Por Lima Barreto (1909)
Eu não conhecia bem os bairros da cidade. Não lhes sabia a importância, o valor, nem as suas vias de comunicações com o centro, donde não me tinha afastado até ali, senão para fazer um passeio de pragmática a Botafogo, de que não gostei. Tive que indagar o caminho e o bonde, depois então corri ao ponto respectivo Viajei cheio de ansiedade, com o sangue a correr aceleradamente pelas artérias, repetindo mentalmente o nome da rua e o número da casa do doutor Castro. Houve uma vez que me saltaram pela boca fora, com grande espanto do meu vizinho da esquerda. As ruas estavam animadas, havia um grande trânsito de veículos, criadas com cestos, quitandeiros, vendedores de peixe. Aqui e ali, com os cestos arriados, à porta de uma ou outra casa, discutiam a venda das suas mercadorias com as donas das casas ainda quase em traje de dormir. Pelas esquinas, as vendas estavam cheias. O condutor ensinou-me a rua e eu segui a pé na direção indicada. Não seriam ainda nove horas quando bati no número vinte e sete, uma casa apalacetada, afastada da rua, no centro do terreno, entrada do lado e varanda, jardim na frente e bojudas compoteiras no telhado. A casa erguia se do solo sobre um porão de boa altura, com mezaninos gradeados e as janelas, de sacadas a olhar para os pequenos canteiros do jardim, a essa hora povoados de flores que desabrochavam, murchas por aquela manhã quente.
Bati. Quem é — perguntou uma senhora do alto da escada, à soleira da porta de entrada. Que podia responder?! Quem era eu? Sei lá... Dizer o meu nome?... Como responder?... Afinal, disse bem idiotamente: Sou eu. Suba, respondeu-me ela. Entrei e subi. Que deseja? Era uma rapariga moça, entre vinte e cinco ou trinta anos, de grandes quadris e seios altos; vinha envolta num roupão rosado e tinha o cabelo, curto e pouco abundante, desnastrado por sobre uma toalha alvadia. Toda ela deu-me uma impressão de veludo, de pelúcia, de coxim macio e acariciante. Logo que me aproximei, de novo, me perguntou languidamente, deixando ver os dentes imaculados: — Que deseja? Expliquei-lhe rapidamente que vinha do distrito do deputado e lhe queria falar. Fez-me entrar na sala, descansou o jornal que até então conservara na mão esquerda, e explicou-me com bondade:
— O doutor ainda não se levantou; mas não tarda... Esteve trabalhando até tarde... O senhor sabe: são pareceres sobre pareceres... Há de esperá-lo um pouco, sim?
—Pois não, minha senhora.
Não disse a resposta com naturalidade, esforcei-me por fazê-la polida e amável, e saiu-me por isso completamente desajeitada. Sempre fui assim diante das senhoras, qualquer que seja a sua condição; desde que as veja num ambiente de sala, são todas para mim marquesas e grandes damas. E um sentimento perfeitamente imbecil, de que até hoje não me pude libertar. Certa ocasiào mesmo fui por isso de um ridículo sem nome. Gregoróvitch ceava comigo num restaurante da moda. Era da meia-noite para uma hora; a sala estava cheia de raparigas de vida airada. Tendo esbarrado a minha cadeira na de uma delas, pedi com grande humildade cortesã: — Desculpe-me Vossa Excelência. A mulher, uma grande espanhola cheia de rugas e pó-de-arroz, olhou-me cheia de raiva e desandou-me uma descompostura julgando que eu a troçava. Gregoróvitch, porém, interveio e deu-lhe explicações cabais na sua língua de origem. Ela riu-se muito, contou à companheira e em breve a sala toda me olhava, com uma risota nos lábios.
Diante daquela mulher, na casa particular do deputado, cuja situação nela era fácil de descobrir, eu fiquei nessa atitude de menino tímido que me invade, sempre que estou em presença de mulheres, numa sala qualquer. Não lhe falei; não pude provocar a palestra; ela fatigou-se de olhar, levantou-se desculpando-se: — “O senhor há de me desculpar... Tenho que fazer, vou até lá dentro e o doutor não há de tardar”.
Ainda hoje, depois de tantos anos de desgostos dessa relação continua pela minha luta intima, precocemente velho pelo entrechoque de forças da minha imaginação desencontrada, desproporcionada e monstruosa, lembro-me — com que saudade! com que frenesi! — do inebriamento que essa mulher deu aos meus sentidos, com o seu perfume violentamente sexual, acre e estonteante, espécie de requeime das especiarias das Índias... Ergueu-se e foi lentamente pelo corredor em fora; e eu segui com o olhar a sua nuca tentadora com tonalidade de bronze novo.
Eu conhecia a legitima esposa do Castro. Que diferença! Era quase uma velha encarquilhada, cheia de pelancas e fatuidade...
Quando perdi de vista a moça pus-me a reparar na sala, com umas oleogravuras sentimentais e uns bibelots de pacotilha. Demorei me assim uma meia hora; por fim, o homem veio. Entreguei-lhe a carta. Leu a num instante, tendo na testa uma ruga de aborrecimento; depois perguntou me:
— É o senhor?
— Sim senhor.
— Você (mudou logo de tratamento) sabe perfeitamente como as coisas vão: o pais está em crise, em apuros financeiros, estão extinguindo repartições, cortando despesas; é difícil arranjar qualquer coisa; entretanto...
(continua...)
BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.