Por Bernardo Guimarães (1872)
- Esta carta é para Lúcia, Simão; tu mesmo a irás levar em sua casa na fazenda do Major; é um último favor que quero te merecer. Ninguém lá te conhece, pedirás pousada, e é impossível que despertes a menor suspeita. Lá procurarás entrega-la ocultamente a uma velha escrava por nome Joana, que a levará fielmente às mãos de Lúcia.
- Vá sossegado, patrão; a carta há de ser entregue.
A carta de Elias era assim:
“Já lá vão seis meses que nos separamos e que me acho aqui na Bagagem, onde a fortuna me não sorriu. Manda-me agora destino que eu vá tenta-la bem longe daqui, porém com muito melhores esperanças. Parto hoje para o Sincorá. Não te assustes, minha querida, com a distância que vai separar- nos. Em qualquer parte que eu vá, te amarei sempre com o mesmo ardor e lealdade. Falta-me ainda ano e meio para cumprir o meu fadário. mas não esmoreçamos; conserva-me fiel e puro o teu amor, tua confiança no futuro e na Providência, e o céu nos protegerá. Adeus, até o prazo marcado. ”
Daí a um instante Elias, em companhia de seu protetor, partia para o Sincorá.
V - O BAIANO
Já perto de dois anos eram passados, depois que Elias descoroçoado de encontrar no solo da Bagagem ao menos os elementos de uma riqueza, que se tornara condição indispensável para sua felicidade, ralado de saudades e com o espírito oscilando entre as mais sinistras a´preensões e as mais lisonjeiras esperanças, partira para longes terras em busca de fortuna, fiado na proteção de um homem que lhe era inteiramente desconhecido, abandonando seu destino à mercê da fatalidade.
A Bagagem já então apresentava o aspecto de uma povoação nascente, cheia de comércio, vida e animação, como são em seu começo todos os descobertos diamantinos. Já não eram simplesmente os toscos ranchos cobertos de baguaçu espalhados em desordem ao longo das margens do rio. Por entre eles alvejavam já não raras algumas casas caiadas e envidraçadas, como garças pousadas entre um bando de pardacentas pombas silvestres.
Algumas ruas menos irregulares se iam formando, e nelas viam-se já bonitas e bem sortidas lojas e casas de negócio de toda a espécie.
A Bagagem contava em seu seio talvez vinte mil almas à custa dos municípios vizinhos, que ficaram despovoados.
Quase todo o Patrocínio, o Araxá, grande parte do Piracatu e Uberaba tinham-se mudado para as matas da Bagagem.
O Major também não ficara isento da mania geral, e, tentado pelo demônio do garimpo, deixou quase em completo abandono sua lavoura, e veio estabelecer-se na bagagem com sua família e quase toda a escravatura. Outro motivo também influiu no ânimo do Major para dar esse passo. Lúcia, depois da partida de Elias, tinha caído em profunda tristeza e abatimento; sua saúde se alterava e ela definhava, como a planta mimosa a quem falta a seiva da terra e o orvalho do céu. O Major bem conhecia o verdadeiro motivo daquela indisposição da filha; mas, ou para afetar que nem a possibilidade concebia de uma paixão amorosa, ou mesmo porque respeitava a delicada suscetibilidade dos sentimentos de Lúcia, fingia ignora-lo. Portanto, julgou conveniente arranca-la à solidão daquela fazenda, e, no meio da agitação e dos passatempos da sociedade, procurar alguma distração à constante e profunda melancolia da moça.
O Major tinha construído uma bonita e asseada casinha no lançante de uma colina à margem direita do ribeirão, algum tanto isolada do resto da povoação. Era um templozinho, de que Lúcia era a deusa tutelar, e onde afluíam uma multidão de devotos a render-lhe cultos e adorações. Mas ela, triste como a juriti, a quem exilaram da sombra silenciosa de seus bosques, sentia indizível saudade dos laranjais da fazenda paterna, de seu jardim, de sua fonte, e mais ainda de um ente, cuja imagem em seu espírito andava sempre ligada à daquela saudosa solidão. A carta que Elias escrevera ao sair da Bagagem fora-lhe fielmente entregue; a idéia da distância enorme que se ia interpor entre ela e seu amante ainda mais agravou o seu estado de prostração, aumentando-lhe os sustos e inquietações. A imagem de Elias estava sempre presente ao seu espírito, triste como a lua melancólica a mirar-se no seio imóvel de um lago solitário. De seus lábios nunca escapava um sorriso que exprimisse verdadeiro prazer. Se algumas vezes sorria, seu sorriso era como um clarão frouxo a custo escapado da alma por entre nuvens de tristeza.
Todavia, mais por efeito do tempo do que das distrações que seu pai lhe procurava, a feliz e vigorosa organização de Lúcia conseguiu triunfar e impor um termo aos progressos e estragos do sofrimento moral. Não lhe voltou aquela inalterável e serena alegria dos primeiros anos, nem se lhe desvaneceram as mágoas e inquietações do coração. Mas, ao pungir da dor violenta que a lacerava, substituiu-se uma melancolia calma e resignada, como noite de luar sucedendo silenciosa e triste aos horrores da tormenta.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.