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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

A resposta, no dia seguinte encontrada, fora traçada sobre um papel preso a uma varinha e era do teor seguinte:

"Ao Comandante da expedição brasileira:

Estarão os oficiais das forças paraguaias sempre atentos a todas as comunicações que se lhes quiserem fazer; mas no atual estado de guerra aberta entre o Império e a República, só de espada desembainhada poderemos tratar convosco. Não nos atingem os vossos disparos de peça e quando tivermos ordens de os obrigar a calar, há no Paraguai campo de sobra para as manobras dos exércitos republicanos".

Era a letra de mão firme e corrente. Apunha-se-lhe o selo da República: barrete frígido por sobre um leão rompante.

As fórmulas empregadas em tal resposta atestavam certo grau de cultura intelectual e boa educação. Mas veio logo o insulto. Recebeu o comandante uma folha de couro na qual se estampavam os seguintes versos, mais grosseiros do que ingênuos:

"Avança, crânio pelado!

Mal-aventurado general que espontaneamente Vem procurar o túmulo".

A isto se ajuntava:

"Crêem os brasileiros estar em Concepción para as festas; os nossos ali os esperam com baionetas e chumbo".

Bravatas sem alcance, nada tendo de sério. Mas o que o era, e no mais alto grau, viam-no todos, vinha a ser a impossibilidade de nos abastecermos. O 21.° batalhão mandado novamente, a 27, para ajuntar e trazer gado, nada conseguira; e embora a ninguém perdesse numas escaramuças de cavalaria, voltava com a triste certeza de que a região estava para conosco nas disposições as mais negativas e hostis.

Assim, pois, tomou o comandante a resolução de manter, por algum tempo, na Bela Vista; e numa expedida pelo viajante Joaquim Augusto, que determinou que a Nioac lhe enviassem munições, a bagagem dos soldados e o arquivo da coluna. Avisara aos oficiais que, a seu turno, deviam mandar vir tudo quanto haveriam de precisar para uma assaz larga estada. Mas a falta de gado tornava insustentável a própria posição de Bela Vista. Começávamos a sentir a penúria nas distribuições de viveres. Era preciso sem mais detença procurar uma solução ou avançar na esperança de bater o inimigo, que, à nossa frente, não podia ter grandes contingentes, visto como a guerra ao Sul da República para ali atraíra a maior parte das suas forças (e então, após algum feito feliz, teriam as nossas patrulhas mais largo raio de ação sobre o gado errante nas campinas); a não ser assim convinha retrogradar para os distritos da fronteira, menos desprovidos de recursos.

Esta alternativa, semelhante opção, veio por completo arrancar a calma ao nosso comandante. Tornou-se-lhe a agitação do espírito visivelmente violenta. Pôsse de novo a imaginar a calúnia a abocanha-lo em toda a província de Mato Grosso, sobretudo na capital, e assim, pois, como a refletir, em voz alta, deixava escapar exclamações que debalde tentava sufocar: "Por toda parte me atassalham, dizia, apregoam que até agora nunca tivemos encontro sério com o inimigo e apostam que jamais o teremos".

Nesta perturbação e à falta de dados exatos para a escolha de um alvitre, os refugiados, indiretamente consultados, começaram, com maior insistência do que até então o haviam feito, a falar de uma fazenda chamada Laguna, cerca de quatro léguas de Bela Vista, pertencente aos domínios do Presidente da República e destinada à criação do gado.

Ali acharíamos, afiançavam, grandes rebanhos, posições firmes e base para operações. Depois, como esta sugestão não parecesse desgostar ao Coronel, vários oficiais que o cercavam, e a quem parecia consultar, deixaram convencer-se. "Por que, exclamaram, não haveremos de ir até Concepción como nos desafiam? Viemos parar tão longe para recuar? Contanto que possamos contar com um quarto de ração, não há um único soldado que hesite em seguir os chefes, e com eles não deseje tentar a fortuna do Brasil".

À testa dos mais ardentes via-se o capitão Pereira do Lago, oficial tão ousado quanto positivo e obstinado. Dotado desta coragem que facilmente se exalta, e jamais decai do nível a que se alçou, coube-lhe, certamente, a maior responsabilidade nas nossas temeridades. Mas, também, soube sempre, mais tarde, nos transes mais difíceis de nossa retirada, fazer frente a todas as necessidades do momento, pela atividade, poderosa iniciativa e perspicácia do descortino, grandes qualidades que lhe vinham realçar a doçura, a singeleza e o bom gênio.

CAPÍTULO IX

Ordem de marcha. Formatura do corpo expedicionário. O mascate italiano. O major José Tomás Gonçalves. Surpresa e tomada do acampamento paraguaio da Laguna.

Acabara o coronel Camisão de determinar que marcharíamos sobre a Laguna. A 30 de abril levantamos acampamento para estacar á margem do Apa-Mi, ribeirão que dista uma légua do forte da Bela Vista.

(continua...)

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