Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Anastácio — E então, quem não é seu pai, nem sua mãe, e apenas seu namorado, deixa-a ir com o raptor, que por fim de contas é o mais enganado, porque julgando levar consigo um tesouro precioso, apenas carrega às costas um saco de moeda falsa.
Henrique — Mas é que meu tio ignora as circunstâncias...
Anastácio — Pois vamos a elas.
Henrique — No baile de máscaras, que vai dar-se na chácara de meus tios, às duas horas da noite, Leonina será atraída para um caramanchão, que fica junto de uma rua deserta; aí dois máscaras atirar-se-ão sobre a infeliz, abafarão seus gritos e arrastando-a para uma carruagem, que está perto, um dos máscaras desaparecerá com ela.
Anastácio — E esses máscaras serão uma mulher perversa e um homem libertino:
Fabiana e Frederico, não é assim?...
Henrique — Exatamente: mas quem lho disse?
Anastácio — Eu o tinha previsto...Miserável!...Como descobriste este segredo?...
Henrique — Surpreendi-o, quando me deixou oculto atrás dos bambus, no Jardim Botânico; surpreendi-o, e oportunamente me ofereci à filha de Dona Fabiana, que pedia à sua boa fortuna um cúmplice, que impedisse a realização do rapto ao tempo em que o escândalo fosse já bastante para manchar o crédito de Leonina.
Anastácio — Tens em tuas mãos os fios dessa trama criminosa: qual é o teu
propósito?...
Henrique — Vim consultá-lo sobre isso. No meu pensamento brilhou a idéia de uma nobre vingança; lembrou-me que podia abater a soberba de meus tios, forçando-os a reconhecer-se devedores da salvação de sua filha a aquele que tão indignamente desprezaram...
Anastácio — Pobre plebeu! Haviam de dizer-te que às vezes também um náufrago pode ficar devendo a vida a um cão da Terra Nova.
Henrique — Ainda não acabei. Lembrou-me depois, que eu deveria apresentar-me hoje aqui, e patenteando o crime projetado, e nomeando os criminosos, dizer a meus tios: “Eis aí as brilhantes relações de que vos ufanais! Eis a vossa sociedade que arremeda o que não é! Eis aí os vossos falsos nobres, ridículas caricaturas daqueles, com quem procuram confundir-se; ei-los! São infames réus da polícia, são...”
Anastácio — Tempo perdido! Os três figurões chamar-te-iam caluniador e Maurício correria a dar um abraço a Frederico; Hortênsia a trocar um beijo com Dona Fabiana, e um criado viria mostrar-te a porta da rua.
Henrique — Mas também nenhum desses pensamentos foi aceito pelo meu coração: em qualquer deles transpirava um desejo de vingança, generosa embora, e a vingança, oh!...não cabe em um coração que está cheio de amor! Meu tio, eu quero salvar Leonina, mas quero salvá-la sem que uma suspeita, uma simples dúvida possa deixar a mais leve nuvem no límpido céu da sua vida...quero salvá-la ficando para todos imaculada a sua pureza; quero salvá-la sem que ela o perceba, sem que se fale no seu nome, sem que ela tenha de corar ante a idéia do atentado, de que ia ser vítima; quero salvá-la, como um pai salvaria sua filha!...não quero nem o abatimento da soberba, nem a confusão do crime, nem a vingança, nem a gratidão; quero a reputação de Leonina intacta, e o seu nome saindo de todos os lábios que o pronunciaram, suave como uma harmonia de Haydn, puro e celeste como a oração de um anjo.
Anastácio — Excelente; mas havemos de levar ao fim a obra modificando um pouco as tuas idéias poéticas. Já fui delegado de polícia em Minas, e quando me denunciavam que s e pretendia cometer algum roubo, a minha regra era apanhar os ladrões com a mão na ratoeira.
Henrique — Mas se um descuido qualquer...
Anastácio — Já cumpriste o teu dever; o cumprimento do meu começa agora. Hás de dar-me amanhã algumas lições de baile mascarado. Uma dificuldade única me embaraça...Com hei de eu tolerar a presença desses tratantes, que vêm hoje aqui jantar?...Já, porém, que é preciso fingir, já que no meio desta gente sem fé, os próprios homens honestos devem às vezes trazer uma boa máscara no rosto, verão para quanto presta este velho roceiro!
CENA VI Anastácio, Henrique e Leonina.
Leonina — Meu padrinho...meu padrinho...(Vendo Henrique) Ah!...
Anastácio — Assustou-se?...pois o rapaz não é feio.
Henrique — Minha senhora...
Leonina — Perdão, eu pensava que meu padrinho estava só.
Anastácio — Mas achaste-me bem acompanhado, o que é ainda melhor. Que é
isto?...parece que choraste, Leonina?...
Leonina — Não...não chorei...
Henrique — Eu me retiro... (Anastácio o suspende, segurando-lhe na mão).
Anastácio — Vieste para confiar-me um segredo, podes falar; em vez de um, tens a teu lado dois amigos.
Leonina — Meu padrinho...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.