Por Bernardo Guimarães (1872)
– Oh! perdão, d. Paulina; a senhora me faz grande injustiça: não sou ingrato a tal ponto, que as saudades dos meus e da minha terra me risquem da memória pessoas, a quem devo tantas finezas, e as quais sempre trarei gravadas no coração. Lembro-me na verdade sempre e com muita saudade de minha bela Franca; tenho lá minha mãe, parentes, amigos, e...
Eduardo interrompeu-se e suspirou.
– E mais alguma coisa, não é assim? atalhou Paulina esforçando-se por sorrir, porém com o coração num susto, numa ansiedade como quem espera a sentença, que vai decidir de todo o seu futuro.
– Sim, senhora; e mais alguém, – respondeu Eduardo com acento melancólico, – para que hei de eu negá-lo, e sempre que olho para a senhora, me lembro de uma moça que lá conheço.
– Então parece-se comigo?
– Alguma coisa... ao menos na formosura. Linda como ela, só a senhora e mais ninguém.
– Que lisonja! murmurou Paulina, que cada vez se tornava mais pálida e estava branca como papel.
– Lisonja não, senhora. Eu pensava, que não seria possível encontrar no mundo criatura tão bela como Lucinda; depois que vi a senhora, desenganei-me, e falo sinceramente e com o coração nas mãos, se não quisesse tanto bem a Lucinda, teria impreterivelmente de amar a senhora...
– Quem sabe!... disse automaticamente Paulina, desconcertada, trêmula e sem já saber o que dizia. – Então o senhor quer muito bem a essa moça?
– Muito! muito! – disse Eduardo com exaltação e sem reparar na crescente perturbação de Paulina. Amo-a sincera e ardentemente, e nunca, nunca hei de deixar de amá-la.
– Feliz mulher!... mas dizem que os moços todos são tão inconstantes...
– Pode ser... mas eu... eu nunca serei infiel... porém d.Paulina!... que tem?.. está tão pálida e trêmula! Meu Deus! está sofrendo alguma coisa?...
– Não é nada; replicou Paulina esforçando-se por mostrar-se tranqüila; – quando o sol entra, este sereno da tarde sempre me faz calafrios. É bom que me recolha. Boa-noite, sr. Eduardo.
Roberto, que com suas algazarras e proezas com os bois nada tinha conseguido no intuito de perturbar o colóquio de Eduardo e Paulina largara o laço, e saindo sem ser notado para fora do curral, e cozendo-se com a cerca do mesmo viera sutilmente postar-se junto deles, de modo que sem ser visto podia otimamente espreitá-los e escutá-los. Chegou justamente a tempo de ouvir clara e distintamente aquelas palavras de Eduardo – Amo-a muito; amo-a sincera e ardentemente, e nunca, nunca hei de deixar de amála. – Supõe para logo que eram dirigidas a sua prima, e não quis ouvir mais. Desta vez não pôde conter-se, rangeu os dentes enfurecido, e sem atender a consideração alguma puxou pela faca, que sempre trazia à cinta, e ágil como um gato saltou de um pulo para dentro do curral.
Exatamente no instante, em que Roberto de faca em punho saltava a cerca e avançava furibundo para os dois, um troço de gado, que os campeiros estouvadamente escaramuçavam pelo curral, entrava atropeladamente por baixo da gameleira e ameaçava envolver em seu turbilhão a pobre Paulina no momento em que tendo-se despedido de Eduardo se ia retirando. Roberto vendo o iminente perigo que corria sua prima, esqueceu-se de sua cólera, e em vez de avançar para Eduardo, correu a acudi-la. Assim por um estranho capricho do acaso, que também parecia zombar do infeliz rapaz, achou este mudado o seu papel no momento em que entrava em cena, e forçoso lhe foi aceitar a mudança. Em dois saltos colocou-se junto a Paulina, e protegendo-a com o corpo, e a pontapés esparrodava para um lado e para outro o gado, que corria de tropel para o lado dela. Eduardo também, apesar de sua fraqueza, lançando mão de um ferro, que arrancou do carro, saltara para junto de Paulina. Afugentado que foi o gado, e passado aquele incidente, Roberto achou-se em presença de sua prima e de Eduardo na mais estranha e esquerda situação, que imaginar-se pode. Estes de sua parte nem por sombra podiam desconfiar qual tinha sido a sua primeira e sinistra intenção, pois que na triste disposição de espírito em que se achavam, nem tinham visto donde ele surgira, e estavam na persuasão que ele ali se apresentara no único intuito de acudir a Paulina. Esta com voz trêmula e com um sorriso forçado, lhe rendia os devidos agradecimentos.
– Deus lhe pague, meu primo; o senhor é um valente; se não fosse o senhor, esses malditos bois me teriam esmagado... ah! meu Deus! – acrescentou lançando a Eduardo um rápido olhar – que dia aziago este de hoje!
Roberto desconcertado, com os olhos baixos e como que corrido nada respondia a sua prima, e não sabia o que devia dizer, nem fazer. O infeliz até mesmo em seus furores sofria os mais estranhos e cruéis desencantamentos.
– Que é lá isso, senhores? – gritou da varanda o pai de Paulina, que observara aquele alvoroto. – Menina, o que andas fazendo no meio desse curral cheio de gado bravo e espantadiço? Sr. Eduardo, recolha-se também; olhe que este sereno não lhe pode fazer bem.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.