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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

E se, por um motivo qualquer, como, por exemplo, para guardar as jóias que os duques mandassem da casa do marquês, a fim de não levá-las para Anatópolis; se, por uma circunstância superveniente, ele se tornasse necessário, um criado iria chamá-lo...

Um criado apareceu-lhe na porta, conforme fora previsto.

Infelizmente, o motivo do chamado era mui diverso de quantas hipóteses pudera imaginar o particular.

— Entraram ladrões no palácio!... — foi o grito que o pobre velho ouviu, ao acordar.

— Um criado está aí dizendo que houve um roubo no palácio! — disse a pessoa que foi ao quarto desapertá-lo.

O particular saltou da cama, vestiu-se às pressas, desesperou-se com a franqueza da sua idade, que não lhe permitia maior agilidade; passou um pouco d’água no rosto e foi ter com o criado.

O criado contou a surpresa da manhã.

— Estou perdido! — exclamou o velho. — Estou perdido! Que confiança poderá mais depositar em mim o sr. duque?

E, sem despedir-se dos filhos, que o cercavam fitando-o com os olhos espantados, saiu para a rua.

O criado que dera a notícia afagou carinhosamente os cabelos em desalinho das crianças, cumprimentou a assustada esposa do particular, dirigindo-lhe algumas palavras tranqüilizadoras, e saiu em seguimento do velho.

O pobre homem, por um incrível esforço, vencia o peso dos anos e corria como um desassisado para a quinta do duque...

Estava encantador o dia... Uma transparente manhã difundia-se no ar. A perspectiva das ruas afunilava-se distintamente através da limpidez da atmosfera. As casas ainda tinham fechadas as janelas, como se temessem a inundação da luz. Sobre os telhados os gatos arqueavam a espinha nuns demorados espreguiçamentos matutinos. No fundo dos quintais os galos solfejavam a música risonha dos cacarejos. Nas árvores dos jardins, pingava o orvalho das folhas. As chaminés começavam a sacudir para o céu uns lenços diáfanos de fumaça azulada. O estômago dessas casas acordava primeiro que o rosto. Pelos passeios corriam criados e criadas levando nos braços cestos de compras, enfeitados de molhos verdes de couves e franjas de cebolas; pelo céu, corriam pedaços de nuvens com as bordas douradas pelo fogo da aurora.

Uma brisa sem rumo passeava à toa ao longo das paredes...

O particular do duque atravessava pelo meio de todo aquele admirável amanhecer como atravessaria uma tempestade: possuído da sua idéia, chegar ao palácio.

Andava sem ver, senão o chão que tinha de pisar.

As pessoas que estavam na quinta o viram passar apressado como se fosse acudir a alguém que pedisse socorro. Eram moradores da aldeia e trabalhadores do parque. Reconheceram o particular do duque e o acompanharam.

O particular subiu de um pulo as escadas do palácio e entrou na sala do armário, na ocasião mesmo em que o mordomo perguntava por ele.

Entretanto, o boato do roubo se espalhava, e toda a gente da quinta agrupava-se sob as janelas encontradas abertas, ou procurava entrar no palácio para ver com os próprios olhos o arrombamento do móvel.

— O que aconteceu, sr. mordomo? — perguntou o particular, logo que respirou...

— Veja este armário arrombado!

O particular sentiu que ia cair e agarrou-se ao armário de que se aproximara, trêmulo, mais morto que vivo.

O silêncio dos circunstantes deixou que se lhe ouvisse um grito surdo:

— Roubaram as jóias!

O mordomo amparou o pobre homem:

— O que diz? — perguntou com susto.

— Roubaram as jóias!... Aqui é que elas se guardam, antes de ir para a burra... Eu sabia que o duque ia mandar as jóias, como sempre faz, quando vai com a duquesa a alguma reunião donde tem de seguir para Anatópolis... A culpa é minha, que retirei-me do palácio antes de receber o criado que devia chegar com as jóias...

Estas palavras, pronunciadas a meio pelo particular, deixaram todos aterrados.

— É uma desgraça! — repetia o mordomo. — É uma desgraça!

— Estou perdido! — clamava o particular. — Levaram o colar da sra. duquesa... Vou verificar que jóias faltam na burra da coroa...

A burra chamava-se da coroa, não sabemos ser por ter na porta uma placa em forma de brasões, se por guardar uma maravilhosa coroa do duque cravejada de brilhantes, emblema da família Bragantina. Nessa burra guardava-se o que os duques possuíam em ouro e pedrarias. Por um dengue de vaidade fidalga estas riqiezas não se diziam pertencentes ao duque ou à duquesa, mas simplesmente à coroa.

O particular, acompanhado pelo mordomo, foi ao gabinete onde estava colocada a burra e examinou as jóias da coroa.

O resultado do exame foi desanimador. Faltavam os melhores adereços da duquesa, faltavam diversas condecorações do duque, e entre as jóias da marquesa d’Etu, que estavam guardadas na burra da coroa talvez porque o marquês a considerava mais segura do que a sua, faltava um rico anel de brilhantes...

(continua...)

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