Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

agatha que punham um brilho suave de joia sobre a negrura dos ebanos ou setim das madeiras côr de rosa; cofres nupciaes, longos como bahús, onde se guardavam os presentes dos Papas e dos Principes, pintados a purpura e ouro, com graças de miniatura; contadores hespanhoes impertigados, revestidos de ferro brunido e de velludo vermelho, e com interiores mysteriosos, em fórma de capella, cheios de nichos, de claustros de tartaruga... Aqui e além, sobre a pintura verde-escura das paredes, resplandecia uma colcha de setim toda recamada de flôres e d'aves d'ouro; ou sobre um bocado de tapete do Oriente de tons severos, com versículos do Alcorão, desdobrava-se a pastoral gentil d'um minuete em Cythera sobre a sêda de um leque aberto...

Maria Eduarda terminou por se sentar, cansada, n'uma poltrona Luiz xv, ampla e nobre, feita para a magestade das anquinhas, recoberta de tapeçaria de Beauvais, d'onde parecia exhalar-se ainda um vago aroma d'empoado.

Carlos triumphava, vendo a admiração de Maria. Então, ainda considerava uma extravagancia aquella compra, feita n'um rasgo de enthusiasmo?

- Não, ha aqui coisas adoraveis... Nem eu sei se me atreverei a viver uma vida pacata de aldêa no meio de todas estas raridades...

- Não diga isso, exclamava Carlos rindo, que eu pégo fogo a tudo!

Mas o que lhe agradou mais foram as bellas faianças, toda uma arte immortal e fragil espalhada por sobre o marmore das consolas. Uma sobretudo attrahiu-a, uma esplendida taça persa, d'um desenho raro, com um renque de negros cyprestes, cada um abrigando uma

flôr de côr viva: e aquillo fazia lembrar breves sorrisos reapparecendo entre longas tristezas. Depois eram as apparatosas majolicas, de tons estridentes e desencontrados, cheias de grandes personagens, Carlos V passando o Elba, Alexandre coroando Roxane; os lindos Nevers, ingenuos e sérios; os Marselhas, onde se abre voluptuosamente, como uma nudez que se mostra, uma grossa rosa vermelha; os Derby, com as suas rendas de ouro sobre o azul-ferrete de céo tropical; os Wedgewood, côr de leite e côr de rosa, com transparencias fugitivas de concha na agua...

- Só um instante mais, exclamou Carlos vendo-a outra vez sentar-se, é necessario saudar o genio tutelar da casa!

Era ao centro, sobre uma larga peanha, um idolo japonez de bronze, um deus bestial, nú, pellado, obeso, de papeira, faceto e banhado de riso, com o ventre óvante, distendido na indigestão de todo um universo - e as duas perninhas bambas, molles e flaccidas como as pelles mortas d'um feto. E este monstro triumphava, encanchado sobre um animal fabuloso, de pés humanos, que dobrava para a terra o pescoço submisso, mostrando no focinho e no olho obliquo todo o surdo resentimento da sua humilhação...

- E pensarmos, dizia Carlos, que gerações inteiras vieram ajoelhar-se diante d'este ratão, rezar-lhe, beijar-lhe o embigo, offerecer-lhe riquezas, morrer por elle...

- O amor que se tem por um monstro, disse Maria, é mais meritorio, não é verdade?

- Por isso não acha talvez meritorio o amor que se tem por si...

Sentaram-se ao pé da janella, n'um divan baixo e largo, cheio de almofadas, cercado por um biombo de sêda branca, que fazia entre aquelle luxo do passado um fôfo recanto de conforto moderno: e como ella se queixava um pouco de calor, Carlos abriu a janella. Junto do peitotil crescia tambem um grande pé de margaridas; adiante, n'um velho vaso de pedra, pousado sobre a relva, vermelhejava a flôr d'um cacto; e dos ramos de uma nogueira cahia uma fina frescura.

Maria Eduarda veio encostar-se á janella, Carlos seguiu-a; e ficaram alli juntos, calados, profundamente felizes, penetrados pela doçura d'aquella solidão. Um passaro cantou de leve no ramo da arvore; depois calouse. Ella quiz saber o nome de uma povoação que branquejava ao longe ao sol na collina azulada. Carlos não se lembrava. Depois brincando, colheu uma margarida, para a interrogar: Elle m'aime, un peu, beaucoup... Ella arrancou-lh'a das mãos.

- Para que precisa perguntar ás flôres?

- Porque ainda m'o não disse claramente, absolutamente, como eu quero que m'o diga...

Abraçou-a pela cinta, sorriam um ao outro. Então Carlos, com os olhos mergulhados nos d'ella, disse-lhe baixínho e implorando:

- Ainda não vimos a saleta de banho...

Maria Eduarda deixou-se levar assim enlaçada pelo salão, depois através da sala de tapeçarias onde Marte e Venus se amavam entre os bosques. Os banhos eram ao lado, com um pavimento de azulejo, avivado por um velho tapete vermelho da Caramania. Elle, tendo-a sempre abraçada, pousou-lhe no pescoço um beijo longo e lento. Ella abandonou-se mais, os seus olhos cerraram-se, pesados e vencidos. Penetraram na alcova quente e côr d'ouro: Carlos ao passar desprendeu as cortinas do arco de capella, feitas de uma sêda leve que coava para dentro uma claridade loura: e um instante ficaram immoveis, sós emfim, desatado o abraço, sem se tocarem, como suspensos e suffocados pela abundancia da sua felicidade.

- Aquella horrivel cabeça! murmurou ella.

Carlos arrancou a coberta do leito, escondeu a tela sinistra. E então todo o rumor se extinguiu, a solitaria casa ficou adormecida entre as arvores, n'uma demorada sésta, sob a calma de julho...

Os annos de Affonso da Maia foram justamente no dia seguinte, domingo. Quasi todos os amigos da casa tinham jantado no Ramalhete; e tomára-se o café no escriptorio d'Affonso, onde as janellas se conservavam abertas. A noite estava tepida, estrellada e

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...159160161162163...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →