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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Por consequência, respondam: quando cometeu ele o crime? O emprego do seu tempoestá todo justificado: das nove da noite até madrugada em minha casa, numa conversa jovial e íntima; da ma drugada até às nove, num sono pacífi co em sua própria casa.

Resta unicamente a meia hora do caminho, da qual não há testemunhas. É crível queem meia hora pudesse ir alguém a essa casa, preparar ópio, fazê-lo beber a um homem, falsificar uma declaração e vir sossegadamente dormir? Tem isto lógica?

Demais o crime foi cometido numa casa, o ópio foi deitado num copo de água, dadotraiçoeiramente. O cadáver estava meio despi do. Tudo isto indica que entre o assassino e o desgraçado houve uma entrevista, tinham conversado intimamente, tinham rido de certo; oque depois morreu tinha talvez calor, pôs-se livremente, tirou o casaco, contaram porventura anedotas, e num momento de sede, o ópio foi dado num copo de água. E tudo isto só faz em meia hora! Em meia hora! Devendo, meus senhores, descontar-se des ta meia hora o tempoque vai de minha casa à casa do crime, e daí a casa de A. M. C.! Pode isto ser?

Agora outro argumento: eu conheço A. M. C.; o seu carácter é digno, impecável; o seucoração é compassivo e simples; a sua vida é laboriosa e isolada; não existe nela nem mistério, nem aventura, nem patético: estava para casar, sem romance, trivialmente.

Eu sabia de todos os seus passos, conhecia as suas relações. Es tou certo que nunca viuo assassinado, o qual, no dizer do doutor, parecia estrangeiro, sem relações aqui, e domiciliado há pouco tempo em Portugal!Poderia ser um encontro casual, uma rixa inesperada? Impos sível. Se o homem foi encontrado estendido num sofá, morto com ópio!

Poderia M. C. ter sido assalariado para cometer este crime? Que loucura! Um homemda sua inteligência, do seu carácter, da sua elevação de espírito! Além de que, hoje o emprego de homici da, regular e devidamente retribuído como uma função pública, nãoexiste nos costumes.

Pode-se conceber que um homem que premedita um crime es teja até o momento decisivo distraído, espirituoso, desabotoando os seus paradoxos, bebendo cerveja? E quedepois vá sossegadamente dormir, e que um amigo que o visite na manhã seguinte en contre sobre a sua banca de cabeceira, uma chávena de chá e um livro de história?E dê-se isto com um homem de carácter tímido, de hábitos mo destos, homem de estudo, sem energia de acção, e de uma notável franqueza de impressões!



(continua...)

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