Por José de Alencar (1864)
Tu adivinhas, Paulo, o sentimento e a intenção com que escrevera eu essa conta: seu nome, sua pessoa, sua vida, posso dizê-lo, sua vida de moça bela, rica e adorada, ali estava cotada no mesquinho algarismo! Eu lhe dava plena quitação do seu reconhecimento! Ela esteve muito tempo a ler; depois as róseas pálpebras, franjadas de longos cílios, desvendaram os olhos, que ela pôs em mim, úmidos da tênue marugem de uma lágrima estalada.
—Sou eu quem devo pagar-lhe! disse-me, vibrando a voz.
E ao mesmo tempo o papel voou em pedaços sobre a mesa.
—Mila!... murmurou D. Leocádia.
Emília atravessou o salão e desapareceu.
—Ela tem razão! disse o pai erguendo-se. Entre nós, doutor, não há necessidade de contas, nem de recibos. Vou dar-lhe...
—O que, Sr. Duarte? —O menos que é possível... as seis cifras.
—É escusado! Já disse... falemos de outra cousa.
Esta cena, que eu acabava de representar, me fatigara horrivelmente. Mudei de conversa. Veio o chá, e Mila não voltou à sala.
Retirei-me triste.
No dia seguinte mandei um procurador receber do Sr. Duarte com uma ordem minha os cem mil-réis. Esse sujeito ia prevenido; disse ao negociante que para evitar demoras adiantara aquele dinheiro no recolhimento, de modo que tratava-se de um reembolso. O pai de Emília foi obrigado a ceder.
Tive nesse dia alegrias pueris. Como uma criança... E eu o era então; homem para a razão sim, mas criança ainda para a paixão que não me tinha encanecido a alma!... Ria-me só, enchia a imaginação das idéias mais extravagantes... Não te revoltes, Paulo! Já te confessei: essa mulher, que devia envelhecer-me o coração, começava fazendo-me menino.
Desde então percebi em mim um desejo novo, um desejo vivo e ardente de ver Emília. Não podia voltar à casa de seu pai, que eu visitava de longe em longe, sem mostrar afã que não devia. Esperava encontrá-la em Matacavalos; mas nessa quinta-feira deixou de ir à partida de D. Matilde.
A menina entrara para o recolhimento; eu cumprira a promessa feita a Geraldo como se nada houvera passado; disse-me ele que a irmã não lhe fizera a menor observação; mas ela soube pela velha que eu tinha acrescentado, sempre em seu nome, o dote da sua protegida.
Fazia justamente uma semana que eu tinha ido ao Rio Comprido; muito cedo ainda, às sete horas da manhã, recebi um bilhete de D. Leocádia.
Dizia-me ela:
"Nós o esperamos hoje para jantar. Não lhe digo o motivo deste convite de propósito, para que a curiosidade de saber o obrigue a vir sem falta e mais cedo." A letra era de Emília.
Eu tremi! É verdade, Paulo! Não conhecia ainda o caráter dessa menina; mas sabia já que ousadias tinha seu orgulho de mulher formosa, habituada a ver o mundo aplaudir-lhe todos os caprichos.
Que nova humilhação me reservava ela!
IX
ADMIREI-ME, chegando, da ausência de convidados, e especialmente da família de D. Matilde. —Parece que não esperam ninguém mais, respondeu-me o criado. O senhor mesmo janta na cidade.
Entretanto a casa, cujos reparos haviam completamente terminado, estava preparada como para grande recepção: notava-se em toda ela o ar de festa que expande a fisionomia dos edifícios como a das pessoas, porque os edifícios inspiram a alma daqueles que os habitam. D. Leocádia veio receber-me.
—Já sei que está muito curioso de saber o motivo deste jantar? —Creio que, apesar de não ser dos mais atilados, já o adivinhei! —Deveras! Vamos a ver! —É mais uma prova da sua bondade para comigo, e de seus repetidos obséquios...
—Pois não acertou! Pretendíamos logo que se acabassem as obras da casa, reunir aqui todas as pessoas da nossa amizade; porém mano José não entende destas cousas, Geraldo é uma criança... E nós queríamos saber a opinião de uma pessoa de gosto... Talvez note alguma cousa que não pareça bem! Era um pretexto. D. Leocádia repetia a lição que recebera da sobrinha. O império dessa menina era tal, que não impunha unicamente obediência às pessoas que a cercavam; obrigava-as a se identificarem com a sua vontade, anulando-se.
Emília apareceu. Na simplicidade extrema de seu trajo ela parecia apenas vestida, tal era o realce de sua beleza nativa, e a sobriedade dos enfeites; entretanto nunca roupas de virgem foram assim avaras de encantos. A beleza não se mostrava, transparecia.
Ela vinha, como sempre, coroada pela régia altivez, que era o gesto de sua formosura; porém nesse dia perpassava-lhe na fronte de ordinário tão límpida uma tênue sombra, de uma mágoa talvez.
Cortejou-me , não fria, mas séria; foi até a janela, e veio depois sentar-se ao piano. Enquanto eu continuava a conversar com D. Leocádia, suas mãos corriam lentamente pelo teclado, que exalava uns arpejos frouxos e dolentes.
D. Leocádia saíra um instante.
O piano calou-se enfim. Eu vi Emília de pé no meio da sala, hesitando no passo que a devia aproximar de mim:
—Perdoe-me! disse-me ela.
E a voz com que o disse tinha modulações sublimes.
(continua...)
ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.