Por Padre Antônio Vieira (1655)
Estando Cristo na maior aflição do seu requerimento, desceu um anjo do céu a confortá-lo: Apparuit illi angelus de caelo confortans eum (Lc. 22, 43). E em que consistiu o conforto, se a resposta foi que bebesse o cálix, contra o que Cristo pedia? Nisso mesmo esteve o conforto, porque ainda que lhe respondesse com o despacho, responderam-lhe com o desengano. Vede quanto melhor é desenganar aos homens que ditá-los e suspende-los. A dilação e a suspensão para Cristo era agonia; o desengano foi alento. A dilação sem despacho são dois males; o desengano sem dilação é um mal temperado com um bem, porque se me não dais o que peço, ao menos livrais-me do que padeço. Livrais-me da suspensão, livraisme do cuidado, livrais-me do engano, livrais-me da ausência de minha casa, livrais-me da corte e das despesas dela, livrais-me do nome e das indignidades de requerente, livrais-me do vosso tribunal, livrais-me das vossas escadas, livrais-me dos vossos criados, enfim, livrais-me de vós. E é pouco? Pois se com um desengano dado a tempo, os homens ficam menos queixosos, o governo mais reputado, o rei mais amado, e o reino mais bem servido, por que se há de entreter, por que se há dilatar, por que se não há de desenganar o pobre pretendente, que tanto mais o empobreceis, quanto mais o dilatais? Se não há cabedal de fazenda para o despacho, não haverá um não três letras para o desengano? Será melhor que ele se desengane depois de perdido, e que seja o vosso engano a causa de se perder? Quereis que se cuide que os sustentais na falsa esperança, porque são mais rendosos os que esperam que os desenganados? Se lhe não podeis dar o que lhe negais, quem lhe dá de restituir o que lhe perdeis? Oh! restituições! Oh! consciências! Oh! almas! Oh! exames! Oh! confissões! Seja a última admiração esta, pois não louvo nem condeno, e só me admiro com as turbas: Et admiratae sunt turbae.
§X
Confessar as confissões é dobrar o remédio sobre si mesmo. Como fazê-lo bem? Com tempo suficiente e confessar douto, timorato e de valor.
De todo este discurso se colhe, se eu me não engano, com evidência, que há muitos escrúpulos no mundo de que se faz pouco escrúpulo, que há confissões em que fala o mudo e não sai o demônio, e que, suposta a obrigação de se confessarem todos os pecados, se devem também confessar estas confissões. Grande mal é não sarar com os remédios; mas adoecer dos remédios ainda é mal maior. E quando se adoece dos remédios, que remédio? O remédio é curar-se um homem dos remédios, assim como se cura das enfermidades. Este é o caso em que estamos. O remédio do pecado é a confissão, mas se as minhas confissões, em lugar de me tirarem os pecados, por minha desgraça nos acrescentam mais, não há outro remédio senão dobrar o remédio sobre si mesmo e confessar as confissões, assim como se confessam os pecados. Daqueles que tornam a recair nos pecados passados, dizia Tertuliano, que faziam penitência da penitência e que se arrependiam. Se os maus se arrependem dos arrependimentos, os que devem e querem ser bons, por que se não confessarão das confissões? Uns o devem fazer pela certeza, outros o deverão fazer pela dúvida, e todos é bem que o façam pela maior segurança.
Para que esta confissão das confissões saia tal que não seja
necessário tornar a ser confessada, devemos seguir em tudo o exemplo presente
de Cristo na expulsão deste diabo mudo. Primeiramente: Erat ejiciens (Lc.
11,14). Todos os outros milagres fazia-os Cristo em um instante: este de lançar
fora o demônio, não o fez em instante nem com essa pressa, senão devagar e em
tempo. É necessário primeiro que tudo a quem houver de reconfessar as suas
confissões, tomar tempo competente, livre e desembargado de todos os outros
cuidados, para o ocupar só neste, pois é o maior de todos. Cum accepero tempus,
ego justitias judicabo (SI. 74,3): Eu tomarei tempo, diz Deus, para julgar as
justiças. – Se Deus, para examinar e julgar as consciências dos que governam,
diz que há de tomar tempo, como poderão os mesmos que governam julgar as suas
consciências e examinar os seus exames, se não tomarem tempo para isto? Dirá
algum que é tão ocupado que não tem este tempo. E há tempo para o jogo? E há
tempo para a quinta? E há tempo para a conversação? E há tempo, e tantos
tempos, para outros divertimentos de tão pouca importância, e só para a
confissão não há tempo? Se não houver outro tempo, tome-se o do ofício, tome-se
o do tribunal, tome-se o do concelho. O tempo que se toma para fazer melhor o
ofício não se tira do ofício. Mas para acurtar de razões, pergunto: Se agora
vos dera a febre maligna, como pode dar, havíeis de cortar por tudo para acudir
à vossa alma, para tratar de vossa consciência? Sim. Pois o que havia de fazer
a febre, por que o não fará a razão? O que havia de fazer o medo e a falsa
contrição na enfermidade, por que o não fará a verdadeira resolução na
saúde?
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.