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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Gritei logo: "boas noites, Justininho!" E regressei ao Campo de Santana, tranqüilo, gozando já a repenicada beijoca que me daria a Delinha, quando eu risonho lhe estendesse na mão as oito rodelas de ouro. Ao outro dia, cedo, corri ao cartório do Justino, a São Paulo, contei-lhe a pranteada história de um condiscípulo meu, tísico, miserável, arquejando sobre uma enxerga, numa fétida casa de hóspedes, ao pé do Largo dos Caídas.

É uma desgraça, Justino! Nem dinheiro tem para um caldinho... Eu é que o ajudo; mas que diabo, estou a tinir... Faço-lhe companhia, é o que posso; leio-lhe orações, e exercícios da vida cristã. Ontem à noite vinha eu de lá... E acredite você, Justino, que nem gosto de andar por aquelas ruas, tão tarde... Jesus, que ruas, que indecência, que imoralidade!... Aqueles becos de escadinhas, hem?... Eu ontem bem percebi que você ia horrorizado; eu também... De sorte que esta manhã estava no oratório da Titi, a rezar pelo meu condiscípulo, a pedir a Nosso Senhor que o ajudasse, e que lhe desse algum dinheiro e vai, pareceu-me ouvir uma voz lá de cima da cruz a dizer: "entende-te com o Justino; fala ao nosso Justininho; ele que te dê oito libras para o rapaz..." Fiquei tão agradecido a Nosso Senhor! De modo que aqui venho, Justino, por ordem d'Ele.

O Justino escutava-me, branco como os seus colarinhos, dando estalinhos tristes nos dedos; depois, em silêncio, estendeu-me uma a uma sobre a carteira, as oito moedas de ouro. Assim eu servi a minha Adélia.

Fugaz foi porém a minha glória!

Daí a dias, estando no Montanha, regalado, a gozar uma carapinhada, o criado veio avisar-me que uma mocinha trigueira e de xale, a Senhora Mariana, esperava por mim à esquina... Santo Deus! A Mariana era a criada da Adélia. E corri, a tremer, certo de que a minha bem-amada ficara sofrendo da sua abominável dor na sua branca ilharga. Pensei mesmo em começar o rosário das dezoito aparições de Nossa Senhora de Lurdes, que a Titi considera eficacíssimo em casos de pontada ou de touros tresmalhados...

- Há novidade, Mariana?

Ela levou-me para dentro de um pátio onde cheirava mal; e aí, com os olhos vermelhos, destraçando furiosamente o xale, rouca ainda da bulha que tivera com a Adélia, rompeu a contarme cousas torpes, execrandas, sórdidas. A Adélia enganava-me! O Senhor Adelino não era sobrinho; era o querido, o chulo. Apenas eu saía, ele entrava; a Adélia dependurava-se-lhe do pescoço, num delírio; e chamavam-me então o carraça, o carola, o bode, vitupérios mais negros, cuspindo sobre o meu retrato. As oito libras tinham sido para o Adelino comprar fato de verão; e ainda sobrara para irem à feira de Belém, em tipóia descoberta, e de guitarra... A Adélia adoravao com pieguice e com furor; cortava-lhe os calos; e os suspiros da sua impaciência, quando ele tardava, lembravam o bramar das cervas, nos matos quentes, em maio!... Duvidava eu? Queria uma evidência? Que fosse nessa noite, tarde, depois de uma hora, bater à portinha da Adélia!

Lívido, apoiado ao muro, eu mal sabia se o cheiro que me sufocava vinha do canto escuro do pátio, se das imundícies que borbulhavam da boca da Mariana, como de um cano de esgoto rebentado. Limpei o suor, murmurei, a desfalecer:

- Está bom Mariana, obrigadinho; eu verei; vá com Deus...

Cheguei à casa tão sombrio, tão murcho, que a Titi perguntou-me, com um risinho, se eu “malhara abaixo da égua”.

- Da égua?... Não, Titi, credo! Estive na Igreja da Graça...

- E que vens tão enfiado, assim com as pernas moles... E então o Senhor hoje estava bonito?

- Ai, Titi, estava rico!... Mas não sei por que, pareceu-me tão tristinho, tão tristinho... Até eu disse ao Padre Eugênio: "O Eugeninho, o Senhor hoje tem desgosto!" E disse-me ele: "Que quer você, amigo? E que vê por esse mundo tanta patifaria!" E olhe que vê, Titi! Vê muita ingratidão, muita falsidade, muita traição!

Rugia, enfurecido; e cerrara o punho como para o deixar cair, punidor e terrível, sobre a vasta perfídia humana. Mas contive-me, abotoei devagar a quinzena, recalquei um soluço.

- Pois é verdade, Titi... Fez-me tanta impressão aquela tristeza do Senhor, que fiquei assim um bocado amarfanhado... E de mais a mais tenho tido um desgosto; está um condiscípulo meu muito mal, coitadinho, a espichar...

E outra vez, como diante do Justino (aproveitando reminiscências do Xavier e da Rua da Fé), estirei a carcaça de um condiscípulo sobre a podridão de uma enxerga. Disse as bacias de sangue, disse a falta de caldos... Que miséria, Titi, que miséria! E então um moço, tão respeitador das cousas santas, que escrevia tão bem na Nação!...

- Desgraças - murmurou a tia Patrocínio, meneando as agulhas da meia.

- E verdade, desgraças, Titi. Ora, como ele não tem família e a gente da casa é desleixada, nós os condiscípulos é que vamos por turnos servir-lhe de enfermeiros. Hoje toca-me a mim. E queria então que a Titi me desse licença para eu ficar fora, até cerca das duas horas... Depois vem outro rapaz, muito instruído, que é deputado.

A tia Patrocínio permitiu; e até se ofereceu para pedir ao patriarca São José que fosse preparando ao meu condiscípulo uma morte sonolenta e ditosa...

(continua...)

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