Por Eça de Queirós (1888)
Mandou Baptista, a correr, buscar-lhe um chapéo baixo; e assim mesmo, de casaca, sem paletot, desceu n'uma grande anciedade. No peristyllo topou com Eusebiosinho que chegava, e sacudia cuidadosamente com o lenço a poeira dos botins. Nem fallou ao Eusebiosinho. Correu ao coupé, parado á porta particular dos seus quartos, mudo, fechado, mysterioso, aterrador...
Abriu a pertinhola. Do canto da velha traquitana, um vulto negro, abafado n'uma mantilha de renda, debruçou-se, perturbado, balbuciou:
- É só um instante! Quero-lhe fallar!
Que allivio! Era a Gouvarinho! Então, na sua indignação, Carlos foi brutal.
- Que diabo de tolice é esta? Que quer?
Ia bater com a portinhola; ella empurrou-a para fóra, desesperada; e não se conteve, desabafou logo alli, diante do cocheiro, que mexia tranquillamente na fivela d'um tirante.
- De quem é a culpa? Para que me trata d'este modo?... É só um instante, entre, tenho de lhe fallar!...
Carlos saltou para dentro, furioso:
- Dá uma volta pelo Aterro, gritou ao cocheiro. Devagar!
O velho calhambeque desceu a calçada; e durante um momento, na escuridão, recuando um do outro no assento estreito, tiveram as mesmas palavras, bruscas e colericas, através do barulho das vidraças.
- Que imprudencia! que tolice!...
- E de quem é a culpa? De quem é a culpa?
Depois, na rampa de Santos, o coupé rolou mais silenciosamente no macadam. Carlos então, arrependido da sua dureza, voltou-se para ella, e com brandura, quasi no tom carinhoso d'outr'ora, reprehendeu-a por aquella imprudencia... Pois não era melhor ter-lhe escripto?
- Para quê? exclamou ella. Para não me responder? Para não fazer caso das minhas cartas, como se fossem as de um importuno a pedir-lhe uma esmola!...
Suffocava, arrancou a mantilha da cabeça. No vagaroso rolar do coupé, sem ruido, ao longo do rio, Carlos sentia a respiração d'ella, tumultuosa e cheia d'angustia. E não dizia nada, immovel, n'um infinito mal-estar, entrevendo confusamente, através do vidro embaciado, na sombra triste do rio adormecido, as mastreações vagas de falúas. A parelha parecia ir adormecendo; e as queixas d'ella desenrolavam-se, profundas, mordentes, repassadas d'amargura.
- Peço-lhe que venha a Santa Isabel, não vem... Escrevo-lhe, não me responde... Quero ter uma explicação franca comsigo, não apparece... Nada, nem um bilhete, nem uma palavra, nem um aceno... Um desprezo brutal, um desprezo grosseiro... Eu nem devia ter vindo... Mas não pude, não pude!... Quiz saber o que lhe tinha feito. O que é isto? Que lhe fiz eu?
Carlos percebia os olhos d'ella, faiscantes sob a nevoa de lagrimas retidas, supplicando e procurando os seus. E sem coragem sequer de a fitar, murmurou, torturado:
- Realmente, minha amiga... As coisas fallam bem por si, não são necessarias explicações.
- São! É necessario saber se isto é uma coisa passageira, um amuo, ou se é uma coisa definitiva, um rompimento
Elle agitava-se no seu canto, sem achar uma maneira suave, affectuosa ainda, de lhe dizer que todo o seu desejo d'ella findára. Terminou por afirmar que não era um amuo. Os seus sentimentos tinham sido sempre elevados, não cahiria agora na pieguice de ter um amuo...
- Então é um rompimento?...
- Não, tambem não... Um rompimento absoluto, para sempre, não...
- Então é um amuo? Porquê?
Carlos não respondeu. Ella, perdida, sacudiu-o pelo braço.
- Mas falle! Diga alguma coisa, santo Deus! Não seja cobarde, tenha a coragem de dizer o que é! Sim, ella tinha razão... Era uma cobardia, era uma indignidade, continuar alli, gôchemente, dissimulado na sombra, a balbuciar coisas mesquinhas. Quiz ser claro, quiz ser forte.
- Pois bem, ahi está. Eu entendi que as nossas relações deviam ser alteradas...
E outra vez hesitou, a verdade amolleceu-lhe nos labios, sentindo aquella mulher ao seu lado a tremer d'agonia.
- Alteradas, quero dizer... Podiamos transformar um capricho apaixonado, que não podia durar, n'uma amizade agradavel, e mais nobre...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.