Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Que significa aquele galo inconstante, que assim se volta para todos os lados, e que ora mostra o bico ao sul, ora ao norte, ora ao ocidente, ora ao nascente? Que significa esse galo que lisonjeia e atraiçoa a todos os ventos? Não sei; e somente quem o empoleirou na torre no-lo poderia dizer.
Aproveitando-me, no entanto, da existência do famoso galo e da sua incessante mobilidade, servir-me-ei dele doravante para um termo de comparação que me parece apropriado.
A inconstância e volubilidade de muitos políticos excedem tanto às proporções de possíveis modificações concienciosas de princípios, que a todos antes se afiguram contradanças executadas ao som da orquestra mágica da ambição e do egoísmo.
São mudanças determinadas por conveniências que não se confessam, mas que excitam os contradançadores a voltar as caras ora para um, ora para outro ponto, conforme o vento político que sopra.
Assim, pois, serve-me às mil maravilhas o galo da capela, e quando aí por essas ruas eu encontrar alguns desses homens políticos que andam aos saltos de um para outro partido, dizendo hoje que é branco o que ontem diziam que era preto, e achando sempre razão em quem está de cima, direi a mim mesmo, ou aos amigos que passearem comigo nessa ocasião: “Ali vai um galo da capela.” Penetro agora no sagrado recinto.
Tem a capela imperial três altares de cada lado, e entre estes e o altar-mor duas capelinhas fronteiras: na da esquerda é onde se expõe o Santíssimo Sacramento, e onde a família real vinha ouvir missa, tendo para isso duas tribunas.
No lado direito da capela-mor está a tribuna da família imperial.
O teto da capela-mor da igreja dos carmelitas foi decorado por José de Oliveira, o mais antigo dos pintores fluminenses. A Virgem do Monte Carmelo que nele está representada era uma obra de mestre. Diz o Sr. Porto Alegre, em uma memória apresentada ao nosso Instituto Histórico, o seguinte: “Na reforma do convento os mais hábeis artistas da capital se escusaram de retocar aquela obra, mas os carmelitas descobriram um caiador que a destruiu completamente; seu estado atual é uma restauração feita pelo Raimundo, que antes se escusara, mas que no tempo de el-rei fora obrigado a fazê-la.”
O teto da capela do Senhor dos Passos, que representa o descimento da cruz, é obra do célebre Manuel da Cunha, outro pintor fluminense, que, nascido escravo, se enobreceu pela arte em que primou e de que legou à pátria belos tesouros, como são o retrato do conde de Bobadela, que está no paço da câmara municipal, o Santo André Avelino, da igreja do Castelo, a capela contígua à sacrista de S. Francisco de Paula e muitos outros.
Em 1817, o Sr. D. João VI mandou pintar de novo e dourar a capela real, obra que se executou com tanta presteza como feliz desempenho, e para a qual concorreram os melhores artistas que então possuía a capital, e notavelmente o nosso habilíssimo José Leandro de Carvalho, pintor histórico e o mais fiel retratista da época, tendo neste gênero, diz também o Sr. Porto Alegre, um dom particular, pois bastava ver o indivíduo uma única vez para conservar perfeitamente de memória suas feições e pintá-lo ao vivo.
José Leandro fez todos os quadros da capela real, e no concurso que houve entre diversos pintores levou a palma na execução do quadro do altar-mor da mesma capela, no qual retratou de uma maneira admirável toda a família real.
Em 1831, foi esse quadro delirante e violentamente condenado pelo ódio ao passado. A gratidão nacional e a arte ressentiram-se por certo desse descomedimento repreensível, que seria uma indignidade, se não fosse a loucura de um dia de vertigem. Mas a gratidão nacional não se apagou com o quadro destruído, a arte pôde regenerar a obra do mestre. O mestre, porém, que foi testemunha do insulto, sentiu-o tanto que perdeu a saúde com o abalo e veio a morrer não muito depois.
Faz-me conta supor que me perguntam agora como, em um país tão novo e ainda abatido pelo jugo colonial, pôde, em 1808, o príncipe regente vir encontrar artistas de tanto merecimento como esses que executaram a reforma da capela real em 1817.
Pois sabei que desde a última metade do século XVII já as artes contavam fiéis e esclarecidos intérpretes no Rio de Janeiro. Os artistas acudiram como por encanto à voz de Bobadela e de Luís de Vasconcelos, e ensejo terei de demonstrar esse fato na continuação deste passeio.
E sabei mais que não foram somente pintores amestrados que a família real portuguesa teve de admirar, chegando ao Brasil.
Nos púlpitos e no coro da então capela real, fizeram-se
desde logo sentir grandes e brilhantes inteligências que a corte portuguesa mal
podia esperar que estivessem florescendo no Brasil e que devessem por ela ser
admirados.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.