a muito, com um olhar admirado. Mas as palavras, as perguntas vieram logo, muito precipitadamente: - Quando tinha ele chegado? Se sabia que ele estava em Lisboa? Como soubera a morada dela?
Chegara na véspera no paquete de Bordéus. Perguntara no ministério; disseram4he que Jorge estava no Alentejo, deram-lhe a adresse...
- Como tu estás mudada, Santo Deus!
- Velha.
- Bonita!
- Ora!
E ele, que tinha feito? Demorava-se?
Foi abrir uma janela, dar uma luz larga, mais clara. Sentaram-se. Ele no sofá muito languidamente; ela ao pé, pousada de leve à beira de uma poltrona, toda nervosa.
Tinha deixado o "degredo" - disse ele. - Viera respirar um pouco à velha Europa. Estivera em Constantinopla, na Terra Santa, em Roma. O último ano em Paris! - Vinha de lá, daquela aldeola de Paris! - Falava devagar, recostado, com um ar íntimo, estendendo sobre o tapete, comodamente, os seus sapatos de verniz.
Luísa olhava-o. Achava-o mais varonil, mais trigueiro. No cabelo preto anelado havia agora alguns fios brancos; mas o bigode pequeno tinha o antigo ar moço, orgulhoso e intrépido; os olhos quando ria, a mesma doçura amolecida, banhada num fluido. Reparou na ferradura de pérola da sua gravata de cetim preto, nas pequeninas estrelas brancas bordadas nas suas meias de seda. A Bahia não o vulgarizara. Voltava mais interessante!
- Mas tu, conta-me de ti! - dizia ele com um sorriso, inclinado para ela. - És feliz, tens umpequerrucho...
- Não - exclamou Luísa rindo. - Não tenho! Quem te disse?
- Tinham-me dito. E teu marido demora-se?
- Três, quatro semanas, creio.
Quatro semanas! Era uma viuvez! Ofereceu-se logo para a vir ver mais vezes, palrar um momento, pela manhã...
- Pudera não! És o único parente que tenho agora...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.