Por Eça de Queirós (1925)
Mas um remorso tomou-o, quis mostrar coração, acrescentou:
— Em todo o caso conta comigo para tudo...
Lá um duelo regular, a espada, ou à pistola mesmo, para salvar a honra, sim senhor. Cá estou. Lá coisas trágicas não.
Godofredo disse então tomando o chapéu:
— Vamos ver o que diz o Medeiros, vamos à casa do Medeiros.
Carvalho ficou contrariado. Nesse dia ia passar o dia a Pedrouços com a mulher, à casa do sogro. Eram os anos do cunhado.... Mas enfim, num caso daqueles, era necessário fazer alguma coisa pelos amigos.
— Vamos lá, deixa-me avisar a Mariana que não posso ir...
Daí a pouco voltou, calçando as luvas com um ar desagradável. E já no meio da escada, parou, voltou-se para o Godofredo que seguia:
— Sabes que minha mulher está de esperanças, hein?... Um susto pode ser fatal, e se ela sabe que eu sou testemunha. Não é brincadeira... Enfim, vamos lá... Os amigos é para as ocasiões.
Embaixo tomaram uma carruagem, porque o Medeiros morava lá no inferno, adiante da Estrela. Era um coupé quase novo, fofo e asseado, que rolava sem ruído. Isto pôs Carvalho de melhor humor: e recostou-se, acabando de abotoar as luvas. Durante algum tempo não trocaram uma palavra. Depois, quando o coupé atravessava o Loreto, subitamente uma grande curiosidade pareceu invadir o Carvalho. Godofredo não lhe dera detalhes nenhuns. Que tinha dito Ludovina? Como soubera ele do caso? O que dissera o Neto? Godofredo, com um ar fatigado e em palavras curtas, completou a sua história. O outro desaprovava a mesada de trinta mil réis. Era uma gratificação dada à infâmia... E vendo Godofredo, com o ar abatido, que numa emoção mordia o beiço, como se o invadissem as lágrimas, murmurou:
— Esta vida é uma choldra.
E não trocaram mais palavra até casa do Medeiros. Quando bateram à campainha, o criado disse-lhes que o senhor Medeiros ainda estava na cama. Então Carvalho subiu as escadas, abriu o quarto do Medeiros, fazendo barulho, chamando-lhe mandrião e debochado. Atrás, Godofredo ia topando com os móveis na escuridão do quarto. Da sombra dos cortinados, a voz mal-humorada do Medeiros perguntava que invasão era aquela: e, quando lhe abriram a janela, berrou, enterrou-se nos lençóis não podendo suportar bruscamente a invasão da claridade. Mas terminou pôr mostrar a face inchada de sono e estremunhada; depois espreguiçou-se, ergueu-se sobre o cotovelo, e deitou mão a um cigarro, de cima da mesa-de-cabeceira.
Carvalho, sentado aos pés da cama, começou: durante um momento falaram daquelas preguiças do Medeiros. Ele explicou que se deitara às cinco da manhã... Depois Carvalho começou:
— Vimos aqui para um negócio muito grave.
O outro interrompeu-o, dando um berro pelo criado. Queria saber se viera uma carta pela manhã. O rapazote trazia-a, na algibeira. Medeiros sentou-se na cama, com o cabelo todo esguedelhado, abriu-a, nervoso, leu-a dum olhar, e, dando um suspiro de alívio, meteu-a debaixo do travesseiro.
— Caramba, ia sendo ontem apanhado. Pôr um segundo... E se o marido entra na cozinha, que é logo ao lado da porta, lá se ia tudo quanto Marta fiou. Irra, que não ganhei para o susto.
Carvalho e Godofredo tinham trocado um olhar. E Carvalho teve esta frase infeliz:
— Pois é pôr uma coisa dessas que nós cá vimos...
E acrescentou:
— O Alves teve um desgosto...
E, diante do olho arregalado do Medeiros, Godofredo sentiu no fundo a garganta sufocada pelo seu ridículo... Sentiu-se pertencendo a essa tribo grotesca de maridos traídos, que não podiam entrar em casa sem que, de dentro, escapasse um amante. E era assim pôr toda a cidade, uma infâmia pelos cantos, amantes que fugiam e amantes apanhados. Ele apanhara o seu. O outro marido não teria apanhado, se entrasse na cozinha? O dia antecedente fora terrível... E parecia-lhe ver em toda a cidade esta sarabanda, de amantes escapulindo-se, de maridos apanhando-os, um chassez-croisez de homens, em torno das saias das mulheres... E agora sentia uma fadiga, um horror de tornar a contar a sua história. Mas os olhos do Medeiros, a face do Medeiros, esperavam: e ele terminou pôr dizer, com um ar exausto:
— Foi ontem. Apanhei a Ludovina com o Machado.
— Caramba! – exclamou o Medeiros dando um pulo na cama.
E deitando fora a ponta do cigarro, tomando vivamente outro, quis saber os detalhes. E foi o Carvalho que os deu, falador agora, gozando o seu papel, com aquela confiança de marido dum estafermo rico que ninguém jamais tentava. Contou tudo, enquanto, esmagado sobre uma cadeira, com o chapéu alto ainda na mão, Godofredo ia aprovando com a cabeça.
— Deixa ver a carta – terminou pôr dizer o Carvalho.
E Godofredo tirou-a do bolso, o outro leu-a a meia voz, pela Segunda vez o marido ouviu voz estranha murmurar aquelas palavras da sua mulher: “Ai Riquinho da minha alma, que tarde a de ontem...”
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Alves & Cia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16619 . Acesso em: 28 jun. 2026.