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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Anastácio (Outro tom) — E que têm vocês com isto?...estarão porventura no mesmo caso?...

Hortênsia — Oh!!! não...não...mas temos uma filha, e o quadro foi medonho.

Anastácio — Pois corrijam-se dos seus erros, se ainda é tempo. Maurício, a ostentação e o luxo com que tua família se apresenta, desabonam o teu crédito; toda essa gente que freqüenta hoje a tua casa; todos esses figurões que te festejam, hão de desaparecer e abandonar-te na hora da adversidade. Mana Hortênsia, é simples o segredo da felicidade: quando por acaso nos sentirmos entristecer por não poder gozar os prazeres que gozam os que são mais ricos do que nós, basta que olhando para baixo, contemplemos aqueles que ainda podem menos do que nós.

Maurício — Tem razão...nós nos corrigiremos...

Hortênsia — O mano deu-nos uma lição proveitosa; falou-nos com o coração e há de ver o seu triunfo.

Anastácio — Ainda bem; e principiem a ter juízo desde hoje...

Maurício — Sim...nada mais de ridículas pretensões...

Hortênsia — Nada mais de falsas amizades; nada mais de vaidades...


CENA III

Maurício, Hortênsia, Anastácio e Petit.

Petit — Excelentíssimas baron e baronesa do Rio Mirim! Hortênsia — A baronesa!...ah! eu vou imediatamente... (Vai-se)

Anastácio — Maldita baronesa! Oh! mana...ouça primeiro...

Maurício — O senhor barão! Depressa a receber Sua Excelência. (Vai-se)

CENA IV

Anastácio — Maurício! Qual! Deixaram-me por amor dos barões Mirins! Perdi a minha retórica, e está decidido que meu irmão precisa receber uma lição amarga e rude. Desgraçados! Debatendo-se já no fundo do abismo, e tão cegos e tão vaidosos ainda! Oh! é esta sociedade envenenada e corrupta que estraga todos os corações! É esta sociedade que deixando-se escravizar pela paixão do luxo, sacrifica todos os sentimentos e todas as considerações ao ouro; devorada por esta paixão funesta, prefere o ouro à sabedoria, o ouro à honra, o ouro à virtude! É ela que despreza o vestidinho branco da senhora pobre, mas honesta, pelas sedas e pelos veludos das grandes libertinas! É ela que ensina a abafar o pudor, e a menosprezar a própria reputação para satisfazer a paixão do luxo...sim! é uma sociedade depravada, que zomba e ri da consciência, da lealdade, da justiça, da pátria, de Deus, e que violenta se arroja pela estrada da desmoralização, tendo na mente uma única idéia — ouro! ouro! ouro! — (Vendo Petit) Que fazes tu aqui?...estavas ouvindo o que eu dizia, não?...

Petit — Oh! non pode ser; eu non entende português.

Anastácio — Que temos então?...

Petit — Um cavaleire comme il faut quer fala com monsieur Anastace palavra particular.

Anastácio — Conduze-o para esta sala. (Vai-se Petit) Quem será?...uma palavra particular?...não tenho negócios na corte, e mesmo já perdi as minhas antigas relações. Sou inimigo de segredos e de mistérios; gosto da franqueza, que é a arma do justo, e me acho de muito mau humor para sofrer segredinhos de homem. Diabo!...deixem o cochichar para as senhoras que gostam de falar com a boca fechada.

CENA V Anastácio e Henrique.

Anastácio — Henrique!...tu aqui?...

Henrique — É verdade, mas meu tio; desde ontem que vossa mercê não aparece, e eu precisava absolutamente falar-lhe. Foi necessário que se desse uma circunstância bem grave para que eu ousasse entrar nesta casa.

Anastácio — Pois então senta-te. (Senta-se)

Henrique — Não, meu tio; falarei de pé e depressa, porque devo retirar-me antes que me encontrem aqui, e que me lancem para fora.

Anastácio — Lançarem-te para fora?! E não vês que sairiam dois ao mesmo tempo?...

Henrique — Embora, ou ainda por essa razão.

Anastácio — Nesse caso fala de pé; mas eu fico sentado.

Henrique — Meu tio, desde ontem que se prepara uma trama infernal contra minha infeliz prima...

Anastácio — Eu logo adivinhei que tua prima entrava na história.

Henrique — Trata-se nada menos que de perpetrar um rapto...

Anastácio (De pé) — E a vítima?...quem é?...

Henrique — Minha prima.

Anastácio — Leonina?...será possível!...(Outro tom e sentando-se) Vamos adiante; continua.

Henrique — A vítima deve, pois, ser minha prima...Ouviu, meu tio? Leonina...minha prima...

Anastácio — Sim, tua prima; ouvi perfeitamente.

Henrique — E pode estar ouvindo com essa frieza?...

Anastácio — Henrique, em regra geral nunca se furta uma moça senão quando ela se deixa furtar.

Henrique — E então...

(continua...)

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