Por Bernardo Guimarães (1872)
— Assim deve ser mesmo, retorquiu Margarida com um sorriso cheio de encanto, mas um tanto malicioso; — minha madrinha tem razão; também ele já está ficando um homem sério, e eu daqui em diante não o devo tratar senão por — senhor Eugênio, não é assim, mamãe?
— Sem dúvida, minha filha. Agora vou caindo em mim, e vejo que todos têm razão. Nem todo o tempo é um. Algum dia ainda pode acontecer, que te ajoelhes aos pés ali do senhor Eugênio no confessionário, e é bom desde já ir-te acostumando a tratá-lo com o respeito que lhe é devido.
Margarida e Eugênio olharam um para o outro. Lembraram-se do juramento mútuo, que se haviam feito havia quatro anos a respeito de confissão, no vargedo junto às paineiras da ponte, e uma abaixou os olhos e corou; o outro que já estava rubro a não poder mais, empalideceu.
Com aqueles gracejos, Eugênio tornava-se cada vez mais tolhido e desconcertado, coçava a cabeça, mordia os beiços, e estava quase a chorar de desapontamento. O título de padre, que até então lhe parecia tão bonito, naquela ocasião não sei por que lhe causava arrepios e lhe parecia horrivelmente áspero e desentoado.
Margarida principalmente, que havia herdado um pouco do espírito cáustico e zombeteiro de sua mãe, trazendo à conversa também a sua pilhéria, tinha acabado de desconcertar e desorientar completamente o pobre rapaz. Vendo, porém, quanto o afligia e incomodava aquela conversação arrependeu-se no íntimo da alma, e como corrida de seu próprio procedimento procurou repará-lo do melhor modo que pôde.
— Queira perdoar-me, se o agravei, senhor Eugênio — disse-lhe com meiguice — Nós estamos brincando, e não temos a menor intenção de incomodá-lo. Eu não me lembrava que não estamos mais naquele nosso bom tempo em que eu lhe dizia quanta asneira me vinha à boca, sem que o senhor desse o cavaco...
— Eu dar o cavaco?! está enganada!... disse o rapaz levantando-se e forcejando por mostrar-se lesto e desembaraçado. — Podem caçoar, quanto quiserem, que eu nem dou fé.
Entretanto não teve remédio senão ir colocar-se a uma janela a fim de ocultar a perturbação e desapontamento, que lhe transtornava a fisionomia.
— Aqui ninguém é capaz de caçoar com Vm., senhor Eugênio, acudiu Umbelina; — Deus nos livre de tal! Estamos gracejando; a gente também não há de estar sempre séria como uma abadessa: de vez em quando é preciso rir um bocado.
— Diz muito bem, comadre — atalhou a senhora Antunes; a gente deve divertir-se. Isso do Eugênio, é acanhamento que trouxe do seminário; logo há de se ir desembaraçando... arre!... como faz calor! vamos nós passear à horta, heim, comadre?
— Pronta!... vamos: vamos todos.
CAPÍTULO IX
A educação claustral é triste em si e em suas conseqüências: o regime monacal, que se observa nos seminários, é mais próprio para formar ursos do que homens sociais. Dir-se-ia que o devotismo austero, a que vivem sujeitos os educandos, abafa e comprime com suas asas lôbregas e geladas naquelas almas tenras todas as manifestações espontâneas do espírito, todos os vôos da imaginação, todas as expansões afetuosas do coração.
O rapaz que sai de um seminário depois de ter estado ali alguns anos, faz na sociedade a figura de um idiota. Desazado, tolhido e desconfiado, por mais inteligente e instruído que seja, não sabe dizer duas palavras com acerto e discrição, e muito menos com graça e afabilidade. E se acaso o moço é tímido e acanhado por natureza, acontece muitas vezes ficar perdido para sempre.
Eis a razão por que Eugênio, que todos desejavam e esperavam ver brilhar na conversação como um pequeno sábio, representou o papel tristíssimo que vimos, diante de pessoas que desde a infância lhe eram familiares. Não era por certo, que ele não sentisse no cérebro um turbilhão de idéias, e mil sentimentos estuarem-lhe no coração; mas é que o espírito está sujeito As mesmas leis do corpo a certos respeitos. Como aquele, que esteve longos anos encarcerado, ao sair da prisão não pode mover mais os membros entorpecidos, assim o espírito recluso largo tempo entre as paredes de um claustro, atado continuamente ao poste do estudo forçado e da oração, sente-se paralisado, quando lhe é mister desenvolver-se em uma esfera mais ampla e mais livre.
Verdade é que a situação de Eugênio era naquela ocasião sobremaneira melindrosa. Seu coração passava por uma crise violenta e profunda, como o leitor pode imaginar. Se a imagem da simples e travessa menina de doze anos não se tinha apagado do espírito durante uma ausência de quatro anos, a presença real dela agora transformada em mulher, antes em anjo radiante de mocidade e formosura, o havia deslumbrado e subjugado completamente, ameaçando deitar por terra toda a sua vocação clerical, e anular de todo o resultado dos esforços empregados pelos padres durante quatro anos de noviciado.
O mancebo já se envergonhava de querer ser padre, e todas as vezes que olhava para Margarida, não podia conformar-se com semelhante idéia.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.