Por Eça de Queirós (1888)
da casa adormecida; e que tambem elle penetrava alli, as escondidas, como o homem da manta... De certo era bem differente! Toda a immensuravel differença que vai do divino ao bestial... E todavia receava despertar os melindrosos escrupulos de Maria, mostrando-lhe,
parallelo ao seu amor cheio de requintes e passado entre brocados côr d'ouro, aquelle outro rude amor, secreto e illegitimo como o d'ella, e arrastado brutamente na relva... Era como mostrar-lhe um reflexo da sua propria culpa, um pouco esfumada, mais grosseira, mas parecida nos seus contornos, lamentavelmente parecida... Não, não diria nada. E a pequena?... Oh, nas suas relações com Rosa a creatura continuaria a ser, como sempre, a puritana laboriosa, grave e cheia d'ordem.
A porta envidraçada sobre o jardim tinha ainda luz: elle atirou aos vidros uma pouca de terra solta, depois bateu de leve. Maria appareceu, mal embrulhada n'um roupão, juntando os cabellos que se tinham desenrolado, e meia adormecida.
- Porque vieste tão tarde? Carlos beijou longamente os seus bellos olhos pesados, quasi cerrados. - Adormeci estupidamente, a lêr... Depois, quando entrei pareceu-me ouvir passos na quinta, andei a rebuscar... Era imaginação, tudo deserto.
- Precisavamos ter um cão de fila, murmurou ella, espreguiçando-se.
Sentada á beira do leito, com os braços cahidos e adormentados, sorria da sua preguiça.
- Estás tão fatigada, filha! queres tu que me vá embora ?...
Ella puxou-o para o seu seio perfumado e quente.
- Je veux que tu m'aimes beaucoup, beaucoup, et longtemps...
Ao outro dia Carlos não fôra a Lisboa, e appareceu cedo na Toca. Melanie, que andava espanejando o kiosque, disse-lhe que Madame, um pouco cançada, tinha justamente tomado o seu chocolate na cama. Elle entrou no salão: defronte da janella aberta, sentada no banco de cortiça, miss Sarah costurava, á sombra das arvores.
- Good morning, disse-lhe Carlos, chegando-se ao peitoril, todo curioso de a observar.
- Good morning, sir, respondeu ella com o seu ar modesto e tímido.
Carlos fallou do calor. Miss Sarah já áquella hora o achava intoleravel. Felizmente a vista do rio, lá em baixo, refrescava...
Sobretudo a noite passada, insistiu Carlos accendendo a cigarrette, fôra tão abafada! Elle mal pudera dormir. E ella?
Oh, ella dormira d'um somno só. Carlos quiz saber se tivera bonitos sonhos.
- Oh yes, sir.
- Oh yes! mas agora um yes pudico, sem gemidos, com os olhos baixos. E tão correcta, tão pregada, fresca como se nunca tivesse servido!... Positivamente era extraordinaria! E Carlos, torcendo o bigode, pensava que ella devia ter um seiosinho bem alvo e bem redondinho!
Assim ia passando o verão nos Olivaes. No começo de setembro, Carlos soube por uma carta do avô que Craft devia chegar a Lisboa, n'um sabbado, ao Hotel Central: e correu lá cedo, logo n'essa manhã, a ouvir as novidades de Santa Olavia. Achou Craft já a pé, diante do espelho, fazendo a barba. A um canto do sofá, Eusebiosinho, que viera na vespera á noite de Cintra e estava tambem no Hotel, limpava as unhas com um canivete, em silencio, coberto de negro.
Craft vinha encantado com Santa Olavia. Nem comprehendia como Affonso, beirão forte, tolerava a rua de S. Francisco, e o quintalejo abafado do Ramalhete. Tinha-se passado régiamente! O avô, cheio de saude, d'uma hospitalidade que lembrava Abrahão e a Biblia. O Sequeira optimo comendo tanto que ficava inutil depois de jantar, a estoirar e a gemer no fundo d'uma poltrona. Lá conhecera o velho Travassos, que fallava sempre com os olhos cheios de lagrimas do «talento do seu caro collega Carlos.» E o marquez esplendido, com abraços de primo a todos os fidalgotes de Lamego, e apaixonado por uma barqueira... De resto soberbos jantares, alguns tiros aos coelhos, uma romaria, danças de raparigas no adro, guitarradas, esfolhadas, todo o dôce idyllio portuguez...
- Mas a respeito de Santa Olavia temos a fallar mais sériamente, disse por fim Craft, entrando na alcova, a ensaboar a cabeça.
- E tu, perguntou então Carlos, voltando-se para o Eusebiosinho. Tens estado em Cintra, hein? Que se faz lá?... O Ega?
O outro ergueu-se guardando o canivete, ageitando as lunetas.
- Lá está no Victor, muito engraçado, comprou um burro... Lá está o Damaso tambem... Mas esse pouco se vê, não larga os Cohens... Emfim tem-se passado menos mal, com bastante calor...
- Tu estavas outra vez com a mesma prostituta, a Lola?
Eusebiosinho fez-se escarlate. Credo! estava no Victor, muito sério! O Palma é que lá tinha apparecido com uma rapariga portugueza... Tinha agora um jornal, A Corneta do Diabo.
- A Corneta...?
- Sim, do Diabo, disse o Eusebiosinho. É um jornal de pilherias, de picuinhas... Elle já existia, chamava-se o Apito; mas agora passou para o Palma; elle vae-lhe augmentar o formato, e metter-lhe mais chalaça...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.