Por Inglês de Sousa (1891)
Era natural do Rio de Janeiro, carioca da gema. Aquilo, sim é que era terra! Cursara dois anos da antiga Escola Central. Não gostara das matemáticas, era mais amigo das ciências sociais, e se fora rico, teria ido estudar a S. Paulo, teria entrado para a troça do Varela, do Castro Alves, teria sido talvez um Álvares de Azevedo. Era, porém muito pobre. Um tio, que o ajudava, fartara-se de o aturar e pusera-o fora de casa, quando saíra reprovado em cálculo diferencial, ao segundo ano. Arranjaram-lhe um lugar de caixeiro de armarinho à Rua do Cano, mas não ficara no emprego mais de três meses. O patrão era um galego, burro como seiscentos galegos e malcriado como todos os da sua igualha. Chico Fidêncio não estivera para o aturar, e despedira-se da casa, passando-lhe uma descompostura descabelada. Um dos fregueses do armarinho, que tinha queixas do patrão, meteu-o de condutor num ônibus de carreira de S. Cristóvão. Era uma vida deliciosa, divertida, cheia de episódios interessante e que contribuíra muito para a educação do Chico Fidêncio. Ouvia tanta coisa! Estava a par da política toda, conhecia todos os homens notáveis, sabia de mil pormenores da sua vida pública e particular. Soubera da resolução do ministério na crise bancária de 1864, antes de publicada nos jornais, vira Christie furioso, por ocasião do conflito entre o Brasil e a Inglaterra, dera fogo ao José Liberato quando fora pela primeira vez a S. Cristóvão! Era uma vida deliciosa, toda a gente o conhecia e o cumprimentava, dava-lhe cigarros. Infelizmente fora obrigado a deixá-la por intrigas dum cocheiro, seu inimigo. Havia já dado um passo decisivo na vida... entrara para a maçonaria! E o primeiro benefício que tirara dessa acertada resolução fora conseguir um lugar de despenseiro a bordo do vapor Santa Cruz, da Companhia Brasileira do Norte. Mais tarde, numa das viagens deixar-se ficar no Pará, porque enjoava muito, não nascera para a vida do mar. Tinha feito amizade a bordo com um deputado geral, cuja família gostava das passas, nozes e figos secos, com que Chico a presenteava generosamente. Obtivera uma cadeira pública, num arrabalde de capital, e a regenera durante um ano inteiro. Mas rompera a questão religiosa, e o Chico Fidêncio, fiel aos seu homens de roupeta que ele importava de Roma. A nomeação era interina, e o presidente, um carola, que ouvia missa todos os domingos, quisera ser agradável a D. Antônio, e demitira o professor amigo do livreexame. Ficara então sem recursos. Recorrera à maçonaria, mas a maçonaria era impotente na administração daquele rato de sacristia que governava a província. Só podia obter um emprego no comércio, mas as suas aspirações não se davam com tal modo de vida. Demais, no comércio do Pará governavam os portugueses, e o Fidêncio, apesar de maçom enragé, nunca perdoara aos portugueses os desaforos que sofrera do dono do armarinho. Antes morrer de fome do que, no seu país, sujeitar-se novamente a ser mandado por um galego!
Enfim, Silves não pertencia ao Pará. O seu amigo Filipe do Ver-o-peso, um português excepcional, dissera-lhe que Silves era uma boa terra, não tinha professor que prestasse, e oferecera-lhe uma carta de recomendação para o seu correspondente Costa e Silva. Viera para tentar fortuna, e aqui soubera granjear muita consideração, graças à sua incontestável inteligência e aos conhecimentos que obtivera na sua acidentada existência.
A principio encontrara franca hostilidade, principalmente das mulheres, que o achavam antipático e desagradável, as lambisgóias! Como se ele não fosse da corte do Rio de Janeiro, que elas nunca haviam de conhecer! Depois embirraram com as suas idéias anti-religiosas, porque as expunha com a máxima franqueza, a todo o momento em qualquer ocasião, sem resguardo das conveniências devidas às pessoas e aos lugares. Ninguém lhe dera discípulos, poucos o cortejavam, nenhuma família lhe oferecera a casa. Até o próprio Costa e Silva, posto estivesse arrochado pela carta do Filipe do Ver-o-peso, tivera certas friezas, porque era católico, achava a religião necessária, principalmente para o povo. Parecia que temiam a infecção das heresias daquele inimigo da Igreja, já condenado em vida às penas eternas.
Fidêncio ergueu-se de novo, foi à janela e cuspiu para fora:
— Idiotas!
Voltou para junto da mesa, aliviado, preparou um cigarro, acendeu-o, sentouse de novo firmando-se sobre os pés traseiros da cadeira, utilizada para balanço e, reatou o fio das suas recordações:
Alguns homens, na fácil convivência das portas das lojas, onde à tarde se renova diariamente o processo da sindicância da vida alheia, começaram a gostar de ouvir dizer mal de tudo e de todos, com umas frases novas, uns ditozinhos agudos, uma certa maneira de exprimir as idéias, entremeando calemburgos com palavrões sonoros e sibilando muito os ss, que adquirira ao tempo de estudante e de caixeiro de armarinho. Conquistara a fácil mentalidade dos bons matutos de Silves, posto não lograsse cativar-lhes o coração desconfiado. Mas o Chico Fidêncio tinha tanta graça! Tinha uns modos não sei como o diacho do mestre-escola! Sabia tão bem o ridículo duma pessoa ou duma coisa, que os seus ataques eram irresistíveis. Os matutos reconheciam assim, o seu incontestável mérito.
Um dia, lembrara-se de escrever uma correspondência para uma folha de Manaus, a propósito da última sessão do júri no termo, e dissera umas coisas agradáveis ao juiz de direito que lhe valeram a proposta para adjunto do promotor público, cargo que nunca fora servido na comarca e de que não havia necessidade. E satisfeito com o resultado obtido pusera-se em ativa correspondência com o jornal de Manaus, o Democrata, órgão público, noticioso, comercial, científico e independente, que lhe estampara a prosa, contente por ter matéria nova com que encher as colunas da obrigação. As cartas do Chico Fidêncio não seriam talvez muito lidas na capital da província, mas em Silves eram devoradas avidamente, comentadas, discutidas durante quinze dias a fio. O seu estilo tinha umas vezes o sarcasmo ferino da conversação ordinária, e outras, quando o Chico calçava as suas tamancas de jornalista grave, e queria discutir um assunto com a seriedade necessária, subia aos fraseados sonoros, recheados de declamações bombásticas, de trechos de bons autores, de citações novas, com muita erudição de idéias e palavras bebidas aqui e ali, na leitura de periódicos e panfletos.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.