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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

A visita de Umbelina e sua filha, como é de costume na roça, durou quase todo o dia. As vizinhas, em companhia da dona da casa e de Eugênio, correram a casa toda, foram ao moinho, ao paiol, passearam pelo quintal, comeram frutas, colheram flores, jantaram e tomaram café três ou quatro vezes. Eugênio as acompanhava mas quase sempre um pouco afastado, taciturno e sorumbático e apenas dizendo uma ou outra palavra, quando sua mãe ou Umbelina o interpelavam. Estava como que espantado, com os olhos fitos em Margarida, querendo falar, e não achando nada que dizer. As grandes emoções lançam uma nuvem no espírito e paralisam a língua.

Margarida, porém, que ainda não tinha sido iniciada nos rigores e escrúpulos da vida claustral, e por cujo espírito nunca passara a idéia de ser freira, abandonava-se com efusão à alegria de tornar a ver o seu companheiro de infância, e sorria, cantava, brincava como uma borboleta por entre os canteiros florescidos do jardim, ou pelas sombras do pomar, apanhando flores e frutas que vinha oferecer a Eugênio, e com suas alegres conversas e encantadoras travessuras o provocava a sair daquele estado constrangido e acanhado em que o via.

De repente, Margarida, dando uma volta pelo jardim, apanhou duas flores e correu a apresentá-las a Eugênio.

— Aqui estão duas flores — disse ela —, um cravo e uma rosa. O cravo é você, a rosa sou eu. Fique com a rosa, que eu guardarei o meu cravo. Aquele que deitar fora a sua flor, é porque não sabe querer bem.

Eugênio tomando a flor, pela primeira vez ousou fitar em Margarida olhos ardentes de ternura e paixão; mas para logo os abaixou, e cobriu-se de rubor, como faria a mais pudica e tímida virgem.

— Oh!... Margarida!... eu — ia dizendo o moço, porém Margarida voltandose ligeira sem o escutar foi correndo para junto de sua mãe, que se achava a alguma distância com a senhora Antunes.

— Eu te adoro!... — era por certo o que Eugênio ia dizer; essa palavra, porém, Margarida já a tinha lido nos olhos do mancebo.

Em sua ingênua candura, Margarida, não enxergava inconveniente algum em reatar e mesmo, se fosse possível, estreitar os laços da sua antiga, familiaridade e afeição para com o amigo da sua infância. Como a flor, que entrega sem resistência o perfume do seu cálix ao sopro das virações, ela dava livre expansão aos inocentes afetos do seu coração.

Quando as visitas se foram embora, Eugênio pôs-se a refletir e ficou muito descontente de si mesmo. A lembrança do papel nulo e quase ridículo que fizera diante de Margarida mortificava-o, e protestou de si para si que quando fosse à casa da Umbelina, havia de tirar completa desforra.

Portanto, no dia seguinte pela manhã Eugênio apressou-se em ir pagar a visita às suas boas vizinhas. Era em princípio de outubro; a manhã estava risonha e brilhante, as primeiras chuvas já tinham lavado os horizontes desse vapor fumacento que os abafa nos meses de agosto e setembro, e que, desbotando-lhes as cores e confundindo-lhes as formas, os envolve como em um véu místico de saudade e melancolia. O ar estava tão transparente, o céu era de um azul tão puro e límpido, que permitiam ver distintamente em toda, a sua nitidez as formas e ondulações das últimas colinas nos mais remotos longes. O sol cintilava sobre o tapete orvalhado dos espigões, e a fresca aragem da manhã sacudia da coma das árvores as lágrimas da noite.

À medida que se ia aproximando da casa de Umbelina, à vista daqueles sítios, onde não havia uma, árvore, uma restinga, que não tivesse recebido os vestígios de seus passos, uma fonte ou arroio que não lhe tivesse lambido os pés ou umedecido os lábios sequiosos, ia-se cada vez mais exaltando na imaginação de Eugênio a viva e profunda impressão que na véspera nele deixara a presença de Margarida. Era a encantadora e pitoresca moldura que circundava, a imagem de um anjo.

Aquela, alva casinha atufada entre as ramagens da grande figueira, silvestre, aquele vargedo coberto de fresca e macia grama, a ponte, a tronqueira, as paineiras vizinhas, o caminho da vila, que ia serpeando entre os capões e galgando de colina em colina, todo esse panorama o enlevava, e lhe afogava o coração num pego de mil suaves emoções.

O rumorejo daquelas folhagens, o murmúrio daquele córrego, o canto dessas aves, o eco dessas brenhas, como que lhe sussurravam ao ouvido um hino de amor, de felicidade e de esperança.

Todos aqueles seres eram também seus conhecidos, seus amigos de infância, que festejavam sua volta, e com ela exultavam de prazer.

Como respirava à larga o peito do mancebo através dos campos e colinas da terra natal! que bálsamo salutar e vivificante lhe entornavam na alma aquelas auras impregnadas de aromas silvestres, que lhe bafejavam a fronte e brincavam com seus cabelos!

(continua...)

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