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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Mas pouco importa isso. Hoje em dia já estamos acostumados com essas extravagâncias que das obras de pedra e cal passaram a fazer-se sentir em obras de um outro gênero. É raro o ano em que não vemos determinarem-se discordâncias tão notáveis como aquela. Não há lei de orçamento de receita e despesa do Império que não arraste uma cauda de aditivos que se harmonizam tanto com ela como o antigo convento do Carmo com o resto do palácio.

Ao menos, porém, em 1808, uma necessidade indeclinável impôs a anexação que deu lugar àquela desarmonia arquitetônica, e atualmente nada pode desculpar a abusiva repetição dessas discordâncias administrativas.

Ora, eis aí. Insensível e involuntariamente começo a divagar outra vez! Bom foi que a tempo o conhecesse para não me adiantar muito.

Aqui vai em poucas palavras o que era o antigo convento do Carmo. Creio que não haverá quem possa notar nele mudanças sensíveis operadas nestes cinqüenta e dois anos já passados: conservou-se quase absolutamente o mesmo, o que entre nós não admira em uma casa, mas admiraria muito em um homem, porque os homens...

Pior! O antigo convento do Carmo nada tem de comum com os homens políticos.

O edifício que asilava os carmelitas começa na extrema da rua da Misericórdia, um pouco adiante da esquina da rua da Assembléia, dantes chamada da Cadeia, estende-se por toda a largura do largo do Paço até à entrada da rua Direita, onde termina com a igreja que, acompanhando o destino do convento, passou a ser capela real, como é ainda hoje capela imperial.

Pela frente da praça apresenta o edifício, além do pavimento inferior, dois andares que tinham janelas com balcões de ferro e rótulas de madeira, e que eram duas ordens de dormitórios.

Vinha logo em seguida a igreja de Nossa Senhora do Carmo, que é a capela imperial. Em primeiro lugar, levanta-se a torre, cuja entrada, que era a portaria do convento, é precedida por um alpendre sustentado por colunas de pedra. A torre é quadrangular e terminada superiormente por uma abóbada pontiaguda, em cujo cimo se observa um globo que serve de apoio ao símbolo da redenção. Um galo metálico, que é atravessado pelo pé da cruz, gira horizontalmente, obedecendo à ação dos ventos, e indica a direção destes.

Segue-se à torre uma capelinha consagrada ao Senhor dos Passos.

Três portas dão entrada para o templo. Sobre o pavimento dessa levanta-se um outro com pilastras, entre as quais abrem-se três janelas de peitoril. Acima deste pavimento ainda um terceiro, sobre o qual está montada a empena que remata em seu ápice pela cruz, e lateralmente por vasos de pedra que coroam as pilastras extremas. Entre as pilastras que sustentam a empena estavam as armas reais, como hoje estão as imperiais.

Antes de penetrar no interior da capela imperial, devo fazer duas observações: A primeira refere-se a uma alteração por que passou o antigo convento há cinco anos. A segunda não passará de uma pergunta filha da minha ignorância, e de uma idéia inocente que despertou em meu espírito o galo metálico da capela.

Há cinco anos reinava epidemicamente na capital do império a febre das empresas. O pensamento era bom, o desejo do progresso material justificadíssimo; o excesso, porém, a que se chegou fez da saúde moléstia. Tratou-se também com ardor nessa época de abrir até ao largo do Paço a rua do Cano, que devia ser toda de novo disposta, ladeada de casas magníficas, alinhada, embelecida e transformada na mais elegante das ruas da cidade.

Sorria tanto a idéia deste melhoramento, foi ele reputado tão facilmente realizável, que se atacou logo a única barreira que separava o largo do Paço da rua do Cano, isto é, a extrema esquerda do antigo convento do Carmo. S. M. o Imperador, desejando facilitar a realização da empresa, mandou prontamente romper o edifício naquele ponto. Abriu-se, pois, a comunicação entre a rua e a praça, e passado algum tempo uniu-se ainda o palácio com a capela imperial por meio de um passadiço de madeira que tem tanto de simples como de pouco elegante.

E a empresa não foi adiante, pelo menos até agora: tropeçou no vácuo e ficou derreada. Não se incomodem com a frase tropeçou no vácuo. A falta de dinheiro é um vácuo, e é na falta de dinheiro que os empreendedores tropeçam mais desastradamente.

A rua que devia se chamar Sete de Setembro continua como dantes a ser do Cano, e enquanto se conservar feia e torta como é, convém que não lhe mudem o nome; porque Sete de Setembro quer dizer Independência do Brasil, e a nossa independência é muito bonita, e nós a queremos direita e bem direita.

Segunda observação.

O galo metálico que gira horizontalmente sobre a torre da capela imperial, obedecendo à ação do vento que sopra, não pode deixar de exprimir algum pensamento filosófico, alguma lição moral.

(continua...)

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