Por Padre Antônio Vieira (1655)
Antigamente, na República Hebréia, e em muitas outras, os tribunais e os ministros estavam às portas das cidades. Isso quer dizer nos Provérbios: Nobilis in portis vir ejus, quando sederit cum senatoribus terrae.29 Para qualificar a nobreza do marido da mulher forte, diz que tinha assento nas portas com os senadores e conselheiros da terra. A isto aludiu também Cristo quando disse da Igreja que fundava em S. Pedro: Portae inferi non praevalebunt adversus eam (Mt. 16,18): Que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela, – entendendo por portas do inferno os conselhos do inferno, porque os conselhos, os ministros, os tribunais, tudo costumava estar às portas das cidades. Mas que razão tiveram aqueles legisladores para situarem este lugar aos tribunais, e para porem às portas das cidades os seus ministros? Várias razões apontam os historiadores e políticos, mas a principal, em que todos convêm, era a brevidade do despacho. Vinha o lavrador, vinha o soldado, vinha o estrangeiro com a sua demanda, com a sua pretensão, com o seu requerimento, e sem entrar na cidade, voltava respondido no mesmo dia para sua casa. De sorte que estavam tão prontos aqueles ministros, que nem ainda dentro da cidade estavam, para que os requerentes não tivessem o trabalho, nem a despesa, nem a dilação de entrarem dentro. Não saibam os requerentes a diferença daquela era à nossa, para que se não lastimem mais. Antigamente estavam os ministros às portas das cidades; agora estão as cidades às portas dos ministros. Tanto coche, tanta liteira, tanto cavalo, que os de a pé não fazem conto, nem deles se faz conta. As portas, os pátios, as ruas rebentando de gente, e o ministro encantado, sem se saber se está em casa, ou se o há no mundo, sendo necessária muita valia só para alcançar de um criado a revelação deste mistério. Uns batem, outros não se atrevem a bater; todos a esperar, e todos a desesperar. Sai finalmente o ministro quatro horas depois do sol, aparece e desaparece de corrida, olham os requerentes para o céu, e uns para os outros, aparta-se desconsolada a cidade que esperava junta. E quando haverá outro quando? E que vivam e obrem com esta inumanidade homens que se confessam, quando procediam com tanta razão homens sem fé nem sacramentos? Aqueles ministros, ainda quando despachavam mal os seus requerentes, faziam-lhes três mercês: poupavam-lhes o tempo, poupavam-lhes o dinheiro, poupavam-lhes as passadas. Os nossos ministros, ainda quando vos despacham bem, fazem-vos os mesmos três danos: o do dinheiro, porque o gastais, o do tempo, porque o perdeis, o das passadas, porque as multiplicais. E estas passadas, e este tempo, e este dinheiro, quem os há de restituir? Quem há de restituir o dinheiro a quem gasta o dinheiro que não tem? Quem há de restituir as passadas a quem dá as passadas que não pode? Quem há de restituir o tempo a quem perde o tempo que havia mister? Oh! tempo tão precioso e tão perdido! Dilata o julgador oito meses a demanda, que se pudera concluir em oito dias; dilata o ministro oito anos o requerimento, que se devera acabar em oito horas. E o sangue do soldado, as lágrimas do órfão, a pobreza da viúva, a aflição, a confusão, a desesperação de tantos miseráveis? Cristo disse que o que se faz a estes, se faz a ele. E em ninguém melhor que nele se podem ver os efeitos terríveis de uma dilação.
Três horas requereu Cristo no horto. Nestas três horas fez
três petições sobre a mesma proposta: a nenhuma delas foi respondido. E como o
sentiu, ou que lhe sucedeu? Foi tal a sua dor, a sua aflição, a sua agonia, que
chegou a suar sangue por todas as veias: Factus est sudor ejus sicut guttae
sanguinis decurrentis in terram.30 Toda a vida de Cristo em trinta e três anos
foi um contínuo exercício de heróica paciência, mas nenhum trabalho lhe fez
suar gotas de sangue, senão este de requerer uma, outra e três vezes, sem ser
respondido. Se três horas de requerimento sem resposta fazem suar sangue a um
Homem-Deus, tantos anos de requerimentos e de repulsas, que efeitos causarão em
um homem-homem, e tanto mais quanto for mais homem? O requerimento de Cristo:
Pater; si possibile est,31 suposto o decreto do Padre e a presciência do mesmo
Cristo, era de matéria não possível. E se não ser respondido a um impossível
custa tanto, não ser respondido no que talvez se faz a todos, quanto lastimará?
O que mais se deve sentir nestas desatenções dos que têm ofício de responder,
são os danos públicos que delas se seguem. Não estivera melhor a república, que
o sangue que se sua no requerimento, se derramara na campanha? Pois isso mesmo
sucedeu neste caso. Se Cristo não suara sangue no Horto, havia de derramar mais
sangue no Calvário, porque havia de derramar o sangue que derramou, e mais o
que tinha suado. Se no requerimento se esgotarem as veias, a quem há de ficar
sangue para a batalha? Nem fica sangue, nem fica frio, nem fica gosto, nem fica
vontade: tudo aqui se perde. Começou Cristo a orar ou a requerer no Horto, e
começou juntamente a quê? A enfastiar-se, a temer, a entristecer-se: Coepit
pavere, et taedere, constristari, et maestus esse (Mc. 14,33; Mt. 26, 37). O
mesmo acontece na corte ao mais valoroso capitão, ao mais brioso soldado. Vai
um soldado servir na guerra, e levs três coisas: leva vontade, leva ânimo, leva
alegria. Torna da guerra a requerer, e todas estas três coisas se lhe trocam. A
vontade troca-se em fastio: taedere; o ânimo troca-se em temor: pavere, a
alegria troca-se em tristeza: et maestus esse. E que tem a culpa de toda esta
mudança tão danosa ao bem público? As dilações, as suspensões, as irresoluções,
o hoje, o amanhã, o outro dia, o nunca dos vossos quandos. E faz consciência
destes danos algum dos causadores deles? Pois saibam, ainda que o não queiram
saber, e desenganarem-se, ainda que se queiram enganar, que a restituição que
devem, não é só uma, senão dobrada. Uma restituição ao particular, e outra
restituição à república. Ao particular porque serviu, à república porque não
terá quem a sirva. Dir-me-eis que não há com que despachar e com que premiar a
tantos. Por esta escusa esperava. Primeiramente eles dizem que há para quem
quereis, e não há para quem não quereis. Eu não digo isso porque o não creio,
mas se não há com que, por que lhe não dizeis que não há? Por que os trazeis
suspensos? Por que os trazeis consumidos, e consumindo-se? Esta pergunta não
tem resposta, porque ainda que pareça meio de não desconsolar os pretendentes,
muito mais os desconsola a dilação e a suspensão, do que os havia de
desconsolar o desengano. No mesmo passo o temos.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.