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#Crônicas#Literatura Brasileira

Alfarrábios: o Ermitão da Glória

Por José de Alencar (1853)

— De todos, começando por aquelle que tem sido vosso protector, e que tanto, si não mais do que vossos pais, tinha o direito de escolher-vos um esposo.

— Pois que foi escolhido por vós, senhor Ayres, aceito.

— O que eu ardentemente desejo, Maria da Gloria, é que elle vos faça feliz.

Um triste sorriso desfolhou-se pelos labios da menina.

Ayres retirou-se arrebatado, porque sentiu romper-lhe do seio o soluço, por tanto tempo recalcado.

XVI

A BODA

Eram cerca de 4 horas de uma formosa tarde de Maio.

Abriam-se de par em par as portas da matriz, no alto do Castello, o que annunciava a celebração de um acto religioso.

Já havia no adro de S. Sebastião numeroso concurso de povo, que ali viera trazido pela curiosidade de assistir á ceremonia.

A' parte, em um dos cantos da igreja, recostado ao angulo via-se um velho marujo que não era outro.sinão o Bruno.

O contramestre não estava n'esse dia de boa sombra; tinha um semblante carrancudo, e ás vezes fechando a mão callejada ferrava um murro em cheio na carapuça.

Quando seus olhos, espraiando-se pelo mar, encontravam a escuna, que de ancora a pique balouçava-se sobre as ondas, prestes a fazer-se de vela, o velho marujo soltava um suspiro ruidoso.

Depois voltava-se para a ladeira da Misericordia, como si contasse ver chegar d'esse lado alguma pessoa, por quem estivesse esperando.

Não se passou muito, que não apontasse no alto da subida um prestito numeroso, o qual seguiu direito á portaria da matriz.

Vinha no centro Maria da Gloria, vestida de noiva, e cercada por um bando de virgens, todas de palma e capella, que iam levar ao altar a sua companheira.

Seguiam-se Ursula, as madrinhas, e outras damas convidadas para a boda, a qual era sem duvida das de maior estrondo que se tinham celebrado até então na cidade de S. Sebastião.

Ayres de Lucena assim o determinára, e de seu bolso concorreu com o cabedal necessario para a maior pompa da ceremonia.

Logo apoz as damas, caminhava o noivo, Antonio de Caminha, entre os dois padrinhos, e no meio de grande cortejo de convidados, dirigido por Duarte de Moraes e Ayres de Lucena.

Ao entrar a portada da igreja, Ayres destacou-se um momento para falar a Bruno, que avistando-o, viera a elle :

— Aprestou-se tudo?

— Tudo, meu capitão.

— Ainda bem; d'aqui a uma hora, partiremos, e para não mais voltar, Bruno.

Ditas estas palavras, Ayres entrou na igreja. O velho marujo que adivinhára quanto soffria n'a quelle momento o seu capitão, ferrou outro murro na carapuça, e tragou o soluço que lhe estava

estortegando na garganta.

Dentro da matriz já os noivos tinham sido conduzidos ao altar, onde os esperava o vigario paramentado para celebrar o casamento, cuja ceremonia logo começou.

O corsario, de joelhos em um dos angulos mais obscuros do corpo da igreja, assistia de longe ao acto; mas de momento a momento acurvava a

fronte sobre as mãos enclavinhadas, como absorvido em fervente oração.

Não rezava, não; bem o quizera; mas um tropel de pensamentos se agitava em seu espirito abatido, que o arrastava ao passado, e o fazia reviver os annos devolvidos.

Repassava na mente seu viver de outrora, e acreditava que Deus lhe enviára do céo um anjo da guarda para o salvar. No caminho da perdição, elle o encontrára sob a fórma de uma gentil criança; e desde esse dia sentira despertarem em sua alma os estímulos generosos, que o vicio n'ella havia sopitado.

Mas porque,tendo-íhe enviado essa celeste mensageira, lh'a negára Deus quando a quiz fazer a companheira de sua vida, é unir ao d'elle d seu destino?

Ahi lembrou-se que já uma vez Deus a quizera chamar ao céo, e só pela poderosa intercessão de Nossa Senhora da Gloria a deixara viver, mas para outro.

— Antes não houvesseis attendido ao meu rogo, Virgem Santíssima! balbuciou Ayres.

N'esse instante Maria da Gloria, de joelhos aos pés do sacerdote, voltou o rosto com subito movimento e fitou no cavalheiro estranho olhar, que a todos surprehendeu.

Era o momento em que o padre dirigia a interrogação do ritual, e Ayres, prestes a ouvir o sim fatal, balbuciava ainda:

— Morta, ao menos ella não pertenceria a outro.

Um grito repercutiu pelo ambito da igreja. A noiva cahíra desmaiada aos pés do altar e parecia adormecida.

Prestaram-lhe todos os soccorros; mas embalde. Maria da Gloria rendêra ao Creador sua alma pura, e subíra ao céo sem trocar a sua palma de virgem pela grinalda de noiva.

O que tinha cortado o estame da suave bonina? Fôra o amor infeliz que ella occultava no seio, ou a Virgem Santissima a rogo de Ayres?

(continua...)

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