Por Raul Pompéia (1881)
O moço, que se afastara da jovem, pega-lhe nervosamente nos formosos braços, apenas velados por brandos filós e diz-lhe, com os dentes cerrados, fora de si:
- Teu pai vinha matar-te, desgraçada!
E Rosália atira-se sobre ele e solta um grito de furor:
- Assassino, eu te amo!
Raul Pompéia
AMOR DE INVERNO
Ora, para que havia de dar-me a mania!... Lembrei-me de amar uma velha!...
A gente chega a saciar-se de tudo, até do vinho quente da juventude. Em amor, uma das cousas apreciadas é o amor que custa; pelo menos, o amor que precisa que o busquemos para vir: mil vezes mais apreciado que o amor que vem ao nosso encontro. Maomé, com certeza, não se arrependeu de ir até a montanha. Ora, a juventude é assim. Tem o defeito, em amor, de vir ao nosso encontro. Há o instinto, nos seios rijos da virgindade, que os impele a esmagar-se, amassar-se, emolir-se, de encontro ao peito que se lhes acerca.
A grande idade é já esquiva.
O verão passou. Tem uns dias de sol, como o inverno os tem. Mas, são sugestões tranqüilas da saudade. Os sóis, Os grandes sóis passaram.
Quem sabe? Haverá, talvez, um vivo prazer em ir a gente abrir uma réstea estival de claridade no firmamento nublado desses dias! Espera, S. Medardo, padroeiro dos dias úmidos... guarda o aguaceiro um pouco... que eu vou mandar àquela pobre, de presente uma nesgazinha de bom tempo...
Tomei a sério a minha intenção.
Logo ao terceiro dia, aliás à noite, achei o meu ideal.
Velha, velha, velha, velha...
Imaginem um belo ideal de cabelos brancos, curvo e tremulo, de carnes tenras entre galantina e faisandé.
Dous olhos negros brilhavam como alcaparras em cima daquela iguaria branca.
A minha atenção fervorosa atraiu a dela. Daí a Pouco, seguíamos, trocando olhares. Os dela de curiosidade, naturalmente.
Mais de perto, com a iluminação pública pude ver-lhe dous cachinhos em espiral gamenha de saca-rolhas, que lhe faziam voltas de S aos lados da fronte.
Com a vista firme, percebi que aqueles caracóis prolongavam-se sutilmente pela velha adentro; enrolavam-se num sorriso que ela tinha nos lábios e iam até à alma, envolvendo-a como a cauda cansada de um velho demônio aposentado.
Abordei-a.
- Não vê que sou respeitável? replicou ela com certa gravidade benevolente.
Respeitável, até veneranda... disse eu comovido, recuando um cumprimento.
E pus-me a caminhar em silêncio ao lado dela (que não se apressou) olhando para a ponta dos meus sapatos que alternadamente eu batia com a ponteira fina da bengala.
Os lampiões iam passando... Embaixo de cada lampião, eu aproveitava o gás, para ver a minha velha. Não estava de má cara.
- Acredita na simpatia? perguntei.
- O que chama simpatia? perguntou-me.
- E a aliança que prende duas pessoas a um simples encontro, sem porquê nem porquê não...Vem do grego syn, com pathos, afeição.
Este grego foi de uma infelicidade a toda a prova; mas, com uma velha, em amor, não há perigo mesmo em falar grego.
Depois, novo silêncio. Os bicos de gás. da calçada vinham de tempos a tempos iluminar o nosso silêncio. Eu estudava de esguelha a minha aventura.
Aventura, vejam lá! Quem me visse ao lado daquele camafeuzinho com quem eu ia, supor-meia, entretanto, um numismata a passeio com o seu museu, ou algum jovem fidalgo (permitam) que estivesse a arejar a sua árvore genealógica.
- Então o senhor simpatizou mesmo comigo?
- Sim, respondi-lhe eu, que andava a mil léguas com a imaginação. Sim, minha senhora: dogrego syn, com pathos, sentimento.
Ela repetiu a pergunta. Eu respondi-lhe com um sorriso tímido. Daí para diante encaixamos definitivamente um no outro, dous silêncios afetivos do melhor efeito. E fomos.
A minha árvore genealógica, depois de muito tempo, voltou-se para mim e, a meia voz, como se concluísse uma doce frase, cujo princípio lhe ficara no espírito, falou:
- Vou para casa...
Não lhes posso fazer o retrato da fisionomia que, naquele momento, um bico de gás iluminoume. Era a ternura, a. gratidão, a surpresa, o prazer, e mesmo a lascívia, quem o diria!... Eu senti, oh! vulcões extintos! o corpo inteiro da velha flamejar num incêndio que lhe passava a saia de seda, que me passava a roupa, como um bafejo de fornos, que me bafejava a carne.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.