Por Eça de Queirós (1870)
Se me perguntarem, porém, porque aparece M. C. de noite naquela casa com um martelo, com pregos, e se declara assassino — isso não o sei explicar. Suspeito que haja uma grande influência que pesa sobre ele, alguém que com promessas extraordinárias, com seduções indizí veis, o obriga a apresentar-se como autor docrime. M. C. eviden teme nte sacrifica-se. Por quem, ignoro-o. Mas sacrifica-se, e na ignorância de que estas dedicações são sempre desapreciadas pe rante o trabalho da polícia, quer expiar o crime de outro; perde-se para salvar alguém.Com que interesse? Por que seduções? Não sei explicar. Ele, tão indiferente ao dinheiro! tão rígido de costumes e de sensações!Pois bem! M. C. pode sacrificar-se; pode-o fazer. Nós, seus amigos, é que não podemos consenti-lo. O seu corpo, que lhe per tence exclusivamente, pode dá-lo à infecção de um cárcere ou ao peso de uma grilheta. Mas o seu carácter, a sua honra, a sua repu tação,a sua alma, essa pertence também aos seus amigos, e a par te que nos pertence havemos de defendê-la corajosamente.Não! M. C. não foi o assassino. Di-lo a evidência, a fatal lógi ca dos factos, a terrível matemática do tempo, o conhecimento do seu carácter, e a coerência dos temperamentos, que é uma verda de nas ciências fisiológicas. Não, não é o assassino. Se o diz, está louco, mente. Digo-lhe claramente, em frente, diante dos seus pró prios olhos fitos sobre os meus: — Se te declaras o autor desse crime, mentes!Ele tem decerto o senso moral transviado. Se me deixassem fa lar-lhe!... Esclareçamlhe, pelo amor de Deus, aquela razão cheia de escuras nuvens da paixão e da dor! Isto é aflitivo! Honra, amor, família, esperança, tudo esqueceu esse homem! Que se lembre, odesgraçado, que não é só neste mundo. Que se lembre que talvez a estas horas, no fundo da província, sua mãe, suas irmãs, sabem já que ele está aqui apontado como assassino! Que se lembre da ter rível desonra, do seu futuro perdido, das horas solitárias da prisão, da atrozvergonha de um interrogatório público, e do eco profundo que faz na alma humana o ruído sinistro dos ferros da grilheta.Não ponho no fim desta carta o meu nome, porque pressinto vagamente neste grupo de sucessos, confusamente conglobados perante a minha apreciação, a passagem misteriosa e fatal de um crime que vai poderosamente na direcção do seu fito, esmagando edespedaçando os estorvos que o impecem. Ora eu não quero que a publicidade do meu nome leve os cúmplices no atentado de que se trata, ou, porventura, a polícia, a aniquilar ou aembaraçar de qualquer modo a intervenção espontânea que eu próprio vou ter no descobrimento dos réus. Conto com os meus recursos, mas preciso para os pôr em prática de toda a minha liberdade.Creia-me, senhor redactor, etc. — Z.
DE F... AO MÉDICO
1 Julho 21, à 1 hora da noite. — Meu querido amigo. — Ignoro se estás em tua casa, paraonde te dirijo esta carta, ou se continuas, como eu, permanecendo aqui em cárcere privado. Em qualquer dos casos, recebidas agora ou encontradas mais tarde, estas letras ficarãoencenando para aquele de nós que houver de as ler a lem brança proveitosa das horas mais extraordinárias da nossa vida.
Escrevo mais para coordenar e fixar na memória estes mo mentos do que paraempregar noutro destino puramente hipoté tico esta carta. Será uma página das minhas confidências que entregarei à discrição ou ao acaso da posta, reservando-me o direi to de lhepedir que mas restitua a seu tempo.
Não tornei a ter noticias tuas desde que nos separámos ontem à noite, pouco tempo depois de termos entrado na sala em que es tava o cadáver. O mascarado que se encarregarade me conduzir ao quarto onde me acho, deu-me o seu braço e disse-me ao ouvi do um nome de mulher, a indicação de uma rua e o número de uma porta. Era o nome da pessoa quesabes e a designação da casa em que ela mora! Creio que involuntariamente estremeci, mas consegui dizer serenamente:
— Não o compreendo.Este indivíduo era o mesmo que na carruagem se conservara sempre calado, o mesmo que na sala me observava com atenção e desconfiança.
Aquela estatura, aquela fala, aquela voz, posto que apenas perceptível ao meu ouvido,não eram novas para mim.
Ele respondeu falando-me ainda mais baixo:- Não poderá sair daqui antes de dois ou três dias. Veja se precisa de escrever uma carta ou de mandar um recado.
Passou-me pela mente uma ideia a respeito daquele homem... Se fosse...Ocorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era efectivamente ou se não era um amigo intimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o relógio; bastar-me-ia apalpá-lo,ainda vendado como eu estava, para reconhecer o dono. A ser o indivíduo que eu supunha, a caindo relógio teria lisura do esmalte e no centro a saliência de um brasão.
— Escreverei duas linhas — disse eu -, quererá dar-me um lápis?Tínhamos chegado ao quarto que me era destinado e eu des vendei-me ao tempo em que ele safa prometendo trazer-me o ne cessário para escrever. O indivíduo que voltou compapel e penas: não era o mesmo que acabara de sair. Assim tinha eu perdido a ocasião de confirmar uma suspeita ou de desvanecer uma dúvida.
Em todo ocaso escrevi duas linhas ao meu criado serenando-o: com relação ao meudesaparecimento.
— Mais nada? -interrogou o desconhecido tomando o meu bi lhete.- Nada mais. Um sentimento de delicadeza e uma sombra de desconfiança impediam-me de escrever directamente à pessoa a quem o mascarado se referira.Fecharam a porta e fiquei só.
Achei-me num quarto de interior, bastante espaçoso, mas sem janela. A um lado haviaum lavatório; sobrepostas a um canto três malas de viagem, de couro de Varsóvia com pregos de aço, estrela tias com senhas de caminho-de-ferro, de hotéis e de paquetes; a que estava por cima das outras tinha em grandes letras pretas sobre uma tira de papel este dístico: GrandHotel-Paris; uma das senhas era dos paquetes ingleses da carreira da Índia.Para outro lado do quarto havia uma cama. Completava a simples guarnição deste aposento um sofá forrado de marroquim verde, colocado n meio da casa defronte de uma ampla mesaem que estava posta a minha ceia à luz fulgurante de um grande candeeiro com largo abatjour.
Queres que te confesse a verdade? Agradou-me aquele recolhi mento, aquele sossego,aquela solidão, depois da grande sobre-excitação em que me tinha achado!
Estirei-me no sofá, pus-me a olhar maquinalmente para o círculo da luz trepidanteprojectada pelo candeeiro e contornada n tecto pela abertura do abat-jour, e começaram adesafogar-seme os comprimidos espasmos do coração em bocejos longos acompanhados de estremecimentos nervosos, que me convidavam suavemente ao repouso. A minhaimaginação, ocupada num trabalho inconsciente semelhante ao dos sonhos, ia tirando, no entanto, do caso que eu presenciara as ramificações mais ilógicas e mais fantásticas. Ossucessos por que passámos desde a estrada de Sintra até à minha entrada neste quarto apareciam-me redemoinhando convulsamente no ar como um enorme enigma figurado, cujos objectos tumultuavam impelidos pelos pontapés de diabinhos sarcásticos, que se riampara mim e me deitavam de fora as linguazinhas em brasa.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.