Por José de Alencar (1864)
—Sei agora quanto o ofendi! Não sabia então quanto lhe devo! Minha tia contou-me...
—A senhora nada me deve, D. Emília. Estou pago! Já, recebi o meu salário. Foi o preço de uma gratidão que tanto a incomodava! —Não me diga isso! Seja sempre generoso! —Quem deve sou eu. Um doente rico tem à sua disposição todos os médicos e os melhores; mas para um médico principiante e desconhecido, um doente que paga bem, é uma fortuna! —Eu mereci estas palavras, porque fui má e injusta... Fui até sem delicadeza!... Mas se lhe confessasse... teria pena de mim! —Confessar-me o que, D.
Emília? perguntei comovido.
A tia voltava.
—Logo!...
Ela articulou essa palavra, já calma e sem o menor vexame, com a voz tão clara, que D. Leocádia devia ter ouvido.
Eu ia de mistério em mistério. Que significava a estranha confidência de Emília? Que exprimia aquele misto de franqueza e reserva, de placidez e emoção? Depois de jantar fomos correr a chácara.
A amabilidade, ainda cerimoniosa, mas doce, com que Emília me tratava, foi tão sensível, que D. Leocádia a notou, apesar da sua constante bonomia.
—Ah! Já fizeram as pazes? disse-nos a senhora. Muito bem! —Nunca estivemos mal, minha tia. Não nos conhecíamos; não é verdade? replicou Emília voltando-se para mim.
A maliciosa e gentil menina, que dirigia o passeio, andava de propósito com extrema rapidez para fatigar a tia: afinal o conseguiu.
—Não posso mais! Estou muito cansada! murmurou D. Leocádia, deixando-se cair num banco de pedra. Estávamos junto de uma cascatinha, onde tinham arranjado uma gruta, um pequeno lago e outros embelezamentos.
—Venha ver a cascata! me disse Emília.
Acompanhei-a até a margem do tanque; ficávamos a alguns passos apenas de D. Leocádia, porém o rumor das águas que batiam entre as rochas abafava nossas palavras. Emília esteve a brincar, com umas flores aquáticas que vegetavam nas fendas, saltando de pedra em pedra. Eu vi-a oscilar sobre uma ponta de rochedo coberto de musgos e batido pelas águas.
De repente voltou-se:
—O senhor me julga muito ingrata? —Eu, D. Emília? —Oh! Não negue! eu sinto!... Pois enganou-se! O que eu sou... Talvez não lhe saiba dizer...
Ela abaixou os olhos para os borbotões de espuma que se esfrolavam a seus pés.
—Sou... um espirito que duvida, um coração que vacila! Eu não compreendia; estava surpreso.
—Esta gratidão que eu lhe consagro há três anos, continuou ela, tem sido a minha única alegria! —Como é possível, D. Emília? Não acredito!...
—Pois creia! Tenho uma testemunha...
—Qual? —Conhece?...
—A minha carta!...
Ela passara rápida pelos meus olhos a carta que eu tinha escrito ao pai logo depois do seu restabelecimento.
—Está assim amarrotada... Não sabe por quê? É ela que envolve os cabelos de minha mãe! Emudecemos ambos. O papel desapareceu outra vez; tinha-o escondido no seio. Passado um instante Emília falou de novo, mas absorta, como se falara consigo mesma num recolho íntimo:
—Não acredito no amor!... Alguma cousa me diz que não amarei nunca!... Entretanto o coração sente... tem necessidade de uma afeição criada por ele só, e que não venha do sangue. Há uma porção d'alma que pertence à família e vive nela, como as raízes desta planta, no seio da terra que a produz... Mas a outra porção, essa é nossa unicamente e também precisa de sentir e viver! Não é assim? —Deus quis que fosse assim, para que a humanidade existisse.
—Deus quis... Mas por que me pôs ele n'alma esta dúvida cruel?... Tenho dezessete anos, e já me sinto órfã das minhas esperanças! —A senhora, D. Emília? Que lhe falta? Espirito, formosura e riqueza, tudo que o mundo admira...
—Eu quisera não ser admirada, mas...
Ela hesitou e reprimiu a palavra que ia pronunciar.
—Não falemos nisso. Já lhe disse que não acredito em paixões.
Durante o ano que passou, esperdicei por aí, por essas reuniões, meus sonhos, minhas alegrias, minha alma! Sabe o que eu trazia? A desilusão!... Quando entrava em mim não achava senão uma lembrança doce e pura... Era a minha boa gratidão, o reconhecimento que eu lhe votava... E não sabia tudo ainda... Não tinha ainda aqui como agora suas lágrimas!...
—Obrigado, D. Emília! —Oh! Não me agradeça!... Escute-me! Essa gratidão, esse sentimento bom e puro, era uma cousa minha, oculta e desconhecida, que eu dedicava no silêncio de minha alma à sua memória... porém não ao senhor! —Ah! —Do senhor, eu tinha medo, quando o via. Tinha medo que me arrancasse também do espirito mais essa doce ilusão. Desculpe-me:
eu não o conhecia então. Duvidava...
(continua...)
ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.