Por Eça de Queirós (1888)
serenissima. Craft, Sequeira e o Taveira passeavam fumando no terraço. Ao canto d'um sofá Cruges escutava religiosamente Steinbroken que lhe contava, com gravidade, os progressos da musica na Filandia. E em redor de Affonso, estendido na sua velha poltrona, de cachimbo na mão, fallava-se do campo.
Ao jantar Affonso annunciára a intenção de ir visitar, para o meado do mez, as velhas arvores de Santa Olavia; e combinára-se logo uma grande romaria de amizade ás margens do Douro. Craft e Sequeira acompanhavam Affonso. O marquez promettera uma visita para agosto «na companhia melodiosa», dizia elle, do amigo Steinbroken. D. Diogo hesitava, com receio da longa jornada, da humidade da aldêa. E agora tratava-se de persuadir Ega a ir tambem, com Carlos - quando Carlos acabasse emfim de reunir esses materiaes do seu livro que o retinham em Lisboa «á banca do labor...» Mas o Ega resistiu. O campo, dizia elle, era bom para os selvagens. O homem, á maneira que se civilisa, afasta-se da natureza; e a realisação do progresso, o paraíso na Terra, que presagiam os Idealistas, concebia-o elle como uma vasta cidade occupando totalmente o Globo, toda de casas, toda de pedra, e tendo apenas aqui e além um bosquesinho sagrado de roseiras, onde se fossem colher os ramalhetes para perfumar o altar da Justiça... - E o milho? A bella fruta? A hortaliçasinha? perguntava Villaça, rindo com malicia.
Imaginava então Villaça, replicava o outro, que d'aqui a seculos ainda se comeriam hortaliças? O habito dos vegetaes era um resto da rude animalidade do homem. Com os tempos o sêr civilisado e completo vinha a alimentar-se unicamente de productos artificiaes, em frasquinhos e em pilulas, feitos nos laboratorios do Estado...
- O campo, disse então D. Diogo, passando gravemente os dedos pelos bigodes, tem certa vantagem para a sociedade, para se fazer um bonito pic-nic, para uma burficada, para uma partida de croquet... Sem campo não ha sociedade.
- Sim, rosnou o Ega, como uma sala em que tambem ha arvores ainda se admitte...
Enterrado n'uma poltrona, fumando languidamente, Carlos sorria em silencio. Todo o jantar estivera assim calado, sorrindo esparsamente a tudo, com um ar luminoso e de deliciosa lassidão. E então o marquez, que já duas vezes, dirigindo-se a elle, encontrára a mesma abstracção radiosa, impacientou-se:
- Homem, falle, diga alguma coisa!... Você está hoje com um ar extraordinario, um arzinho de beato que se regalou de papar o Santissimo!
Todos em redor, com sympathia, se affirmaram em Carlos: Villaça achava-lhe agora melhor cara, côr d'alegria: D. Diogo, com um ar entendido, sentindo mulher, invejou-lhe os annos, invejou-lhe o vigor. E Affonso reenchendo o cachimbo olhava o neto, enternecido.
Carlos ergueu-se immediatamente, fugindo áquelle exame affectuoso.
- Com effeito, disse elle, espreguiçando-se de leve, tenho estado hoje languido e mono... É o começo do verão... Mas é necessario sacudir-me... Quer você fazer uma partida de bilhar, ó marquez?
- Vá lá, homem. Se isso o resuscita...
Foram, Ega seguiu-os. E apenas no corredor o marquez parando, e como recordando-se, perguntou sela rebuço ao Ega noticias dos Cohens. Tinham-se encontrado? Estava tudo acabado? Para o marquez, uma flôr de lealdade, não havia segredos: Ega contou-lhe que o romance findára, e agora o Cohen, quando o cruzava, baixava prudentemente os olhos...
- Eu perguntei isto, disse o marquez, porque já vi a Cohen duas vezes...
- Onde? foi a exclamação sôfrega do Ega.
- No Price, e sempre com o Damaso. A ultima vez foi já esta semana. E lá estava o Damaso, muito chegadinho, palrando muito... Depois veio sentar-se um bocado ao pé de mim, e sempre d'olho n'ella... E ella de lá, com aquelle ar de lambisgoia, de luneta n'elle...
Não havia que duvidar, era um namoro... Aquelle Cohen é um predestinado.
Ega fez-se livido, torceu nervosamente o bigode, terminou por dizer:
- O Damaso é muito intimo d'elles... Mas talvez se atire, não duvido... São dignos um do outro.
No bilhar, emquanto os dois carambolavam preguiçosamente, elle não cessou de passear, n'uma agitação, trincando o charuto apagado. De repente estacou em frente do marquez, com os olhos chammejantes: - Quando é que você a viu ultimamente no Price, essa torpe iliba d'Israel?
- Terça-feira, creio eu.
O Ega recomeçou a passear, sombrio.
N'esse instante Baptista, apparecendo á porta do bilhar, chamau Carlos em silencio, com um leve olhar. Carlos veio, surprehendido.
- É um cocheiro de praça, murmurou Baptista. Diz que está alli uma senhora dentro d'uma carruagem que lhe quer fallar. - Que senhora?
Baptista encolheu os hombros. Carlos, de taco na mão, olhava para elle, aterrado. Uma senhora! Era decerto Maria... Que teria suceedido, santo Deus, para ella vir n'uma tipoia, ás nove da noite, ao Ramalhete!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.