Por Raul Pompéia (1881)
- O diabo é esta chuva... parece que o céu está chorando...
Todo estudante é mais ou menos poeta. A frase de Emílio inspirou-lhe uma idéia.
- Deixa estar, Fernando, que hei de dedicar-te um soneto com este título: a queda de um querubim, onde farei o céu deplorando uma virgem...
- E eu, replicou o companheiro distraidamente e rindo, hei de dedicar-te um com este outrotitulo: a mona do sapateiro.
Raul Pompéia
A POMBA E A ESTRUMEIRA
Eu quero um noivo rico... Que não seja formoso!... Formosa já sou eu... Quero um noivo de ouro, de ouro como o bezerro. Adoro tudo que é de ouro: as jóias, as moedas e o bezerro mosaico. Quando durmo, sobre o meu corpo os sonhos entornam douradas cascatas... As auroras são belas para mim, porque têm diademas de ouro. Ama-se geralmente a montanha pela verdura basta e frondosa, que a reveste; eu amo a montanha, porque sinto lá dentro da crosta granítica, o espesso filão dourado. Há quem adore o ciciar do córrego, cachoeirando-se pelas pedrinhas afora; eu acho apenas adorável o ribeiro, quando rola palhetas de ouro nas areias do leito... Com o ouro faz-se o domínio e funde-se o trono. Os imperadores romanos faziam esculpir em ouro as próprias figuras...
Os raios do sol são de ouro.
Enfim, eu serei conquistada pelo ouro... A formosura tem a glória de valer o grande metal e de poder trocar-se por ele.
A mulher que se deixa conquistar pelo ouro passa a ser conquistadora; a fraqueza da formosura transfunde-se na onipotência do metal... De que serviria a nós outras, mulheres, a beleza, se a beleza não fosse ouro no mercado da vida e se o ouro não exigisse o formoso róseo da nossa carne para mais fino realce?!... Os homens dominam pela matéria, que é o ouro, nós dominamos pelo ideal, que é a sedução. A aliança dos dous domínios faz o domínio supremo... Esta é a verdade. Por isso, eu quero um noivo rico. Um noivo de ouro; de ouro maciço como o bezerro do velho testamento... Pertenço a quem mais der!... O calão vulgar da canalha chama isso vender-se...
Eu vendo-me!
Eu estava horrorizado. E ela dizia a brilhante catadupa de blasfêmias com aqueles mimosos lábios, que eu supusera feitos para o murmúrio doce das santas confidências da virtude e do amor...
Como era horrível a lagarta amarela do ouro, a sair por entre as rosas daquela boca!
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Diante de nós, lá embaixo, no jardim, haviam acumulado a um canto uma grande porção de estrume.
Sobre o estrume, uma pomba branca, de lindos pés sangüíneos e sangüíneo bico, revolvia com as unhas o monte infecto, procurando alimento...
Fez-me estremecer o epigrama da casualidade.
Raul Pompéia
 TONA D'ÁGUA
I
Há crepúsculos que parecem desmaios. Olha-se para cima e vê-se o firmamento pálido; o ocidente apresenta a expressão vaga do olhar da criança que se faz mulher e que sofre a transição. Parece que uma nota de espanto percorre a natureza... Segue-se depois a noite, a escuridão, o desfalecimento da luz.
A alma compreende que a noite é uma ausência. Vai além: apalpa esta ausência. É deleitoso. Tem-se os olhos abertos e sonha-se. Os espetáculos são panoramas de fumaça; e sempre nessa confusão de escuros e meias sombras, destaca-se um ponto. Quem vê este ponto é o coração. Perguntem-no aos amantes.
Rosália estava vendo um crepúsculo assim; e esperava ansiosa pela noite... à praia.
II
Resvala a canoa, macio como a nuvem à flor do céu... Rosália já está com ele. Só quem os vê é a noite. O remeiro canta distraído uma barcarola por trás do estofo que os encobre. E vão...
III
Trocam olhares que os prendem como elos de doces cadeias. Apertam-se as mãos e sentem que possuem alguma coisa de comum que lhes circula pelo corpo deliciosamente. Parece-lhes que possuem o mesmo sangue, porque possuem o mesmo fogo, vivificando a dormência que os acalenta. São dous que se amam de um só amor; mas conhecem-no apenas, porque se sabem amantes e o amor exige duplicidade.
IV
A quilha do barquinho rasga sem ruído a toalha alisada do mar e os gravetos flutuantes vão lhe ficando na esteira. Por essa hora, vai a imergir no ocaso um estilhaço de lua que dissolve ainda pelas trevas uma claridade morta. Rosália vê à proa do barco uma pequena lâmina. Vê não exprime bem. Os olhos passam pelo objeto e não atentam. Mas a canoa vai e vai...
Rosália foge à casa paterna, nos braços do amante.
V
Pela segunda vez depara com o ferro; mas agora com atenção. Aquele aço não brilha, entretanto cai sobre ele o luar. A jovem estende languidamente a mão e o segura. Violento palpita-lhe o coração.
Pressentimento... Ela fita profundamente o semblante amoroso do companheiro e murmura:
- Sangue?!...
O mancebo faz um movimento brusco. A canoa estremece. O remeiro vai cantando...
(continua...)
POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.