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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Para o homem do norte o engenho de açúcar é o representante de imemoriais e gloriosas tradições. Especialmente o pernambucano nasce vendo com amigos olhos aquelas grandes propriedades que são como os seus castelos feudais. O engenho é o solar do norte. A nobreza do país principiou por ele; não conheceu outro solar. Ele figura nas maiores paginas da historia daquela parte do vasto império. Sua importância é lendária, histórica e santa.

E querem agora que á cana-de-açúcar se substitua o café! Promovem a extinção do giganteo elemento que produziu e perpetuou fortunas respeitáveis naquela grande região!

Aperfeiçoar os processos de cultura dessa planta ilustre, a que Pernambuco deve brilho e grandeza imorredoura, é digno do progresso. O direito senão o dever de melhorar as condições da agricultura, do comercio, das industrias, está acima de toda duvida; mas suprimir um gênero de cultura que tem por se a consagração de muitos séculos e elevou muitas gerações e opulentou a província, não me parece nem justo, nem acertado, nem econômico.

Voz secreta e consoladora, dissipando os meus temores, segreda-me que tu, ó planta benfazeja – estandarte da independência e da riqueza do pernambucano, seja qual for a conspiração tramada contra ti, não hás de desaparecer das nossas planícies, dos nossos outeiros, dos nossos vales e encostas, por onde estendes há três séculos tua folhagem hospitaleira.

A botada tendo caído em um sábado, ficou Francisco com o menino para passar o Domingo.

De manhã muito cedinho, Lourenço achou-se de pé, contentando a vista no movimento que lhe oferecia a novidade. Não se fartava de ver os negros passar com feixes de lenha e de bagaço para alentarem o fogo da fornalha. Ia e vinha com eles, fazia-lhes perguntas sobre diferentes coisas que observava, mas não compreendia. Recebia as explicações com visível prazer.

Norando que voltava aos partidos a buscar novos feixes de canas, um carro que acabava de ser descarregado á porta do engenho, Lourenço saltou sobre a mesa dele e deixou-se conduzir aos canaviais de açúcar, coisa que, para bem dizermos, só conhecia de nome.

Quando suas vistas adejaram por sobre aquele mundo de verdura, experimentou sua alma indizível impressão de contentamento.

Eis o que o menino viu.

Formando um cordão, os negros estavam ali a cortar com afiadas foicinhas de mão as canas que outros iam despojando das folhas e atirando no campo, assim privadas da sua verde plumagem. Grandes pilhas delas mostravam-se do meio do imenso tapete de folhas. As hastes, pouco antes graciosas, estavam agora nuas e sem elegância. Sua formosa roupagem cobria o seu leito de morte.

Na véspera tinha sido distribuído aos negros fato novo, que eles traziam ainda sobre o corpo, visto que a festa emendara com o Domingo. Com suas ceroulas e camisas azuis, seus chapéus de palha de pindoba, tão novos como a roupa, figuravam eles uma linha de soldados que derribava matos para assaltar fortificações inimigas.

Levando os olhos ao lado oposto ao de que vinha o corte, o menino só descobriu ai estendido mares de folhas ondulantes. Eram os canaviais novos, que agitavam seus panos de verdura ao sabor das virações campesinas.

Lourenço voltou do engenho perdido por ele. A festa tornara-o expansivo e contador de historias, tudo o que com ele se passara, e o que vira, foi referido circunstancialmente a Marcelina, não esquecendo o menino nem as quedasde-corpo que pegará com outros meninos na bagaceira.

- Se meu pai tivesse um engenho, a coisa havia de ser outra – dizia ele de quando em quando no curso da narração.

- E porque não há de ter? inquiriu Marcelina. Se tu nos ajudares, no fim de alguns anos poderemos comprar uma engenhoca, ou ao menos um torcedor. Do torcedor vai á engenhoca, e da engenhoca ao engenho. Tu bem vês que todos nós trabalhamos. Onde está Francisco? Foi á vila vender abacaxis. Eu, como vês, estou fazendo minhas esteiras para ele levar a quem as encomendou aqui adiante, na encruzilhada. Só tu não trabalhas ainda. E queres um engenho! Sem trabalhares não hás de ter nem de comer nem de vestir, quanto mais engenho.

Pensando consigo só, Lourenço levantou-se sem dizer palavra, deu volta pelo sitio, e tornou á salinha da casa, que era a oficina de Marcelina. Esta o viu arrastar um tamborete para junto dela e uma rodilha de cipós para junto de si. Sentando-se no tamborete, o menino cortou os cipós pelo modo e medida que Marcelina lhe ensinou, e hei-lo a trabalhar pela primeira vez depois da sua chegada ao Cajueiro.

Vendo-o exercitar tão vem a sua atividade espontaneamente, como tocado de celeste inspiração, Marcelina não pôde suster as lagrimas. Lourenço, a seus olhos, acabava de dar testemunho de emenda, resultado da constância e paciência com que ela o dirigia para o bem desde o dia de sua chegada.

Estava de feito ali uma conquista do seu esforço abençoado por Deus, inquebrantável esteio dos crentes.

VII

(continua...)

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