Por Eça de Queirós (1901)
perfumado, um dos familiares do 202, Todelle (Antonio de Todelle), moço já calvo, de infinitas prendas, que conduzia Cotillons, imitava cantores de Café-Concerto, temperava saladas raras, conhecia todos os enredos de Paris.
-Já veio?... Já cá está o Grão-Duque?
-Não, S. Alteza ainda não chegara. E Madame de Todelle?
-Não pôde... No sofá... Esfolou uma perna.
-Ó!
-Quase nada... Caiu do velocípede!
Jacinto, logo interessado:
-Ah! Madame de Todelle anda já de velocípede?
-Aprende. Nem tem velocípede!... Agora, na quaresma, é que se aplicou mais, no velocípede do padre Ernesto, do cura de S. José! Mas ontem, no Bosque, zás, terra!... Perna esfolada. Aqui.
E na sua própria coxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolão. Efraim, brutal e sério, murmurou: - “Diabo! é no melhor sítio!” Mas Todelle nem o escutara, correndo para o diretor do Boulevard, que se avançava, lento e barrigudo, com o seu monóculo negro semelhante a um pacho. Ambos se colaram contra uma estante, num cochichar profundo.
Jacinto e eu entramos então no bilhar, forrado de velhos couros de Córdova, onde se fumava. Ao canto
dum divã, o grande Dornan, o poeta neoplatônico e místico, o Mestre sutil de todos os ritmos, espapado nas almofadas, com um dos pés sob a coxa gorda, como um Deus índio, dos botões do colete desabotoados, a papeira caída sobre o largo decote do colarinho, mamava majestosamente um imenso charuto. Ao pé dele, também sentado, um velho que eu nunca encontrara no 202, esbelto, de cabelos brancos em anéis passados pôr trás das orelhas, a face coberta de pó de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findara certamente alguma história de bom e grosso sal – porque diante do divã, de pé, Jovan, o supremo Crítico de Teatro, ria com a calva escarlate de gozo, e um moço muito ruivo (descendente de Coligny), de perfil de periquito, sacudia os braços curtos como asas, e gania: “delicioso! divino!” Só o poeta idealista permanecera impassível, na sua majestade obesa. Mas, quando nos acercamos, esse Mestre do ritmo perfeito, depois de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das pálpebras, começou numa voz de rico e sonoro metal:
-Há melhor, há infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame Noredal. Madame Noredal tem umas imensas nádegas...
Desgraçadamente para o meu regalo, Todelle invadiu o bilhar, reclamando Jacinto com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no fonógrafo uma ária da Patti! O meu amigo sacudiu logo os ombros, numa surda irritação:
-Ária da Patti...Eu sei lá! Todos esses rolos estão em confusão. Além disso o Fonógrafo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho três. Nenhuma trabalha!
-Bem! – exclamou alegremente Todelle. – Canto eu a Pauvre fille... É mais de ceia! Oh, la pauv’, pauv’, pauv’...
Travou do meu braço, e arrastou a minha timidez serrana para o salão cor-de-rosa murcha, onde, como Deusas num círculo escolhido do Olimpo, resplandeciam Madame de Oriol, Madame Verghane, a princesa de Carman, e uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e de ombros tão nus, e braços tão nus, e peitos tão nus, que o seu vestido branco com bordados de ouro pálido parecia uma camisa a escorregar. Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho: - “Quem é?” Mas já o festivo homem correra para Madame de Oriol, com quem riam, numa familiaridade superior e fácil, Marizac (o duque de Marizac) e um moço de barba cor de milho e mais leve que uma penugem, que se balouçava gracilmente sobre os pés, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado contra o piano, esfregava lentamente as mãos amassando o meu embaraço, quando Madame Verghane se ergueu do sofá onde conversava com um velho (que tinha a Grã-Cruz de Santo André), e avançou, deslizou no tapete, pequena e nédia, na sua copiosa cauda veludo verde-negro. Tão fina era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastidão do peito, todo nu e cor de nácar, que eu receava que ela partisse pelo meio, no seu lento ondular. Os seus famosos bandós negros, dum negro furioso, inteiramente lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro de ouro que os circundava, reluzia uma estrela de brilhantes, como na fronte dos anjos de Boticelli. Conhecendo sem dúvida a minha autoridade no 202, ela despediu sobre mim ao passar, com raio benéfico, um sorriso que lhe liquescia mais os olhos líquidos, e murmurou:
-O Gão-Duque vem, com certeza/
-Ó com certeza, minha senhora, para o peixe!
-Para o peixe?...
Mas justamente, na antecâmara, rompeu, em rufos e arcadas triunfais, a marcha de Rakoczy. Era ele! Na Biblioteca, o nosso retumbante mordomo anunciava:
-S. Alteza o Grão-Duque Casimiro!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.