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#Comédias#Literatura Brasileira

As Casadas Solteiras

Por Martins Pena (1845)

Jeremias — Seu pai encarregou ao seu procurador estes papéis. (Mostra-lhe uns papéis.) É o auto de anulação do vosso casamento com os meus amigos ínglis. O procurador, porém, que é um procurador muito procurado e tem muito que fazer, encarregou-me de dar andamento aos papéis. Não sei se já tive a distinta de lhes participar que dpois que não soube dirigir o que era meu, trato de negócios dos outros...

Clarice — Já sabemos, que no-lo disse Henriqueta.

Jeremias — Muito bem. Recebi os papéis, e lançnado os olhos sobre eles, li os vossos nomes, o dos nossos caríssimos amigos e a causa de toda a barulhada, e disse cá com os meus botões: isto pode ser maroteira do velho Narciso das Neves, e ainda vejo aqui a assinatura de suas filhas, não façamos nada sem consultá-las...

Pus-me a caminho e eis-me aqui.

Virgínia — Muito lhe agradecemos.

Jeremias — Não há de quê.

Henriqueta — És um excelente rapaz.

Jeremias — Obrigado. Mas então, que querem que eu faça? Dá-se andamento aos papéis, ou não?

Clarice — Responde tu Virgínia.

Virgínia — E por que não respondes tu?

Henriqueta — Ah, já sei! Nenhuma quer responder, para ao depois não ter do que se arrepender. Pois decidirei eu.

Jeremias — Ainda bem. Sempre te conheci com resolução.

Henriqueta — Não dê andamento a esses papéis.

Clarice — E por que?

Henriqueta — Porque bem depressa se arrependerão. Falemos claramente; vocês ainda conservam esperanças...

Virgínia — E quem te disse?

Henriqueta — Isso não é preciso que se diga; adivinha-se.

Clarice — Pois bem, sejamos sinceras. Sr. Jeremias, nós ainda amamos os nossos ingratos, e nem poderemos esquecer-nos que por eles fugimos desta casa, e que para eles vivemos dois meses... Nós, mulheres, não somos como os senhores; o nosso amor é mais constante e resiste mais tempo.

Henriqueta — Estás ouvindo?

Clarice — Mas em compensação, somos vingativas. Os nossos caros ex-maridos hão de primeiro pagar com usura o que sofremos, se quiserem ser perdoados. Hão de se curvar como nós nos curvamos, e obedecerem à nossa voz com humildade...

Assim, talvez, nos dignemos perdoá-los.

Jeremias — Bravíssimo! Vou fazer com estes papéis o que fazem todos os procuradores, meus colegas - dormir no caso...

CENA VII

Entra Bolingbrok com dois grandes samburás pendurados nos braços, cheios de hortaliças e frutas. Segue-o John com uma empada em uma mão e um pão-de-ló na outra.

Bolingbrok (entrando) — Está alface e repolha, Miss.

Clarice — Oh, muito bem.

John — E a empada e pão-de-ló.

Virgínia — Andaram diligentes.

Bolingbrok — Para ser agradável a vós.

Henriqueta — Dá cá a empada.

Jeremias (ao mesmo tempo) — Dá cá um samburá.

Bolingbrok — Jeremias está aqui!

Jeremias — Yes, my dear, dá samburá a mim. Oh, homem, compraste o mercado inteiro? (Depositam tudo sobre a mesa.)

Bolingbrok — Para faze salada. (Indo para Clarice:) Miss está contente?

Clarice (reprimindo o riso) — Muito.

Bolingbrok — Mim então está muito satisfeita.

Virgínia — Tratemos do mais.

John — Querem ainda outra empada?

Bolingbrok — Mais repolha e nabas?

Virgínia — Não, mas enquanto vamos lá dentro ver em que estado está o jantar, aqui está a mesa, e naquele guarda-pratos tudo o que é necessário para ela.

Clarice — E os senhores terão a bondade de arranjarem isto.

Bolingbrok — Eu bota mesa? Oh!

John — Querem que preparemos a mesa?

Bolingbrok (à parte) — Oh, este é muito! (Alto:) Mim não sabe faz doméstico; não quer.

Clarice — Ah, não quer? Está bem. (Mostrando-se zangada.)

John — Pelo contrário, aceitamos o encargo com muito prazer. (Para Bolingbrok:) Cala-te, que botas tudo a perder. (Alto:) Não é verdade Bolingbrok, que temos nisso muito prazer?

Bolingbrok — Oh, yes. (À parte:) Goddam! (Esforçando-se para rir:) Está contente bota mesa para nós janta; muito bom, está satisfeita, muito... (À parte, raivoso:) Goddam!

Clarice (com ternura) — E eu te agradeço.

Bolingbrok — Te agradeçe? Oh, oh! (Muito alegre.) Virgínia — Mãos à obra! Tirem a toalha e pratos.

Jeremias — Melhor será que os senhores tirem primeiro as casacas; assim não podem servir bem.

Virgínia, Clarice e Henriqueta — É verdade!

Bolingbrok — Mim não tira casaca!

Clarice — Também não pedimos nada coisa alguma que os senhores façam de boa vontade! É sempre de mau modo.

Bolingbrok — Eu tira. John, tira casaca. (Despem ambos as casacas. As três riemse às escondidas.)

Jeremias — Agora sim, parecem-se mesmo uns criados ingleses.

(continua...)

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