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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

— Exatamente, umas notas sobre os primeiros descobridores da América, uns documentos importantíssimos, que valem toda a fortuna dos Rothschilds...

O visconde de Santa Quitéria, ao ouvir falar nos Rothschilds, deitou o rabo do olho.

— ... Calcule o senhor que os fenícios, muito antes de Pinzon, numa época remotíssima, andaram no Amazonas...

— No Amazonas, desembargador? — repetiu Manhães com espanto.

— Pois não, no Amazonas... admira-se? Quanto mais se eu lhe disser que os Cananeus andaram na Paraíba do Norte! Pois é a pura verdade. Encontrei na biblioteca de Sua Majestade um fac-símile de inscrições fenícias descobertas numa pedra da Paraíba.

— Mas, então, Colombo não descobriu a América?

— Não senhor... Colombo não descobriu coisa alguma...

E o desembargador, pausadamente e circunspectamente, explicou a magna questão do ovo de Colombo.

— E o senhor, tem escrito muito? — inquiriu depois ao êmulo de Gonçalves Dias.

— Oh, muito. V. Exa não imagina! O pior é que no Brasil ainda não há editores. V. Exa decerto conhece o meu poema...

— Qual deles?

— Eu só escrevi um poema até hoje...

— Ah!... Como intitulou?

— Então V. Exa. não conhece? - insistiu o literato com surpresa.

— Homem, eu, para lhe falar a verdade, em matéria de verso, só conheço os Lusíadas, que tenho em casa.

Valdevino Manhães deu um jeitinho ao pincenê, verificou que as violetas estavam na lapela, e, como se acabasse de ouvir uma horrorosa blasfêmia, uma heresia medonha, exclamou, fitando os olhos do magistrado:

— Só os Lusíadas?!

— Só os Lusíadas.

Nesse instante aproximava-se um criado oferecendo sorvetes em conchazinhas de porcelana, e um ar frio inundou o ambiente.

— Só os Lusíadas! repetiu o poeta, estendendo a mão à bandeja.

Parecia-lhe incrível, extraordinário, fora de toda a verdade, que um membro do Instituto Histórico do Rio de Janeiro, autor de uma memória sobre os irmãos Pinzon, desembargador da Relação, não lesse os poetas do seu país. Era incrível. Mas o que ele estranhava ocultamente é que o desembargador não houvesse lido a paródia do "1-Juca-Pirama", que tantos elogios merecera da crítica nacional.

As outras pessoas ouviam interessadas o visconde de Santa Quitéria, bebendo-lhe as palavras, religiosamente fitos nos seus olhos.

O Dr. Condicional, porém, animado pelo desembargador e fingindo prestar atenção ao visconde, imobilizava os olhos sobre a esposa de Evaristo. Subitamente a presença dela o atraíra como um clarão que de repente se abrisse, mais forte que a luz do gás.

Ainda não havia reparado! Como é que se achava ali aquela mulher e ele — cego! — não lhe fizera as devidas cortesias? O que mais o impressionava era o ar triste de Adelaide, o tom magoado do seu rosto, a expressão recolhida e meiga dos olhos dela... Pobre senhora! Talvez algum drama íntimo, talvez algum desses episódios "lutuosos" de família, talvez... — quem sabe? — alguma dor oculta pungindo-lhe a ignorada existência... E à sua imaginação vinham casos de adultério, romances de amor infeliz, tragédias em que os maridos matavam as esposas, num formidável acesso de loucura; - suicídios por amor; namorados que faziam saltar os próprios miolos e raparigas que ingeriam veneno... horrores do coração humano! — e repetia mentalmente, sensibilizado por uma vaga apreensão que o punha nervoso:

— "Aquela senhora tem o que quer que seja!..."

Valdevino Manhães carregava de tintas sombrias o rosto de Adelaide, o rosto e a alma — embalado por seu natural pessimismo que ia até a negação de Deus e do Bem. Explicava tudo pela — fatalidade, e não podia ver uma pessoa triste que não dissesse logo: "Aí vai 'um desgraçado!" No fundo desse pessimismo havia, entretanto, uma compaixão pelo sofrimento alheio — compaixão que ele calculadamente escondia "para se mostrar superior às fraquezas humanas".

A natural expressão do rosto de Adelaide fazia-a mais triste do na verdade ela estava; seus olhos nunca se abriam completamente; eram olhos meigos, de uma vaga melancolia serena e cismadora, olhos recolhidos, quase mortos, onde às vezes brilhava, como por encanto, um reflexo de alegria, olhos contemplativos, olhos ideais... Naquele momento a esposa de Evaristo, dominada pela palavra do banqueiro, via diante dela, como um estranho fantasma, a Corte Imperial, desde o monarca, com a sua longa barba branca de rei Davi, carregando o pesado manto de arminho e ouro, rodeado de áulicos e cortesãos sob uma grande cúpula majestosa, até o último lacaio dando-se ares de fidalgo, indo e vindo pelos corredores na sua libré carnavalesca de súdito fiel e servo obediente.

(continua...)

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