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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

O particular ficou atordoado. Aquilo era uma catástrofe. Quando ele e o mordomo reapareceram na sala do armário, os criados viram-lhe os olhos rasos de lágrimas.

Entristecia ver-se o pobre homem.

Estava desvairado; não sabia para onde voltar-se. Sofria como se visse no remorso do seu descuido uns vigamentos de forca.

Ficou prostrado em poucos minutos, como se houvesse passado por uma crise de febre.

O mordomo, que resistia melhor ao peso da responsabilidade que lhe cabia, teve energia para tomar algumas providências.

Mandou imediatamente um recado ao palácio dos Bananeiras, narrando a descoberta do roubo e pedindo ao marquês d’Etu que mandasse dizer que procedimento devia ter em tais emergências; mandou outro portador ao palacete do marquês de *** a fim de, no caso de não haver ainda o duque partido para Anatópolis, dar-lhe notícia do ocorrido.

O primeiro portador chegou ao palácio com o marquês d’Etu, que quisera acompanhá-lo.

O segundo voltou dizendo que o sr. duque resolvera, por se achar um pouco incomodado, adiar a partida para Anatópolis, e estaria em Santo Cristo antes do meio-dia. À vista disso, julgara inútil incomodar o amo com a notícia.

O mordomo aprovou a iniciativa do criado, principalmente porque se achava em Santo Cristo o marquês d’Etu e substituiria perfeitamente o duque, para resolver conforme o caso exigia.

O portador que fora ter com o sr. d’Etu não pudera informá-lo, por não saber das jóias que faltavam. Um terrível pressentimento, porém, avisou ao príncipe dos cortiços de que ele também fora vítima dos ladrões.

Mandou aprontar, com a maior brevidade, o carro, meteu-se nele, mal disfarçando a meia toillette de manhã, e foi chegar à quinta de Santo Cristo ao mesmo tempo que o portador que o visitara.

A entrada do marquês no palácio do pai foi como a de uma bala na torre de um couraçado.

Sem encontrar degraus nem dificuldades, o marquês chegou à sala do armário como que de um salto. Os que aí estavam, assustaram-se com a sua entrada. Passou-lhes repentinamente pelo cérebro a idéia de um assalto no palácio.

Não era, felizmente, coisa tão medonha.

Quando, depois de um estrondo, o reposteiro da entrada ergueu-se bruscamente, não foi uma horda vandálica que invadiu o salão, foi simplesmente o filho do duque de Bragantina.

— Roubaram-me alguma jóia? — exclamou ele, caindo sobre o mordomo como uma onça.

— Sim, sr. marquês — respondeu o mordomo, com a voz tímida e recuando instintivamente.

— Que foi?... — rugiu o marquês. — O que me roubaram?

— Um anel de brilhantes!

— Um anel de brilhantes! — explodiu o fidalgo.

— Sr. marquês!... — ponderou o mordomo. — É cedo talvez para V. Exa.

incomodar-se.

— Por quê?... Por quê?... — interrogou furioso o sr. d’Etu.

— Porque eu falo unicamente por suposições. — Então como tem a ousadia?!...

— Perdão... mas, suposições bem fundadas...

— Explique-se! Não me enfureça!

— Perdoe-me, vossa excelência, se o desgosto...

— Diga-me por que são fundadas...

— São fundadas... porque os srs. duques, quando vão a alguma festa, tencionando depois seguir para Anatópolis, sem retornar aqui ao palácio, mandam, para guardarmos, as melhores jóias.

— E o meu anel?

— O anel de vossa excelência é das melhores jóias...

— E o que tem isso?...

— A sra. duquesa, tendo o levado, necessariamente mandou-o entre as jóias que vieram ontem.

— Entre as jóias roubadas!... — bradou o marquês, dolorosamente.

Os criados continuavam enchendo a sala, como que esperando ordens.

O marquês, como se notasse repentinamente a presença deles, voltou-se exabrupto e gritou:

— O que querem vocês aqui?

Os criados, movidos por uma só mola, baixaram um cumprimento e, com a sua seriedade obediente e servil, afastaram-se de costas alguns passos, saindo depois todos por um dos lados da sala.

O particular do duque, que estivera inertemente encostado a uma janela, fugiu para o seu aposento.

O marquês ficou só com o mordomo, que já completara o vestuário, deixando o robe de chambre.

O fidalgo teve, então, um acesso de furor. Começou a trocar largas passadas pelo soalho como um andarilho mecânico a que se tivesse dado corda.

— Roubado! — repetia. — Roubado!

Quando passou-lhe o acesso de raiva ambulante, o marquês assumiu um ar de desconsolação:

— Uma jóia de tal preço!... É possível?!

Depois de ter respeitado por algum tempo o desespero do marquês, o mordomo perguntou receosamente:

— Que acha V. Exa., que eu devo fazer?

O marquês não deu resposta imediatamente. Esteve abstrato alguns segundos e depois perguntou:

— O que está dizendo?

— V. Exa. ordena que se chame a polícia?

— Ah! Pois ainda não chamou?

— Queria antes aconselhar-me...

(continua...)

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