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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

Estas revelações íntimas foram arrancadas pela gravidade das circunstâncias. Conhecendo tal gravidade, Maurícia não teve reservas, nem as podia ter. Demais, o afeto pelo bacharel, ao primeiro hesitante e tímido, ia ganhando de instante a instante proporções avultadas em sua alma, que até então fora uma vasta região desocupada. Os temores, os perigos vieram auxiliar em seu desenvolvimento as inclinações do seu coração. No seio da intensa sombra íntima em que nadava sua alma solitária e vacilante, surdira, como para lhe servir de companhia, pirilampo gentil e namorado, que devia ter em breve o luzeiro de um astro. Por que havia de fugir Maurícia à deleitosa impressão trazida pela primeira luz que rompia suavemente a noite do seu coração?

O amor nascia aí, como nasce semente fecunda em solo feracíssimo; e, com o amor, nascia a confiança inseparável deste sentimento, às vezes enganosa, mas quase sempre cega.

Suas últimas palavras adiantaram o jovem bacharel no caminho que sua paixão abrira; nem foram obstáculos ao avanço de Ângelo as cerimônias das relações recentes e o passado dessa mulher que ele conhecia havia poucas horas.

— Eu sempre lhe aconselharia, disse ele, que primeiro procurasse chamar a si o seu cunhado e a sua irmã, minha senhora: mas, se este recurso não surtir efeito, o outro há de surtir. Não tenho fortuna; obrigações, sim, conto-as em grande número; pobre de meios, sou rico de confiança no futuro, tenho grande espírito, alguns amigos e muito amor. Por que não lhe hei de dizer tudo o que a senhora me tem feito sentir?

— Esta linguagem aumenta cada vez mais o meu terror, disse Maurícia, sem reserva, trêmula, confusa, dominada de infantis pavores.

— Por quê? Por quê? - inquiriu o bacharel por extremo excitado.

— Porque tais palavras me advertem que, fugindo de um abismo insondável, aproximo-me de outro abismo tão insondável como o primeiro.

— Engana-se, minha senhora, retorquiu o bacharel. A senhora foge de uma região desolada, e penetra em um asilo de paz e concórdia. Ora, escute. Daqui a trinta léguas, existe uma povoação banhada a leste pelo Atlântico, e ao sul por um riacho de águas cristalinas e puras; ao norte e ao ocidente, essa região é cercada de vastas florestas, em sua maioria formadas por cajueirais imensos. Nesse povoação, moram meus pais. A vida ali é obscura, mas tranqüila. Dos enredos do mundo, poucos penetram neste asilo aberto às grandes afeições. A sociedade dos pescadores lembra o trato com a Graziela; quem ali ama não raras vezes sente em sua alma as grandezas desta concepção de Lamartine. Suponha que, partindo daqui, achasse aí no seio de uma família honesta, hospedeira e afetuosa todos os carinhos e desvelos que tinha no seu lar paterno; suponha que aí, a seu lado, uma alma ardente a acompanharia de manhã e de tarde pelas dunas da praia, ou pelos caminhos que cortam a floresta, sentindo ressoar entro de si a doce harmonia de sua voz; suponha que algumas economias levadas daqui poderiam assegurar-lhe uma existência não opulenta, mas decente e tranqüila; ora, diga-me: se este sonho pudesse realizar-se; se uma voz amiga chegasse aos seus ouvidos e lhe dissesse à puridade: “esta pintura não é mentirosa; esse canto feliz existe; essa vida imaginada, esse sossego longínquo, essa floresta cheia de perfumes, essas praias povoadas de jangadas, pertencentes a pescadores que hão de ser nossos amigos, esse rio de águas cristalinas, esse Atlântico imenso, essa família hospedeira, enfim , esse Éden existe, e podes tu existir no seio dele a senhora teria ânimo para dizer-lhe: “cala-te, que esse mundo, essa vida, é um abismo?”

Maurícia ouvira estas palavras em profundo silêncio. Enquanto Ângelo as proferia, ela absorta em ouvi-las, esquecera-se da triste realidade que a cercava. Seu espírito acompanhava a brilhante descrição, feita pelo poeta. Afigurava-se-lhe um paraíso este cantinho pequeno na terra, imenso em sua alma, infinito em sua imaginação.

— Se eu pudesse viver aí sem remorso, sem inquietações, sem saudades, como havia de ser feliz! — disse ela insensivelmente arrastada pelo fio de pensamentos íntimos que tinha a força de uma cadeia fatal e ominosa.

— E por que não há de poder? - perguntou o advogado, mais escravo de sua exaltação, do que senhor do seu afeto, na realidade difícil de dominar, porque era aquela vez a primeira que rebentava, tinha pujança, a impetuosidade das correntes nativas, que se atiram às pedras, se despedaçam contra elas, mas transpondo-as em fios cristalinos, adiante coligem os seus cristais espalhados e prosseguem a sua vertiginosa carreira.

— Não posso, respondeu Maurícia. Se eu desse esse semelhante passo o mundo cobrir-me-ia de baldões, e o futuro de minha filha correria iminente perigo.

Ângelo sobresteve, sentindo a força destas palavras. mas o seu repentino amor não lhe consentiu larga reflexão. Ele tornou logo:

(continua...)

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