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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

E o psicólogo, reluzindo, com o lábio úmido, entalado num alto colarinho onde se enroscava uma gravata à 1830, confessava modestamente que dissecara todas aquelas almas da Couraça com “algum cuidado”, sobre documentos, sobre pedaços de vida ainda quentes, ainda a sangrar... E foi então que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mãos dos bolsos:

-No entanto, meu caro, nesse livro tão profundamente estudado há um erro bem estranho, bem curioso!... O Psicólogo, vivamente, atirara a cabeça para trás:

-Um erro?

Ó, sim, um erro! E bem inesperado num mestre tão experiente!...Era atribuir à esplêndida amorosa da Couraça, uma duquesa, e do gosto mais puro – um colete de cetim preto! Esse colete, assim preto, de cetim, aparecia na bela página de análise e paixão em que ela se despia no quarto de Rui de Alize. E Marizac, sempre com as mãos nos bolsos, mais grave, apelava para aqueles senhores. Pois era verossímil, numa mulher como duquesa, estética, pré-rafaelítica, que se vestia no Doucet, no Pasquim, nos costureiros intelectuais, um colete de cetim preto?

O Psicólogo emudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma tão suprema autoridade sobre a roupa íntima das duquesas, que à tarde, em quartos de rapazes, pôr impulsos idealistas e anseios de alma dolorida – se põem em colete e saia branca!... De resto o diretor do Boulevard condenara logo sem piedade, com uma experiência firme, aquele colete, só possível nalguma mercearia atrasada que ainda procurasse efeitos de carne nédia sobre cetim negro. E eu, para que me não julgassem alheio às coisas dos adultérios ducais e do luxo, acudi, metendo os dedos pelo cabelo:

-Realmente, preto, só se estivesse de luto pesado, pelo pai!

O pobre mestre da Couraça sucumbira. Era a sua glória de Doutor em Elegâncias Femininas desmantelada – e Paris supondo que ele nunca vira uma duquesa desatacar o colete na sua alcova de Psicólogo! Então, passando o lenço sobre os lábios que a angústia ressequira, confessou o erro, e contritamente o atribuiu a uma improvisação tumultuosa:

-Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com efeito! É absurdo, um colete preto!... Mesmo pôr harmonia com o estado da alma da duquesa devia ser lilás, talvez cor de resedá muito desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines... É prodigioso como me escapou . Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem anotadas, bem documentadas!...

Na sua amargura, terminou pôr suplicar a Marizac que espalhasse pôr toda a parte, no Clube, nas salas, a sua confissão. Fora um engano de artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas profundidades negras das almas! Não reparara no colete, confundira os tons... Gritou, com os braços estendidos para o diretor do Boulevard:

-Estou pronto a fazer uma retificação, numa interview, meu caro mestre! Mande um dos seus redatores... Amanhã, às dez horas! Fazemos uma interview, fixamos a cor. Evidentemente é lilás... Mande um de seus homens, meu caro mestre! É também uma ocasião para eu confessar, bem alto, os serviços que o Boulevard em feito às ciências psicológicas e feministas!

Assim ele suplicava, encostado à estante, às lombadas dos Santos Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Biblioteca Jacinto que se debatia e se recusava entre dois homens.

Eram os dois homens de Madame de Trèves – o marido, conde de Trèves, descendente dos reis de Cândia, e o amante, o terrível banqueiro judeu, David Efraim. E tão enfronhadamente assaltavam o meu Príncipe que nem me reconheceram, ambos num aperto de mão mole e vago me trataram pôr “caro conde”! Num relance, rebuscando charutos sobre a mesa de limoeiro, compreendi que se tramava a Companhia das Esmeraldas da Birmânia, medonha empresa em que cintilavam milhões, e para que os dois confederados de bolsa e de alcova, desde o começo do ano, pediam o nome, a infância, o dinheiro de Jacinto. Ele resistira, no enfado dos negócios, desconfiado daquelas esmeraldas soterradas num vale da Ásia. E agora o conde de Trèves, um homem esgrouviado, de face rechupada, eriçada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarela como um melão, assegurava ao meu pobre Príncipe que no Prospecto já preparado, demonstrando a grandeza do negócio, perpassava um fulgor das Mil e uma noites. Mas sobretudo aquela escavação de esmeraldas convidava todo o espírito culto pela sua ação civilizadora. Era uma corrente de idéias ocidentais, invadindo, educando a Birmânia. Ele aceitara a direção pôr patriotismo...

-De resto é um negócio de jóias, de arte, de progresso, que deve ser feito, num mundo superior entre amigos...

E do outro lado o terrível Efraim, passando a mão curta e grossa sobre a sua bela barba, mais frisada e negra que a dum Rei Assirio, afiançava o triunfo da empresa pelas grossas forças que nela entravam, os Nagayers, os Bolsans, os Saccart...

Jacinto franzia o nariz, enervado:

-Mas, ao menos, estão feitos os estudos? Já se provou que há esmeraldas?

Tanta ingenuidade exasperou Efraim:

-Esmeraldas! Está claro que há esmeraldas!... Há sempre esmeraldas desde que haja acionistas!

E eu admirava a grandeza daquela máxima – quando apareceu, esbaforido, desdobrando o lenço muito

(continua...)

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