Por Bernardo Guimarães (1872)
Roberto entendeu, que devia escoltar sua prima, e conduziu-a para casa. Eduardo acompanhou-os e deixou-se ficar na varanda, enquanto Paulina retirando-se para seu aposento foi devorar em segredo sua angústia e desesperação, e ensopou de lágrimas o travesseiro, por não ter um seio amigo em que pudesse derramá-las.
Tinha no coração amarguras a transbordar, e as lágrimas que chorava, lágrimas de fel e fogo, não podiam aliviá-lo. Era desgraçada e não tinha a quem lançar a culpa de sua desventura, senão ao destino ou ao céu que trazendo ali aquele mancebo em tão fatais circunstâncias viera como que de propósito e sem piedade arrojá-la no caminho do infortúnio. A morte era o único pensamento consolador, em que se abrigava aquela alma ulcerada. Tão vivo e ardente fora o afeto que concebera por Eduardo, tão doloroso o golpe, que este sem querer acabava de lhe vibrar no coração.
Capítulo VI
O juramento
Eduardo achando-se a sós na varanda debruçou-se sobre o parapeito e com a cabeça entre as mãos refletia sobre as ocorrências daquela tarde. A estranha perturbação em que caíra Paulina no fim da conversação que com ele tivera, lhe causava a mais dolorosa impressão. Já por vezes lhe despontara no espírito a suspeita de que Paulina havia concebido amor por ele, por maior que fosse o cuidado e o esforço desta em ocultar seus íntimos sentimentos, e esta idéia o afligia sumamente. Foi de alguma sorte de propósito para sondar o coração da menina e atalhar os progressos de uma paixão, a que não podia corresponder, que Eduardo não hesitou em fazer-lhe a relação do amor, que consagrava a outra. Compreendeu, então, claramente, quanto extremo de paixão abrasava aquela alma cândida e sensível, cuja paz viera perturbar com seu aparecimento a um tempo providencial e desastrado. Teve infinita pena dela, e arrependeu-se mil vezes das palavras que dissera e da cruel revelação que lhe fez sem calcular as conseqüências. Teria sido menos cruel deixá-la na incerteza, e encarregar ao tempo e à ausência a cura de um mal que ele com suas palavras não fez mais que exacerbar.
Além disso acrescia a consideração de que Roberto o reputava um rival e não podia encará-lo com bons olhos. Somente o velho chefe da casa não tinha para com ele prevenção alguma. Achava-se, pois, Eduardo em posição sumamente melindrosa naquela casa, e sua estada ali por mais tempo não poderia deixar de produzir cenas desagradáveis e funestos resultados. Era-lhe pois forçoso e indispensável deixar o mais breve possível aquela fazenda, e quanto mais pensava e refletia, mais se firmava nessa resolução.
Destas reflexões o veio despertar Roberto, que se aproximando bruscamente, disse-lhe em tom áspero e seco:
– sr. Eduardo, é preciso que sem mais demora o senhor saia desta casa!...
Eduardo olhou para ele espantado.
– O que está dizendo, homem? respondeu-lhe.
– É preciso que o senhor saia quanto antes desta casa, repito, se não quer que eu ou o senhor nos ponhamos a perder.
Eduardo ia assomar-se; mas refletiu, que nenhum proveito tirava em brigar com aquele simples e estouvado rapaz; reportou-se e respondeu-lhe.
– Senhor Roberto, eu por ora acho-me muito bem aqui, e nem vejo motivo algum para pôr-mo-nos a perder. Os donos da casa creio que nem por sombra pensam em despedir-me; e como quem quer o senhor enxotarme?
– Se o dono da casa soubesse que o senhor anda querendo lhe desencaminhar a filha...
– Alto lá, senhor caluniador! devagar com isso! onde e por que modo viu o senhor que eu faltasse ao respeito no mínimo ponto que fosse à sra. d. Paulina?... se aturo com paciência suas sandices, não estou de ânimo a agüentar tão infame calúnia.
– Sandeu e caluniador será ele! veja onde está e com quem fala...
olhe que não sou nenhum caipira tocador de burros, arrieiro ou capataz de tropa. Cuida que não ouvi... ainda agora... ali debaixo da gameleira?
Com esta arrieirada Eduardo ia perdendo a paciência, e posto que nenhuma arma tivesse consigo e se achasse ainda fraco e em convalescença para poder medir-se com um atleta armado de faca e cacete e em pleno gozo de saúde e robustez, já de punho fechado se dispunha a responder-lhe com meia dúzia de sopapos, quando uma idéia que atravessou-lhe o espírito deteve-lhe o braço.
– Ouviu o quê, senhor amansa-garrotes? perguntou ele. Fale; não esteja a me impacientar com suas meias palavras.
– Ouvi, sim; ouvi o senhor estar se derretendo todo, e dizendo melúrias a minha prima; até por sinal, que estava lhe falando assim: hei de amá-la sempre; nunca mais hei de deixar de amá-la.
A estas palavras Eduardo, apesar da triste e grave disposição em que se achava, apesar da impaciência e indignação, que lhe causavam as impertinências e impropérios do primo, não pôde conter uma gargalhada.
– E o senhor ainda ri-se! bradou Roberto enfurecido, e avançando com gesto ameaçador.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.