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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

O contraste sobretudo era terrível. Se Amélia fosse feia, o senão do pé não passara de um defeito; não quebraria a harmonia do todo. Mas Amélia era linda, e não somente linda; tinha a beleza regular, suave e pura que se pode chamar a melodia da forma. A desproporção grosseira de um membro tornava-se pois, nessa estátua perfeita, uma verdadeira monstruosidade. Era um berro no meio de uma sinfonia; era um disparate da natureza, uma superfetação do horrível no belo. Fazia lembrar os ídolos e fetiches do Oriente, onde a imaginação doentia do povo reúne em uma só imagem o símbolo dos maiores contrastes.

Nessa angústia passou Leopoldo o resto daquele dia e os que se lhe seguiram.

— Não amo a sua beleza material, oh, não! pensava o mancebo. O que eu adoro nela é a beleza moral, a alma nobre e pura, a criatura celeste, a luz, o anjo. Qualquer que fosse o invólucro de seu espírito imaculado, creio que havia de adorála tanto, como a adorei desde o momento em que primeiro a vi.

"Fosse ela feia para os outros, que chamam formosura o que lhes encanta os sentidos, para mim seria sempre bela, porque meus olhos haviam de vê-la através de seu esplêndido sorriso. O que é o corpo humano no fim de contas? O que é o contorno suave de um talhe elegante, e a cútis acetinada de um rosto ou de um colo mimoso? Um pouco de matéria a que a luz transmite a cor, o espírito e a vida. Tirem-lhe esses dois alentos, e verão que lodo impuro e nauseante ficam sendo aquelas formas sedutoras."

"Pois luz e espírito não eram a essência da alma de Amélia? Quando essa alma a vestia com uma túnica resplandecente, que mulher se lhe podia comparar em lindeza? Então não era somente formosa, flutuava em um éter de beleza deslumbrante."

"Mas ela não é feia, é aleijada!..."

Um soluço afogou as tristes lucubrações do mancebo. Ele repassou outra vez na mente as circunstâncias de sua triste descoberta; quis duvidar, combateu pertinazmente sua própria razão que lhe apresentava a realidade, e afinal sucumbiu, curvando-se à implacável certeza. Tinha visto uma vez, e como essa não bastasse, o acaso lhe oferecera ocasião de apalpar a verdade e saciar-se dela.

— Não se admira a Vênus de Milo, uma estátua mutilada? dizia o mancebo relutando contra sua viva repugnância. Não se admira o primor da arte grega, apesar de não restar dela mais do que uma cabeça e um torso de mulher? Essa beleza truncada não vale a beleza aleijada? A mutilação não repugna tanto ou mais do que a deformidade?

A razão de Leopoldo não o deixava embalar-se muito tempo nesse pensamento consolador Replicava logo, refutando vigorosamente as argúcias do coração:

— A estátua mutilada, que excita a admiração do mundo, não é a cópia integral da beleza que lhe servia de tipo, mas um fragmento apenas dessa cópia. A alma, que se extasia na contemplação desse fragmento, recompõe o ideal do artista. Admira-se a Vênus de Milo, como se admira um esboço não acabado de Rafael; como se admira a pétala de uma rosa, arrancada da corola. Mas, fosse embora aquele primor de estatuária a reprodução exata de uma mulher, a mutilação respeita a beleza; o aleijão a deturpa. Se a mulher que se ama perdesse um pé, seria desgraçada; com um pé monstruoso, é mais do que desgraçada, é repulsiva.

Leopoldo deixava-se convencer por estas sugestões:

— Infelizmente assim é. Mas por que há de ser assim? A mutilação é um fato humano; o aleijão é um fato natural. Essa aberração do princípio criador, esse desvio da forma primitiva, indicam sem dúvida um vício na essência do organismo. Não se tem verificado que nos corpos mal conformados de nascença habita sempre uma alma enferma? Nos corcundas sobretudo, porque a espinha dorsal é o tronco da inteligência. A deformidade de um membro, de um ramo apenas, não denota eiva tão profunda do espírito, é certo, mas revela que a alma não é nobre e superior. Não se concebe o anjo dentro de um aleijão.

O resultado destas cogitações era a gota de fel espremido, que ia filtrando a pouco e pouco no coração e acabaria por saturar todas as doces reminiscências dos últimos dias. Leopoldo convenceu-se que não devia amar a desconhecida; mas, ao contrário, arrancar de sua alma os germes da paixão nascente.

Tomando esta resolução, o moço, que vivia muito retirado depois de suas desgraças de família, esteve a lembrar-se de algumas antigas relações. Veio-lhe o desejo de cultivá-las de novo. Um instinto lhe dizia que para gastar as primícias de um coração virgem, não há como o atrito do mundo.

Entre as casas que outrora freqüentava, escolheu para a primeira noite a de D. Clementina, amiga íntima de sua irmã. Era uma senhora já no declínio da idade e da formosura; gostava muito de dançar, e por isso reunia constantemente em sua sala as moças de sua amizade. Logo que se achavam presentes quatro pares, a dona da casa dava o sinal, o marido arredava a mesa do centro, o filho, menino de quinze anos, sentava-se ao piano e...

(continua...)

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