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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

E Medeiros, em camisa, repetia a frase, lembrando-se dos olhos negros de Ludovina, do seu papel, revirando-o também em todos os sentidos como o outro fizera.

E subitamente veio-lhe um furor terrível contra o Machado. Que diabo, já era necessário ser canalha! Enfim, ela tinha culpas no cartório. Quando elas queriam, que diabo, não se podia ser José do Egito... Mas nunca com a mulher dum amigo íntimo, e de mais a mais dum sócio...

— Isso pede sangue – disse ele, excitado, saltando para o meio do quarto em camisa, com os pés nas chinelas.

Godofredo exclamou, ressalvando logo a sua coragem:

— Eu queria um duelo de morte, mas logo a sua coragem:

Então Carvalho apelou para o amigo Medeiros olhou-os, espantado. Não, decerto que não. Nem havia motivos para isso, nem...

Era a Segunda vez que ele ouvia aquela razão que não havia motivo: e então barafustou:

— Não há motivo! Então qual é o motivo bastante para que dois homens se matem?...

— Um escarro na cara, ou uma coisa dessas – disse com autoridade o Medeiros que, ainda em camisa, dava à pressa uma penteadela no cabelo.

Godofredo queria argumentar, mas o outro, voltando-se, com o pente na mão, terminou a questão:

— Mesmo que houvesse motivo, eu uma coisas dessas não aceito. Numa dessas não me meto...

— Aí tens tú! – exclamou Carvalho em triunfo.

— Que disse eu? Ninguém quer uma responsabilidade dessas... Eu, de mais a mais, com a mulher de esperanças... Olha que brincadeira.

Um momento Alves ficou como abatido. E todavia sentia um começo de alívio, como se parte de toda aquela indecisão em que estava desde a véspera desaparecesse, e alguma coisa se fixasse. Agora estava decidido que não haveria sortes, nem acasos; que não haveria morte de homem; e em toda aquela atarantação em que até ali estivera, isto formava um ponto fixo, uma base, uma decisão, em que se poderia apoiar. E não era ele que o decidira: eram os seus melhores amigos, que raciocinavam a sangue-frio. Mas, em todo o caso, posta de parte a morte dum deles, alguma coisa se havia de fazer.

— Que aconselham então vocês, que se há-de fazer? Eu não hei-de ficar assim, de braços cruzados...

Medeiros, então, de pé no meio do quarto, em camisa, com as canelas magras à mostra, os pés numas grandes chinelas, exclamou, com solenidade:

— Queres pôr a tua honra nas minhas mãos?

Está claro que queria, não estava ali para outra coisa.

— Bem – exclamou Medeiros. – Então não tens mais que pensar. Deixa-te levar, nós arranjaremos tudo.

E foi para dentro, para um cubículo, onde o ouviram lavar os dentes, bochechar, fazer uma tempestade dentro da bacia.

Godofredo porém não parecia satisfeito, aproximou-se da porta do cubículo, queria ainda saber...

— Não tens nada que saber – exclamou de dentro o outro, lavando-se, com um ruído de esponja e água... – Nós também não podemos saber. Temos de ir primeiro ao Machado, ver o que ele diz, entendermo-nos com as testemunhas dele, etc.... Tu vais para casa, e não saias até que nós apareçamos... E deixa-nos aí tipóia, ouviste, para dar esses passos todos... Domingos, escova a sobrecasaca preta; e calças pretas... Tudo de preto...

Ouvindo isto, Carvalho deu um olhar ao seu próprio fato de cheviot claro. Mas ele não era dessas pieguices de toilettes : com uma camisa lavada em cima da pele, um homem estava decente para ir a toda a parte.

Godofredo todavia passeava ainda pensativo. E terminou pôr dizer ao Carvalho o que o perturbava:

— É necessário que vocês levem já condições feitas. E eu, menos de ser à pistola e a vinte passos...

— Deixa lá isso com o Medeiros – disse o Carvalho.

E o Medeiros, aparecendo logo, com a toalha na mão, o cabelo molhado, acrescentou:

— Olha, tu entenderás de coisas de negócios. Mas de coisas de ponto de honra, entendo eu... Tu desde este momento não tens senão a esperar que nós te vamos dizer – é a tais horas, em tal sítio, e com tais armas. E depois no dia seguinte, marchar! Não tens mesmo que te ocupar do médico. Eu peço ao gomes, que entende muito de feridas... E não é homem para perder a cabeça, se um de vocês ficar escalavrado de todo.

Godofredo sentiu pela espinha um arrepio, e o coração encolher-se. E do lado, Carvalho dizia:

— E tu vais para casa, se tens que fazer, ou papéis a pôr em ordem, ou outra coisa...

Não falara em testamento, mas era uma alusão ao testamento. E aquilo irritou Alves. Decerto ele era o primeiro a querer que o duelo fosse sério, fosse mortal...

Mas enfim, aqueles seus dois amigos, os seus melhores amigos, os seus íntimos, um a falar já de feridas, outro a empurrá-lo para a porta para ir fazer testamento, pareciam-lhe grosseiros, inutilmente cruéis... Sem uma palavra, desceu. E atirando-se, pensou esta coisa profunda:

(continua...)

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