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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

O assunto do visconde era a doença do real personagem, a grave moléstia do imperador. Todos o ouviam em grande silêncio e com grande respeito, por se tratar ainda uma vez do homem para quem o Brasil inteiro voltava-se naquele momento da vida nacional. A aristocracia brasileira, já ouvindo falar em república, e zeloza das suas posições e dos seus créditos, temia um desastre político, um assalto ao Poder, naquela hora de tristeza, quando na verdade que os médicos tinham aconselhado ao Chefe da nação um passeio à Europa, uma vilegiatura em Spa ou em Cannes...

— E a imperatriz, como deixou o senhor a imperatriz? — perguntou a mulher do desembargador, inclinando-se para o visconde.

— A imperatriz, minha senhora, é aquele mesmo coração, aquela mesma brandura: diz que há de morrer onde morrer o velho... Uma santa!

— Mas, quando pretende embarcar a família imperial? — interrogou Furtado.

— Por enquanto nada está resolvido. Sua Majestade não quer precipitar uma viagem dolorosa, tem saudades do Brasil.

— Coitado!... — murmurou D. Branca, sem tirar os olhos do capitalista.

— E ninguém sabe, afinal, qual é a doença do imperador! — disse o velho Lousada.

— Não é coração? - atalhou a dama de honor.

O visconde, muito respeitosamente, pediu licença à nobre senhora para dizer que não, que o Sr. D. Pedro II estava com uma glicosúria...

— Glicosúria? Que é glicosúria?

— Diabetes...

— Creia o senhor que ainda não compreendi...

— Diabetes... glicosúria... — fez o visconde atrapalhado, esfregando-se os dedos.

— Enfraquecimento cerebral, minha mulher — explicou Lousada convictamente.

— Não é bem enfraquecimento cerebral; o enfraquecimento, segundo ouvi dizer, é um dos múltiplos sintomas da diabetes... — emendou o banqueiro. — A glicosúria é... é uma doença dos rins.

— Açúcar na urina, homem, creio que está muito bem dito açúcar na urina! — opinou o Dr. Condicional interrompendo as suas reflexões poéticas para emitir juízo científico.

— É... — confirmou friamente o visconde.

— Pois eu já ouvi dizer por um médico ilustre que Sua Majestade sofre de um esgotamento nervoso... — falou o secretário.

— Em francês surmenage, isto é, excesso de trabalho mental... — explicou ainda uma vez, com um ar pedante, o literato.

As indiscretas e bruscas explicações do Dr. Condicional causaram má impressão ao visconde que perguntou baixinho a Furtado "se aquele moço era doido".

Os últimos incômodos do soberano interessavam mais à população fluminense que a alta ou baixa do câmbio ou que a queda estrondosa de um ministério em peso. Na Rua do Ouvidor, na Bolsa, nas secretarias de Estado, nas redações de jornais, todo o mundo comentava a diabetes do monarca, citando pareceres de alta valia, recordando feitos ilustres do segundo imperador, como se o homem já estivesse nas ânsias da morte, discutindo o caráter da enfermidade, que, para uns era diabetes, para outros lesão cardíaca, para outros ainda, esgotamento nervoso, e, finalmente, para um grupo de cortesãos, um ligeiro incômodo dos rins. E ninguém acertava com o verdadeiro mal que se apoderava lento e lento do imperial organismo. O governo, escrupuloso por demasia quando se tratava do chefe da nação, ficava mudo ante a curiosidade do povo, sem dar à Câmara o gostinho de lhe responder às sucessivas interpelações. Deputados e senadores erguiam a voz no seio do Parlamento, inquirindo sobre os "fatos que alarmavam o país inteiro" e quer o presidente do Conselho de Ministros, quer o Secretário do Império, diziam simples e laconicamente que "Sua Majestade estava em pleno gozo das suas prerrogativas e das suas faculdades". Mas o grande caso que os boatos enchiam as ruas, comunicando-se, num furor de incêndio, a todas as casas, a todos os arrabaldes e a todas as províncias. Falava-se mesmo na ida do imperador para a Tijuca e daí, se não melhorasse, para bordo de um vapor estrangeiro. Que ia fazer Sua Majestade na Tijuca - ele que só arredava o pé da Boa Vista para Petrópolis? O clima da Tijuca era quase o de Petrópolis: que ia ele fazer ao alto da Tijuca?

Multiplicavam-se as dúvidas e os comentários. Os barões e os viscondes, que se sentiam incomodados, apregoavam logo a sua diabetes, o seu enfraquecimento nervoso; e a palavra surmenage, até então pouco vulgarizada, tornou-se uma palavra à moda, um vocábulo chique para exprimir dor de cabeça, indisposição nervosa e até impurezas do sangue. Todo o Rio de Janeiro era uma grande surmenage...

O visconde de Santa Quitéria, ao cabo de meia hora, reconheceu que as notícias de que fora portador involuntário enchiam de tristeza os convidados de D. Branca, e, um pouco no ar, um pouquinho sem Saber o que dissesse, ele, o gentleman, o correto homem de salão, nunca supérfluo, nem amigo de contrariar o próximo, bandeou-se para Adelaide.

— V. Exa. tem gostado da Corte?

A esposa de Evaristo acordou da abstração em que mergulhara e respondeu timidamente, com um leve suspiro:

— Sim, senhor... muito!

(continua...)

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