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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Ella foi logo ao toucador tirar o chapéo, dar um geito ao cabello. Elle não cessava de a beijar; abraçava-a pela cinta; e com os rostos juntos sorriam para o espelho, enlevados no brilho da sua mocidade. Depois, impaciente, curiosa, ella percorreu os quartos, miudamente, até á alcova de banho; leu os títulos dos livros, respirou o perfume dos frascos, abriu os cortinados de sêda do leito... Sobre uma commoda Luiz XV havia uma salva de prata, transbordando de retratos que Carlos se esquecera de esconder, a coronella

d'hussards d'amazona, madame Rughel decotada, outras ainda. Ella mergulhou as mãos, com um sorriso triste, na profusão d'aquellas recordacões... Carlos, rindo, pediu-lhe que não olhasse «esses enganos do seu coração».

Porque não? dizia Maria, séria. Sabia bem que elle não descera das nuvens, puro como um seraphim. Havia sempre photographias no passado d'um homem. De resto tinha a certeza que nunca amára as outras como a sabia amar a ella.

- Até é uma profanação fallar em amor quando se trata d'essas coisas d'acaso, murmurou Carlos. São quartos de estalagem onde se dorme uma vez...

No emtanto Maria considerava longamente a photograptfia da coronella d'hussards. Parecia-lhe bem linda! Quem era? Uma franceza?

- Não, de Vienna. Mulher d'um correspondente meu, homem de negocios... Gente tranquilla, que vivia no campo...

- Ah, Viennense... Dizem que tem um grande encanto as mulheres de Vienna!

Carlos tirou-lhe a photographia da mão. Para que haviam de fallar d'outras mulheres? Existia em todo o vasto mundo uma mulher unica, e elle tinha-a alli abraçada sobre o seu coração.

Foram então percorrer todo o Ramalhete, até ao terraço. Ella gostou sobretudo do escriptorio d'Affonso, com os seus damascos de camara de prelado, a sua feição severa de paz estudiosa.

- Não sei porque, murmurou dando um olhar lento ás estantes pesadas e ao Christo na cruz, não sei porque, mas teu avô faz-me medo!

Carlos riu. Que tonteria! O avô se a conhecesse, fazia-lhe logo a côrte rasgadamente... O avô era um santo! E um lindo velho!

- Teve paixões?

- Não sei, talvez... Mas creio que o avô foi sempre um puritano.

Desceram ao jardim, que lhe agradou tambem, quieto e burguez, com a sua cascatasinha chorando n'um rythmo dôce. Sentaram-se um instante sob o velho cedro, junto a uma mesa rustica de pedra, onde estavam entalhadas letras mal distinctas e uma data antiga; o chalrar das aves nos ramos pareceu a Maria mais dôce que o de todas as outras aves que ouvira; depois arranjou um ramo para levar como relíquia.

Mesmo em cabello foram vêr defronte as cocheiras: o guarda-portão ficou de boné na mão, embasbacado para aquella senhora tão linda, tão loira, a primeira que via entrar no Ramalhete! Maria acariciou os cavallos, e fez uma festa grata e mais longa á Tunante, que

tantas vezes levára Carlos á rua de S. Francisco. Elle via n'estas simples coisas as graças incomparaveis d'uma esposa perfeita.

Recolheram pela escada particular de Carlos - que Maria achava «mysteriosa» com aquelles velludos grossos côr de cereja, forrando-a como um cofre, e abafando todo o rumor de saias. Carlos jurou que nunca alli passára outro vestido - a não ser o do Ega, uma vez, mascarado de varina.

Depois deixou-a no quarto, um momento para ir dar ordens ao Baptista: mas quando voltou encontrou-a a um canto do sofá, tão descahida, tão desanimada, que lhe arrebatou as mãos, cheio d'inquietação.

- Que tens, amor? Estás doente?

Ella ergueu lentamente os olhos que brilhavam n'uma nevoa de lagrimas.

Pensar que tu vaes deixar por mim esta linda casa, o teu conforto, a tua paz, os teus amigos... É uma tristeza, tenho remorsos!

Carlos ajoelhára ao seu lado, sorrindo dos seus escrupulos, chamando-lhe tonta, seccando-lhe n'um beijo as lagrimas que rolavam... Considerava-se ella então valendo menos que a cascata do jardim e alguns tapetes usados?...

- O que eu tenho pena é de te sacrificar tão pouco, minha querida Maria, quando tu sacrificas tanto! Ella encolheu os hombros, amargamente.

- Eu!

Passou-lhe as mãos entre os cabellos, puxou-o brandamente para o seu seio - e dizia, baixo, como fallando ao seu proprio coração, calmando-lhe as incertezas e as duvidas:

- Não, com effeito, nada vale no mundo senão o nosso amor! Nada mais vale! Se elle é verdadeiro, se é profundo, tudo mais é vão, nada mais importa...

A sua voz morreu entre os beijos de Carlos, que a levava abraçada para o leito - onde tentas vezes desesperava d'ella como d'uma deusa intangivel.

Ás cinco horas pensaram em jantar. A mesa fôra posta n'uma saleta que Carlos quizera em tempo revestir de colxas de setim cor de perola e botão d'ouro. Mas não estava ainda arranjada; as paredes conservavam o seu papel verde-escuro; e Carlos puzera alli ultimamente o retrato de seu pai - uma teia banal, representando um moço pallido, de grandes olhos, com luvas de camurça amarella e um chicote na mão.

(continua...)

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