Por Eça de Queirós (1925)
«...A centralização, pois, chamando toda a vida política do país ao centro, à capital, à cabeça da Nação, cria, por assim dizer, um estado político pletórico e apopléctico, em que é o centro que tem todo o sangue, todo o vigor, e as extremidades, onde não chega a circulação necessária para que elas se conservem num calor benéfico e saudável, arrefecem, e, em breve, definham, ficando como organismos mortos, apenas ligados, para assim me exprimir, por tendões artificiais, que o mais pequeno choque despedaça, o que produz a situação anormal dum corpo que, por falta duma vitalidade.24 que o mantenha intacto e compacto, se vê a cada momento arriscado a perder membros essenciais, cuja falta lhe faz imediatamente sentir a aproximação da morte, sendo já tarde para lhe insuflar à pressa uma vida, que, de resto, apenas poderá ser artificial, e que rapidamente se extinguiria, deixando, consequentemente, a gangrena moral fazer a sua sinistra obra de destruição e de decomposição. Que o saiba, pois, o Governo, que, em desprezo de todos os princípios mais provados da Economia e do Direito, está à frente da nossa entidade nacional: se a sua reforma for avante, arrisca-se a que o país se decomponha socialmente e que a posteridade um dia, vendo o seu cadáver à beira da estrada da civilização, diga, apontando com horror para os loucos que têm nas mãos culpadas as rédeas da governação: eis aí os assassinos!»
Mostrem-me, se a conhecem, em todo o jornalismo contemporâneo, uma página igual! Como o período se desenrola em curvas lustrosas e fluentes, seguindo na cadência melódica – e quando o leitor, extático, imagina que ele vai findar, ei-lo que se reergue e se arqueia, mais límpido e mais fácil, para fechar num remate sonoro e magistral.
Assim, nas praias do mar Tirreno, se sucedem e se produzem umas das outras as ondas de curvas moles em que os antigos viam as linhas harmónicas de Vénus, mãe do Amor!
Que imagem aquela, em que a posteridade, à beira da estrada da civilização, depara com Portugal exangue, fulminado pela apoplexia causada pelo excesso de sangue administrativo no cérebro, – e exclama: eis ai os assassinos!, mostrando faces pálidas de estadistas que se encolhem na sombra!
Não me admira por isso, que, sempre que em Portugal se anuncia uma reforma administrativa, este sublime artigo reapareça textualmente, palavra por palavra, nos periódicos que por dever de partido combatem a centralização, causando sempre a mesma impressão profunda.
Somente, com respeito o digo aos meus colegas da imprensa, é lamentável que o reproduzam como obra original – tanto mais que todos os letrados lhe conhecem o autor, e até a Selecta para o curso de Português do segundo ano dos liceus o coleccionou, como um modelo de estilo oratório e jornalístico.
De resto, a facilidade do Conde era extraordinária. Prova-o bem uma anedota, que me é referida por um sábio professor de economia política, que ao tempo escrevia na Bandeira folhetins de muita imaginação. Como disse, o governo tinha recusado um subsídio a esta folha (tanto em Portugal é pertinaz a tradição cruel de esfomear o Génio!) e a Bandeira rugia na oposição, quando o ministro fez a nomeação de um certo Abranches (hoje personalidade esquecida), nomeação considerada por toda a gente de bem como um favor torpe. Havia de resto no caso uma complicação asquerosa de esposa cedida à concupiscência de um estadista lúbrico.
Era uma magnífica ocasião «de escachar» o ministério, e o nosso Alípio, imediatamente compôs um artigo – que o sábio professor que me relata a anedota compara às sátiras de Juvenal e às verrinas clássicas de Cícero indignado.
O Governo, porém, que a essa hora sentira que era imperioso abafar todo o protesto, calculou logo que o ataque mais violento lhe viria decerto da Bandeira Nacional. Por isso viu-se, à meianoite, o gerente do jornal, que fora chamado a casa do ministro, precipitar-se desvairado na redacção, exclamando:
– O Governo dá a cheta! duzentos mil-réis por mês!
E correndo à janela, berrar com força para o fundo do pátio, onde era a tipografia:
– Tio Marçal, suspenda a tiragem! Traga cá acima a desanda! Temos cheta!
E enquanto o tio Marçal mandava desfazer a verrina, o nosso Alípio, tomando a pena, improvisou outro artigo, louvando o despacho do Abranches – que o sábio.25 professor que me conta este notável incidente, compara, pelo seu vigor, a sua lógica, a sua elevação moral e a penetração dos seus argumentos, às defesas mais célebres da história – alguma coisa de semelhante a Lorde Brougham, defendendo, na Câmara dos Pares de Inglaterra, a desolada princesa Carolina!
Quando um homem possui tais poderes intelectuais e faz deles um uso tão útil, a sua carreira política está marcada, e, olhar para ele, é como ver uma prolongação verdejante de altos arcos triunfais.
Mas – tal é a tradicional ingratidão dos grandes – o Governo, depois de obter aquela defesa sublime do seu patrocinato torpe, suspendeu imediatamente o subsídio, porque já então era claro que a Bandeira, desamparada de assinantes – em lhe faltando aquele apoio, findaria a sua gloriosa marcha avante.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.