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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Imoral o casamento! — logo, todo o homem ou toda a mulher que persiste ao lado um do outro, depois da amamentação do primeiro filho, é um ente imoral? E minha filha, minha pobre Palmira, teria de ficar eternamente solteira, privada dos seus direitos naturais de mulher, ou teria de ser uma criatura imoral, quer tomando para companheiro de vida um amante, quer aceitando um marido?...

Que horror!

Seria preferível conservá-la virgem, ou seria isto ainda maior atentado? Se o casamento é imoral porque é contra as leias da natureza, o celibato casto também o é pela mesma razão.

Conservá-la virgem! Mas conservá-la virgem seria matá-la por dentro, secando-lhe com a abstinência forçada a vida dos seus mais importantes órgãos, os órgãos direta e indiretamente empenhados na procriação! Mas uma mulher é toda ela, dos seus pequenos pés brancos e fracos, aos longos, cetinosos e tépidos cabelos, um simples aparelho de amor! Tirem-lhe o que foi formado para o conjunto do mister propagador, e o que fica?

Sim! por que tem ela os quadris mais amplos e volumosos que o homem? por que tem as coxas grossas, as mãos mimosas, e pele fina? por que tem peitos tão doces e tão macios? por que tem os lábios vermelhos e a boca livre e desembaraçada de barba, senão para dar beijos? e por que tem o rosto liso e rosado, senão para provocá-los e recebê-los? por que tem os olhos súplices, lamentosos, banhados em ternura e desejo? por que tem os cabelos tão compridos e tão perturbadores? e por que uma longa existência, de menina a octogenária, desde a primeira boneca ao último netinho, ela só viveu para a carícia e para o amor? e só teve uma função real e constante — amar, abraçar, beijar?

Não! minha filha não ficaria assim perdida para o seu verdadeiro destino de mulher!

Mas, se o casamento como a mancebia eram ambos imorais e não podiam proporcionar a felicidade que eu sonhava para ela, Palmira precisava de um novo cooperante genésico todas as vezes que tivesse de ser mãe. E isso, valha-me Deus! seria a mais completa e feia prostituição; seria perdê-la irremediavelmente para a moral e para a sociedade!

Oh! só agora, depois de pensar em tudo isto, é que vejo quanto fui casta e quanto fui boa; quanto fui sacrificada e quanto fui generosa! Que me não ouçam as mulheres fracas e vulgares; perder-se-iam com a minha dolorosa filosofia. Mas as fortes, as espartanas do lar doméstico, se algum dia souberem do segredo destas confissões, que se consolem com a minha heróica desgraça, porque só essas compreenderão as orgulhosas lágrimas que chorei.

Triste de mim, pobre mãe, cujo único ideal na vida era agora a inteira felicidade de minha filha, e acabava de compreender que semelhante felicidade era impossível, tanto no celibato casto, como no matrimônio, como na concubinagem, como na prostituição. E fora disso, nada havia a explorar.

Que desespero!

Cheguei a lembrar-me do Mormonismo, a amaldiçoada seita polígama de José Smith. Mas, no dogma dos mórmons, o caso essencial era precisamente contrário ao que me parecia indispensável à felicidade fisiológica da mulher e às conveniências individuais do filho. Lá o homem tem o direito de tomar quantas esposas lhe apeteçam, desde que as possa manter; a mulher, porém, essa há de contentar-se com um só marido, se é que se pode chamar um marido a um homem partilhado por vinte esposas. Um vigésimo de marido!

Ora, se um achava eu insuficiente para bem gerar todos os filhos de uma mulher, quanto mais a vigésima parte de um! Entretanto, lendo de boa-fé a exposição dos princípios filosóficos e religiosos dos mórmons, abalei-me com certos preceitos da moralidade conjugal por eles estabelecida e observada. Afirmam com orgulho que, no mundo civilizado, são os únicos bons e honestos cumpridores do sagrado mandamento de Deus: “Crescei e multiplicai-vos”, porque um varão pode procriar duzentos filhos, e uma mulher nunca mais de vinte.

Como, pois, exigir que seja uma só mulher a mãe de todos os filhos que produza um homem, quando precisa ela de dois anos para a gestação, parto e criação de cada um? Não será isso constranger o marido a uma destas três coisas: — ou condenar-se à esterilidade forçada, para não faltar a fé conjugal; ou transigir das regras da boa higiene, aproximando-se da consorte nos períodos em que não deve; ou procriar fora do casal o que lhe fará ser pai de alguns filhos legítimos e, ao mesmo tempo, de muitos e muitos filhos inconfessáveis? Não seria melhor, mais digno e mais generoso, argumentam eles, que o homem, em vez de ter uma só mulher legítima e várias concubinas de ocasião, e que, em vez de ter filhos reconhecidos e filhos abandonados, aceitasse corajosamente as imposições do seu organismo e vivesse claramente, à luz da legalidade, com todas as suas consorciadas, sem subterfúgios desleais e dissimulações ridículas?

(continua...)

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