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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma Pupila Rica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)

Agora o padre à frente: senhor Simão, tenha a bondade de chegar-se...

Simão

(a Pereira ) Isto cheira-me a zombaria... que diz?...

Pereira

(à Simão) Carlos prestou-se logo... não se faça rogado...

Simão

(a Perª ) Com efeito... em todo caso a preferência me distingue... e eu me manifesto. (chega a frente)

Teóf.

Eu o paramento... permita. (toma de Júlia o manto e o põe nos ombros de Simão) Agora o barrete de cônego: (põe-lhe na cabeça o chapéu roxo de Estef.) Perfeitamente!... A madrinha a meu lado: estamos prontos. (a Cor.) Tenha V. Exª. a bondade de ir buscar e de apresentar a menina, como se chama ela?...

Corina A madrinha é que o sabe.(entra no gabinete)

Júlia Esperança...

Teóf.

O cônego tem de fazer um discurso, e o sacristão de improvisar um soneto...

Carlos Improvisarei um soneto... Simão Discurso eu não faço... protesto...

Corina (da porta do gabinete) A boneca não está no berço!...

Júlia A minha boneca!... (corre para o gabinete)

Teodora Como é isto?... Desapareceu a boneca?...

Carlos O caso seria romanesco!

Júlia (saindo aflita) Furtaram a minha boneca!

Corina (saindo) Sem dúvida que a furtaram... não está lá!... Vozes Oh! Oh!... (movimento)

Teodora É incrível!...

Teóf.

Quem ousou roubar a Esperança? Em nome da beleza e da aflição da madrinha, restituam a menina!...

Estef. Ficamos então sem o batizado?...

Júlia A minha boneca!... Que mau brinquedo!...

Teóf.

(tomando a salva de Carlos) Em falta da menina receba a madrinha o batismo de flores. (senta as flores sobre Júlia)

Júlia A minha boneca!... (recebendo a chuva de flores)

Teóf.

Vamos procurá-la por toda parte: eu piano! A madrinha cantará... a menina roubada há de por força acudir nos milagres da harmonia e da voz mais terna!...

Júlia Não poderei cantar!...

Teóf.

Nesse caso faremos corpo de delito e iniciaremos um processo criminal... demito de cônego ao sr. Simão e o nomeio delegado de polícia... vamos fazer vingar o império da lei...., vamos... d. Júlia por amor da Esperança... vamos!... (vão-se todos, menos Firmino e Peregrino)

Firmino (ao fundo depois de todos se retirarem) Peregrino, como foi isto?...

Peregrino (tirando a boneca do bolso e mostrando-a) É o apólogo, meu pai; por meio de um rapto apodereime da boneca rica... (com intenção) que ficou no meu bolso.

Firmino Oh!... O rapto!!!

Fim do 3º ato

Ato 4º

Sala da recepção; portas laterais; porta de entrada no fundo; janela

Cena 1ª

Firmino, Teodora, Carlos, Júlia; Corina bordando

Firmino (a Teodora) A hora se aproxima: não achas conveniente mandar Corina para dentro? (na frente com Teodora)

Teodora (a Firmino) Não... não... eu sou mãe e não me engano: é Júlia que ele ama... e a carta e a visita solene...

Firmino (a Teodora) Se vier pedir-me Corina, eu lha negarei, mas seria imprudência que ela estivesse presente... se for Júlia, que importa a ausência da outra?...

Teodora (a Firrnino) Ele repararia na ausência... mostrou interessar-se muito por Corina... pelo menos não é delicado escondê-la... deixe-mo-lo vir.

Carlos (a Corina) Há nesse rosto que está bordando aparências de retrato... creio que conheço um nariz com esse...

Júlia (a Carlos) E que tens tu com o nariz do bordado de Corina? Ela tem tanto direito de copiar teu conhecido, como tu de furtar pensamentos e versos de poetas que lês.

Carlos Isso é aleive revoltante: na Sociedade Filopoética tenho reputação de original. (Firmino e Teodora conversam)

Júlia Mas a tua originalidade é só em composições que não tem senso comum.

Carlos Segue-se que as minhas composições poéticas se parecem muito contigo.

Teodora Já vocês estão a brigar! Carlos, Júlia é uma senhora.

Júlia Mamãe, é preciso que Carlos não publique mais poesia alguma que não tenha passado pela minha censura; ele se desacredita por plagiário...

Carlos Ouve-a?... É uma injúria...

Teodora Não vês que ela se diverte contigo?... (a Firmino) Estás enganado...

Firmino (a Teodora) Verás... é Corina que ele vem pedir-nos em casamento.

(continua...)

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