Por Inglês de Sousa (1891)
Na sua casinha solitária, acompanhado pelo Macário sacristão que lhe governava a casa, e servido por um preto velho que trouxera do Pará, levava a vida austera dum padre de S. Sulpício. Jamais nenhum dos sujeitos que viviam em Silves da espionagem da vida alheia, nem o Maneco Furtado, nem o Cazuza dos Tamarindos, pudera, naquele mês inteiro, divisar entre os umbrais da porta da entrada, ou na abertura da cerca do quintal, um vulto suspeito de mulher. Era simplesmente admirável.
O Macário sacristão, empanzinado de gulodices, palitando os dentes, satisfeito do mundo, clamava na vila que nunca vira um homem assim, que um padre daquele feitio era uma coisa espantosa. E batia-se, em discussões calorosas, com os maliciosos que, mais por pirraça ao sacrista do que por convicção, notavam a facilidade que havia em passar, sem ser visto da casa do vigário para o quintal da Luísa Madeirense. O Macário punha a mão ao fogo pela castidade de S. Rev. ma. É verdade que havia tentações... a Madeirense fazia o diabo! E uma certa viuvinha então? Era querer e estava feito, mas não! S. Rev. ma não queria. Macário desafiava a toda a gente a que o pilhasse em falso. Ele próprio, Francisco Fidêncio Nunes, o terrível inimigo dos padres, que escrevia correspondências para o Democrata, de Manaus, em que vazava a bílis revolucionária e ateísta, para esfregar aquela súcia, era obrigado a confessar que ou padre Antônio era um santo ou um verdadeiro ministro do altar!
O professor ergueu-se desanimado, deixando cair a caneta que tinha entre os dedos. Foi à varanda, onde a Maria Miquelina, sentada a um canto, tendo diante de si uma grande almofada branca, fazia rendas de bico, silenciosa e trombuda.
— Então o tal padreco é mesmo um Santantoninho, Maria Miquelina!
A mulata não respondeu.
— Tens as bananas atravessadas na garganta, rapariga? Olha que se me móis, não janto.
As bananas estavam perdidas, mas era preciso salvar a honra do pirarucu fresco, que a caseira guardara para a refeição da tarde, fritando-o em fino azeite doce. Estava de tentar.
— Olhe, seu Chico, disse a mulata depois duma pausa; vuncê sabe que eu não gosto de homens de saia. Mas o vigarinho é um santo, lá isso ninguém me tira.
O professor voltou para a sala, sentou-se de novo à mesa, pegou na pena e começou a escrever:
“O escritor destas modestas e despretensiosas linhas...”
Mas largou a caneta, sem ânimo de prosseguir. Não queria elogiar o padre, não queria comprometer-se. Demais, estava com um ferro por causa da Maria Miquelina! E não se conformava facilmente com os olhos baixos e o falar melífluo daquele padre elegante e belo.
Havia um ano que o Chico Fidêncio se estabelecera em Silves, espantando os pacatos habitantes da vila com as suas teorias irreverentes e ousadas, fascinando-os, tinha presunção disso, com o seu verbo colorido e ardente, espicaçando-lhes a mole diferença com o aguilhão das suas críticas acerbas e dos seus sarcasmos ferinos, dominando-os pelo espírito desembaraçado de convenções e dos prejuízos da estreita vida de aldeia.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.