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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

A estação veio em seu auxilio na construção da grande obra moral que tinha em mãos. Chegou dezembro. O tempo estava enxuto, não obstante se mostrarem os campos borrifados das chuvas-do-cajú, nome que vem a tais chuvas de serem elas muito favoráveis a esta fruta. As laranjeiras novas, que Francisco plantara de um e de outro lado da casa, curvavam-se debaixo do peso das primícias do estio. Ao longe, para os fins do sitio, viam-se os abacaxis ostentando garbosos, dentre suas touças louçãs, o distintivo que na ordem vegetal a todos lembrava a insígnia civil da realeza.

Era a melhor estação do norte. Pobres, remediados e ricos apercebiam-se, sem excepção, cada qual conforme suas forças o ajudavam, para a festa do natal, época de folganças e divertimentos no campo, á sombra das arvores e dos rústicos alpendres.

Em toda a vasta zona açucareira da província os engenhos começavam a tirar sua safra; o que ficava do outro lado da mata, que sabemos – o engenho Bujari – tinha de botar dentro de uma semana.

O dia da botada não tem igual, pelo reboliço que o caracteriza, na grande propriedade.

Ajuntam-se parentes, amigos e conhecidos para acompanharem o proprietário na sua alegria, e participarem das suas larguezas.

Francisco, a cujos bons sentimentos e qualidades devia o lugar que tinha diante do senhor de engenho, achouse presente com Lourenço á festa rural, que oferecia ao menino novo e indizível encanto.

Não obstante ser quase nômada na povoação, nunca dai saiu este para assistir a festas semelhantes nos engenhos da freguesia pela distancia em que ficavam do lugar. De sorte que, penetrando agora com Francisco no engenho Bujari, experimentou desconhecido prazer.

Um padre veio de propósito para dizer missa na capela e benzer a nova moenda, que se achava adornada com ramos verdes, lembrança e fineza dos negros. Depois da benção, entregou ele ao senhor do engenho a primeira cana, que devia ser moída aquele ano. O sargento-mór meteu-a entre os eixos da moenda, os negros açoitaram as bestas, levantaram urras e vivas, vários moradores e convidados dispararam armas de fogo em sinal de regozijo, enfim encetouse a moagem.

Lourenço ficou ao principio admirado, perplexo perante aqueles acontecimentos inteiramente novos para ele; dai a pouco, porém, já lhe faltou o tempo para beber do caldo de cana ainda quente, e mais tarde comer do mel-deengenho saindo da tacha, subir á almanjarra e açoitar os animais de companhia com os molecotes mais espertos.

Moços e moças formosas e elegantes, que tinham ido de Goiana á festa, faziam agradáveis digressões pelos campos e outeiros próximos da propriedade. Alguns jovens pescavam no açude, enquanto outros se metiam pelos matos a colher cajus e a passarinhar.

Lourenço ouviu de noite, de sobre as palhas da cana onde se deitara ao luar, defronte da casa-da-moenda, melancólicas e saudosas harmonias, que lançavam ecos suavíssimos em sua alma.

Eram as toadas com que os negros respondiam da porta da senzala, de cima da bagaceira, da almanjarra, do pátio da casa-de-purgar, aos regozijos da casa-de-vivenda, onde os toques ressoavam desacompanhados das altercações, a que dá lugar o demônio do jogo, então bem menos conhecido do que hoje do fazendeiro nortista.

Parece que se prepara grande guerra à cana-de-açúcar no norte. Para levar a efeito este pensamento – o da destruição da planta abençoada, servem-se do de cultivar com largueza o café no interior das províncias onde até o presente se cultivou largamente a cana.

Não me leves a mal uma declaração que farei aqui, tocante à projetada revolução agrícola.

Entristeço-me, meu amigo, a qualquer indicio de que á cultura da cana se trata de substituir cultura de planta diferente, seja muito embora esta da estatura e importância do café, ao qual desde pequeno me acostumei a votar grandes afeições. A razão é porque a cana-de-açúcar me inspira intima e saudável paixão, que não sei explicar, mas que tem em mim a extensão e a amplitude de uma elevada e pura estima. A meus olhos, ela não é uma planta, é um ente magico e pitoresco. Vejo nela poesia e grandeza que irresistivelmente me levam a tributar-lhe culto do coração.

Causam-me profundas alegrias seus bastos ajuntamentos, seus partidos virentes, acamados, com suas folhas, ora encurvadas, ora destendidas ao sopro dos ventos irados ou brincões. Essas folhas são como harpas gigantes, melancólicas, ternissimas, que as virações fazem vibrar docemente e que despedem harmonias eólias.

A vista da moagem produz em mim gratas alterações, e traz-me saudades da infância, recordações veneráveis dos tempos felizes em que, levando a vida entre a vila e os engenhos, entre a casa paterna e os painéis que a natureza expõe gratuitamente aos que para ela têm os seus principais afetos e a sua primeira admiração, meu espirito adejava, como os sanhaçus e os bentevis, por sobre as folhagens, mergulhado alternativamente já em luzes, já em sombras, mas sempre enleado e passado de inocente contentamento.

(continua...)

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