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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma Pupila Rica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)

Teóf.

Admirável! De vis-à-vis toda a noite! (vão-se)

Cena 10ª

Firmino e Peregrino

Peregrino (moitando) Vê, meu pai?...

Firmino Agora ao menos é Júlia o seu par!...

Peregr.

Corina não podia sê-lo sempre.

Firmino Mas Júlia estava contrariada e agora vai radiante.

Peregr.

Também desconfio de Júlia.

Firmino Ela ama Teófilo, não é admissível que conspire contra o seu amor.

Pereg.

Mas os dois namorados acharam meio de iludi-la, e de abusar da sua credulidade.

Firmino Nesse caso deves lamentar tua irmã, e não desconfiar dela...

Pereg.

É que Júlia deixa-se enganar com simplicidade pueril!... Meu pai me desculpe... é natural que eu esteja desensofrido...

Firmino Tens razão: tudo nos contraria: até havia de acontecer que teu padrinho adoecesse hoje, para que a filha não pudesse vir!...

Peregr.

Mas que lembrança infeliz a de Júlia com a sua maldita boneca!...

Firmino Pensas que não me tenho arrependido desta malfadada reunião?...Mmas que hei de fazer agora?.. É indispensável mostrar o rosto alegre...

Peregr.

Sem dúvida: hoje é sofrer com paciência; mas desde amanhã, meu pai...

Firmino O que?

Peregr.

Sempre sou transparente aos olhos de meu pai: Corina é o meu brilhante futuro pela sua riqueza; mais do que isso, é a regeneração da fortuna paterna pela dedicação e pela diligência do filho enriquecido.

Firmino Sei tudo isso, mas só me lembro de ti.

Peregr.

Tão importante fim deve ser atingido por todos os meios e sem hesitação nem demora.

Firmino Portanto... (soa sempre a música)

Peregrino Meu pai, Corina é simplesmente uma boneca rica.

Firmino

E assim...

Peregrino Uma boneca não tem vontade, nem ação própria.

Firmino Compreendo; tenho, porém, fora de casa, o juiz dos órfãos a quem aliás é fácil enganar, e enfim confundir impunemente com um casamento consumado, e dentro de casa, o que é pior, minha mulher contra nós, minha mulher que me transtorna todos os esforços e todos os planos.

Peregr.

Por isso mesmo... exatamente por isso mesmo.

Firmino Explica-te... fala claro...

Peregrino O que me parece: que meu pai deve ajudar-me a fazer para que a boneca rica me pertença a despeito do juiz dos órfãos e de minha madrasta!...

Firmino Sim... sim...

Pereg.

Como me é preciso proceder para possuir a boneca rica?...

Firmino Estás hoje insuportável! Dize de uma vez.

Peregr.

Meu pai há de vê-lo hoje mesmo e dentro em poucos minutos em um apólogo vivo.

Firmino Mas que é?... (cessa a música)

Peregr.

A noite é de contrariedade e de paciência forçada; espere. Meu pai me perdoe; eu lhe peço o favor de ir observar se os seus convidados já se preparam e se o ordenam para a cena burlesca do batizado da boneca de Júlia; creio que é a hora aprazada...

Firmino Sim... é meia-noite... o tal batismo tem de preceder à ceia.

Peregr.

Meu pai, por quem é... vá ver...

Firmino Que aborrecíveis mistérios!... (vai-se)

Cena 11ª

Peregrino e logo Firmino Peregr. (olha em torno... e apressado entra no gabinete)

Firmino (voltando) Já vem todos... Peregrino! Peregrino! (Sai Pereg. do gabinete) Que fazias aí?

Peregr.

Preparava o apólogo... o apólogo que é lição.

Firmino Ei-los que chegam...

Cena 12ª

Peregr. Firmino, Carlos, Simão, Tomás , Teófilo, Fortunato, Estefânia, Teodora, Júlia, Corina, senhoras, cavalheiros. Teófilo traz uma salva contendo rosas desfolhadas, Corina imensa toalha de renda, Júlia um manto de renda (ilegível) próprio de senhora.

Teófilo Eu entrego a pia ao sacristão...

Estef. Quem é o sacristão?

Teóf.

O mais moço e o mais bonito do sexo masculino: (à Simão) não se adiante que não é o senhor... (à Carlos) É o senhor Carlos.

Simão

(a Pereg) Que homem impertinente! eu não me adiantei... ele é que parece querer divertir-se comigo!

Carlos (recebendo a salva) Obedeço: fico sendo sacristão de bonecas.

Teóf.

(continua...)

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